segunda-feira, 30 de abril de 2018

QUANTO TEMPO TEM O TEMPO?

     
     Há muito o sujeito me causava repulsa e indignação...  Oh, cara chato, meu Deus! Se eu pudesse dava um soco na cara dele. 
Muitas foram as vezes que troquei de calçada para não ter o desprazer de cruzar com ele. Olhar sua cara então, nem pensar. Se alguém acha que conhece alguém inconveniente esteja certa que esse cara é duas vezes pior. Uma vez fui à casa da Francisca, irmã dele, a fim de ajudá-la em uma matéria que certamente cairia na prova. Mas não deu. Desisti, porque o garoto não sossegou até me tirar do sério. Começou me dizendo que eu era linda e que tinha sonhos românticos comigo. Até aí, tudo bem. Mas quando começou a contar os detalhes daquele sonho nojento, virei bicho.
- Cara, será que você não se enxerga? Quando foi que te dei permissão para falar assim comigo?, disse esfregando o dedo no nariz dele. Mas ele, como todo cafajeste, ria com o estado que conseguia me deixar. 
Desculpando-me com Chiquinha enfiei minhas coisas de qualquer jeito na mochila e saí chutando tudo o que via pela frente. Infelizmente a irmã não tirou nota boa e tudo por causa do desgraçado. Mas foi bem feito para ela, porque, como seus pais, nada fazia para melhorá-lo como pessoa.
Dois meses depois papai nos levou para o outro lado do planeta, pois era assim que eu chamava o lugar onde nos levou para morar. Não fosse a morte da minha avó a gente não saberia das novidades, como a separação dos pais de
 Chiquinha dois anos após nossa viagem, quer dizer, há treze anos.  
Francisca se casara e foi morar em Portugal com o marido. O irmão, aquele idiota de cujo nome, graças a Deus, eu já nem me lembro, montou um consultório após ter se formado onde atende a seleta clientela na parte da manhã, e a tarde, crianças e idosos carentes da região. Tudo de graça. Fora as semanas que viaja à Amazônia, mais precisamente à tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru, para tratar os carentes infectados pela malária, segundo titia me contou, e terminou dizendo que só Deus o mantinha de pé pois nem para descansar o rapaz tinha tempo.
Quando eu soube que ele pagava as despesas e as passagens, inclusive os remédios que receitava com o seu próprio dinheiro, eu juro que me deu vontade de sentar nos calcanhares e chorar até que as lembranças de ter sido tão rancorosa e grosseira sumissem da minha mente. 
 Mais de três vezes aqui, eu falei o nome da minha amiga Francisca, mas quantas deixei de falar no dele, do Guilherme, Guigui, como o chamavam quando jovem? Um monte, não é mesmo? Meu Deus, quanto arrependimento...
 Com os olhos úmidos pela perda de minha avó e a
rrasada com o que  minha tia acabava de dizer eu deixei minha xícara de café no balcão e voltei para rezar junto ao corpo. Coloquei minha mão sobre a mão que puseram no meu ombro, de quem recebi um beijo no rosto. Era Guigui, o Dr. Guilherme. Viera para atender seus clientes e dar o último adeus aquela que o viu crescer.  Primeiro por fora e mais tarde por dentro.
Segurei o rosto dele entre as mãos, olhei fundo no azul dos seus olhos e sem dizer de quê e porque,  pedi-lhe desculpas. Beijei-lhe as faces, abaixei a cabeça e, chorei...

quinta-feira, 26 de abril de 2018

BOLINHAS DE GUDE.

      
    Meu pai era boxeador, nas horas vagas, mas era mamãe quem dava porrada na gente o resto do dia.  Meu pai era um sujeito fora da curva, mas alguém tinha que segurar a turma, principalmente a mim, como ela dizia.  A gente morava  a meio quilômetro do comércio, mas qualquer moleque fazia o percurso em 15 minutos, ida e volta. Eu, no entanto, não conseguia fazer em menos de trinta. Ou será que alguém consegue jogar uma partida de bola de gude, principalmente se estiver ganhando, em menor tempo?  Minha mãe ficava uma arara, mas na distribuição das tarefas ir à rua era responsabilidade minha. No dia em que o tio Dilermando veio nos visitar, mamãe pediu-me que comprasse o pão para o café da tarde, mas não sem antes garantir que se eu levasse meia hora, como fazia, haveria de me ver com ela.  Desci a minha rua à mil por hora, mas...
A padaria dava frente para o que sobrou de um antigo armazém cujo telhado parecia estar desabando.  Mesmo assim Vera Olho de Gato passava a maior parte do tempo lá dentro. Parecia não saber o que era medo.  A moça era escurinha, muito magra e bem mais alta do que eu.  Tinha  35 anos aproximadamente e vivia do que lhe dessem. Segundo diziam, era meio perturbada.  Quando me aproximei Verinha me cercou pra pedir dinheiro.  Eu tinha uma nota de dez reais da mamãe.  Eu disse que tinha o dinheiro, mas não podia dá-lo a ela. Então, como ninguém estava olhando, Verinha levantou o vestido e disse que por cinco reais me deixaria tocar naquilo que me mostrava.  Eu, um moleque de 14 anos via, em loco, não a cores, claro, aquilo que me levaria à loucura quando dela me lembrasse. Sem pensar nas consequências aceitei a proposta.  Era só comprar o pão e pegar o troco, até porque era com ele que eu poderia tocar no que ela havia me mostrado. Assim que saí da padaria Verinha me mandou entrar.  Estava escuro e o cheiro não ajudava muito.  Tentei negociar dizendo que era muito dinheiro para botar a mão no que ela tinha em baixo daquele vestido surrado e fedorento.  Então, para não perder o freguês, suponho, me permitiu fazer com ela o que os casais fazem quando estão sozinhos. E eu fiz. Fiz, mas foi diferente de tudo o que já tinham me falado, inclusive quando cheguei em casa sem o dinheiro, que, se Vera não pegou deve ter caiu no meio dos escombros  e sem o pão que ela, com uma dentada comera a metade.
Mamãe pediu licença ao meu tio e me levou para fora querendo que eu a convencesse que não tinha perdido o dinheiro dela jogando bola de gude.

segunda-feira, 23 de abril de 2018

EU TAMBÉM QUERO...

    O que D. Marinete estaria fazendo por aqui, meu Deus? Acho que vou oferecer-lhe uma carona, até porque, ontem, durante o almoço com os meus amigos em minha casa, percebi que ela estava meio caladona e sempre que nos dirigíamos a ela balançava a cabeça em resposta ou dizia um sim ou um não, simplesmente.  Até o Clóvis, que frequentava a casa dela por ser amigo do marido, percebeu. Foi sorte não ter buzinado ou o  Clóvis, que coincidentemente saía do motel na mesma hora em que ela passava por ali, teria ouvido. Agora, o que estaria D. Marinete fazendo ali enquanto ele estava no motel? Ou será que os dois...  Meu Deus, eu não quero nem pensar...  Acho que deve ser coisa da minha cabeça, só pode ser.  Esses caras não seriam tão audaciosos como a minha mente suja me obriga acreditar para fazer um negócio desses. Até porque D. Marinete e a mulher do sujeito frequentam a mesma igreja, além de serem amigas. Eu jamais teria acreditado se me tivessem dito, mas eu vi com esses olhos caramelados que talvez um dia a terra coma.
Confuso e sem saber o que fazer acelerei e fui embora.  No final do dia eis que D. Marinete bateu lá em casa.  Disse que u'a amiga contou para ela que tinha me visto em Mesquita, em Nova Iguaçu, mas que ela tinha respondido que eu jamais deixaria a zona sul para andar num lugar como aquele.
Fiquei puto com aquela conversa. Deu até vontade de voar na garganta dela, mas acabei confirmando a história;
-Não só a sua amiga me viu como eu também a vi. Ela estava saindo do motel com um dos nossos amigos.  Eu fiquei e ainda estou muito indignado com o que vi, disse-lhe eu.  D. Marinete empalideceu. Chorou de soluçar.  Depois enxugou as lágrimas com as costas das mãos e disse que foi num momento de fraqueza que tudo aquilo aconteceu.
- Eu não tenho nada com a sua vida e muito menos com a do Clóvis.  Só  acho que o seu marido, como a mulher dele merecia um pouco mais de respeito.
- O que você quer que eu faça para você me desculpar e esquecer tudo isso? Perguntou.
- Nada. Não quero que faça nada a não ser que você tenha algo em mente, já que anda cheia de surpresa ultimamente.  Respondi.
- Bem, todo mundo sabe que você tem olho em mim e nenhum homem olha para uma mulher sem pensar em levá-la para cama. Portanto eu te pergunto; o que você faria se eu aceitasse um convite seu para sair? Perguntou empertigada.
- É verdade.  Eu sempre tive olhos gordos em você, mas jamais a cantaria, até porque seu marido é meu amigo e também não tenho a cara de pau do Clóvis.  Mas já que você perguntou...
No momento em que eu a vi em Mesquita jamais acreditaria que tivesse coragem de ir onde acabou de dizer que foi, mas agora, depois da confissão, meu Jesus do Céu! Será que o marido e os filhos conhecem a mulher que os tem por esposo e filhos?  Enfim, como diz minha avó, só o marido e a mulher concordam com os segredos que têm.

quinta-feira, 19 de abril de 2018

PUNK NA CABEÇA.

    Não viajei no feriadão, fiquei em casa. Fui o único do prédio que esperou por quem não veio, me deu toco. Não me zanguei, até porque chovia muito no final de semana. Teve um momento que até me arrepiei com um trovão. Parecia que o prédio ia cair. Mal eu me refiz do susto tocaram o interfone, e como o sistema ficava meio esquisito quando chovia achei melhor descer para conferir. 
Na portaria alguém se espremeu entre mim e a porta que eu nem tinha aberto direito e se enfiou num dos elevadores. Apertou o dez e, sem me olhar, começou a futucar as unhas. Era u'a moça alta, ossos malares visíveis, um maxilar que definia claramente o queixo. O rosto era longo, cabelos curtos pintados de azul e vestia casaco cumprido até o coturno que escondia as pernas da calça. Por baixo uma jaqueta preta sobre a blusa da mesma cor. Dois piercings no nariz, três em cada orelha, outros nos cantos da boca e uma bolinha de ouro no meio da língua. Nos dedos, anéis de prata em forma de caveira e os olhos com muita sombra no entorno. Mesmo assim era bonita.
No segundo andar as luzes piscaram. O elevador deu uma sacudida, mas seguiu seu trajeto. As luzes piscaram de novo, mas desta vez o elevador deu um tranco mais forte e parou entre o sexto e o sétimo andar.  Acionamos a campainha do alarme, mas ninguém apareceu para ajudar. O ar condicionado parou e o calor tomou conta da gente. Em cinco minutos a garota começou a suar.  Em dez tirou o casaco e o amarrou na cintura. Assim que o ar deixou de circular e as luzes se apagaram eu comecei a rezar e a estranha perdia os sentidos. Apesar do calor ela estava gelada, talvez porque estivesse nua da cintura para cima não obstante o pequeno sutiã. O elevador começou a tremer, deu um novo tranco e subiu. Apagado, mas subiu.  Foi até o andar que eu tinha marcado. 
 - O que eu faço com essa garota, meu Deus? Deixá-la onde estava eu não tinha coragem.  Levá-la até o décimo eu não tinha também. 
Ainda confuso eu a sacudi e bati no seu rosto, mas nem um sinal ela dava de vida. Arrastei-a para dentro de casa eté minha cama.  Tentei ligar para alguém, mas não tinha sinal. Acendi um toco de vela. Dei palmadinhas no rosto, assoprei seus ouvidos, mas ela não se mexia. Achei que respiração artificial fosse uma boa, por isso fechei a porta para não pensarem besteira e me posicionei sobre ela. Curvei-me até sua boca, mas não tive coragem. Como eu poderia colocar minha boca na de uma outra pessoa sem antes escovar os dentes? Corri ao banheiro e resolvi o problema.  Na volta eu achei que ela tinha mudado de posição.  Tentei contato, mas nada. 
-Será que ela está mesmo apagada ou tá tirando onda com a minha cara?, pensei. Com essa possível certeza reiniciei os trabalhos.  Subi na cama com ela entre os meus joelhos e coloquei minha boca na dela. Beijei-a com sofreguidão. Beijava, mas com a atenção voltada para sua respiração que aos poucos ia aumentando até que ficou igual a do Usain Bolt no final de uma prova. 
-Graças a Deus a garota está viva. Eu sei que estava mal, mas agora deve estar me testando. Deixei seus lábios e desci com a boca pescoço abaixo. Ela resfolegava tal qual locomotiva subindo a serra.  Com muita calma e carinho saquei um dos seios  na intenção de lambê-lo, e o fiz. Livrei-a dos empecilhos que  a sufocavam e a degustei por inteiro. Desci, como um cão bebendo água, até abaixo do umbigo onde escalei o monte de Vênus. O vento não me soprava os aromas do campo, mas também não me desagradava o perfume que me trazia. Desci deslizando a encosta por um lado e voltei a subi-la  por um outro.  Escorreguei pelo meio até que cheguei ao pomar. Que contrassenso,  sucumbi afogado na seiva da vida. 
Além do que eu fiz, nada mais pretendi sem sua participação por mais que o meu corpo exigisse. E para fugir dos demônios corri ao banheiro e tomei uma ducha bem fria. Na volta, advinha qual foi a minha surpresa?  A punk estava de pé ajeitando o cabelo. Já era senhora de suas próprias vontades.  Jogou o casaco no ombro e saiu batendo a porta atrás de si. Nem quis saber o porquê de ter acordado numa cama desconhecida.
-Este fato me dá a certeza de que, nem toda porta que abre é para você entrar. Quem sabe não é para você sair?

segunda-feira, 16 de abril de 2018

NO ANDAR DE CIMA.


    Toda noite é a mesma coisa. O vizinho do andar de cima fica até altas horas com os amigos que vão à sua casa fazer não se sabe o quê. Só ouvimos gargalhada, palavrão e barulho de garrafa entre outros. Os vizinhos dizem que já estão acostumados com a sacanagem dos finais de noite.    E a gente esperando o dia amanhecer para poder dormir. 
Na semana passada quase aconteceu uma desgraça. Não fossem os gritos das mulheres alguma coisa ruim teria acontecido.  As vozes, entrecortadas, deixavam perceber que alguma coisa grave estava para acontecer caso um deles, que não sabemos quem, não as ouvisse. Alguns dizem que se tratava de roleta russa enquanto outros afirmavam que podia ser algo pior, se é que existe algo pior do que brincar com a morte em detrimento da vida. Tem gente que depois de velha vira criança levando coleguinhas pra brincar na casa dele.  
No dia seguinte fiz questão de ficar olhando para ver o estrago que a festinha fez em cada um.
Dois homens, um de 15 anos e um coroa na casa dos 65 saíram primeiro. Atrás vieram uma senhora baixinha e forte e duas garotas beirando os 17 e 18 anos. Todos demonstrando que a noite fora bem aproveitada. Uma pergunta, no entanto, não calava; o que um velho e um garoto faziam com três mulheres num apartamento onde a bebida e os palavrões rolavam soltos? Talvez o velho e a gordinha tivessem a experiência que certamente faltava nas  moças e no rapaz, mas não seria suficiente para deixá-los do jeito que ficavam. Gritinhos de mulher e risos de homem as instigando fazer alguma coisa não era raro. Todos bebiam e fumavam, só não sabemos se era o que a lei permitia ou que condenava. Falavam coisas como tirar camisa, quem sabe camisinha? E por que tirar e não botar? Falavam de alguém estar com a boca suja, quem sabe o nariz? Esse tipo de viagem os igualava no tocante a idade e na irresponsabilidade.
Ontem, para o nosso desespero, o número de pessoa ficou maior.  O rapaz chegou com um cara que era a sua cara e tinha o dobro de sua idade, enquanto uma das meninas levou a mãe ou  não se teria ouvido alguém chamar a outra de mamãe quando pediu para usar não se ouviu bem o que. As vozes dos homens eram diferentes uma das outras enquanto as das mulheres tinham o mesmo tom.
Pouco antes do amanhecer alguém tentava colocar um sapato menor do que cabia no pé de uma das moças por isso a ouvi pedindo que não empurrasse com força porque ela não era como fulana, eu não entendi o nome, para aguentar aquele tipo de coisa. As outras riam da covardia de quem se assujeitava aquele tipo de brincadeira. Pelo que pude acreditar, o velho ou o pai do rapaz também reclamou da brutalidade com que o calçavam. E pelo visto, o sapato era um ou dois números menor. 
No outro dia lá estava eu e as minhas olheiras querendo descobrir de quem era o sapato e quem o tentara calçar em quem, se é que era de sapato que se tratava.
Felizmente eu não estava na festa, porque, calçando 44, como eu calço, meu sapato não machucaria o pé de ninguém. Principalmente das mocinhas, mas se fosse o contrário eu nem na brincadeira entrava.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

"PRECISO FALAR..."

    Há tempos nascia a criança mais linda do mundo. Não era simplesmente por ter sido o primeiro filho de um casal que se entendia e se respeitava, mas por ter sido querido e amado antes de decidir se viria. Esse moleque surgiu no mundo para iluminar a terra e o fez de maneira que as flores ficassem mais cheirosas, mais bonitas e o dia mais prazeroso.  Nasceu loirinho como um dinamarquês.  Seus olhos azuis pareciam um céu de brigadeiro e tão esmeralda, ao mesmo tempo,  como se fora filho da mãe do seu pai.  
 Essa criança cresceu para tomar  no mundo o espaço que tomou.  Fez nele o que quis e o que não quis.  Acertou como todos prevíamos, e errou como qualquer um de nós. 
 Hoje você é um homem. Senhor das suas vontades e de todos os seus desejos. Paga pelas dívidas contraídas e recebe os louros pelas vitórias conquistadas.  
Você hoje, meu filho, não fica um poucos mais velho, mas fica experiente o suficiente para entender o amor de um pai e o que ele deseja e reza para que o filho tenha e se torne.  Portanto,  seja o que você achar que pode ser, mas nunca se esqueça do amor e do orgulho que tenho em fazer parte da sua vida.
Seu pai.
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                                                    (DE FRENTE PARA O PERIGO)
       Um recém-chegado dos cafundós de Garanhuns se espichava como um lagarto num dos bancos do Terminal do Tietê. Enganavam-se os que achavam que exibir-se fosse a intenção dele, já que estava ali a espera do irmão ir buscá-lo, como havia prometido. Enquanto ele não vinha, nosso herói se lambuzava com os olhos enfiado entre as pernas de quem as escancarava diante de um par de olhos gulosos como o dele. Às vezes as pernas se abriam tanto que pensava ver cabelinhos escapando às bordas da calcinha. E graças ao irmão não dar as caras ele pecava imaginando coisas.
  Perigo havia no que fazia, mas também era gostoso enfiar os olhos até aonde ela deixava ver. 

 Esse sujeito era grandão e mal acabado. Era nascido e criado onde Judas perdeu as botas e só estava ali por insistência do irmão que há anos tentou a sorte e se deu bem. Hoje ele é casado, bem empregado e pai de duas filhas. Na caatinga, o máximo que viam de uma mulher eram os tornozelos, mas que muitas vezes os levavam a sonhos pecaminosos.
  Agora estava ele ali deitado se refestelando...
Esquecido da vida pensava no que faria com aquela cabritinha presa no seu cercado.
Rolou novamente os olhos para os lados e na certeza de não ser observado, meteu a mão no bolso e lá ficou mexendo e remexendo não se sabe em que até que vermelho como um tomate se curvou para sufocar um grito que certamente tocaria todos os sinos da cidade.
Refeito sentiu-se quase saciado.
Segundo ele contou, passou um filme na mente dele onde, sem vergonha nenhuma, essa mocinha se jogava de joelhos e com movimentos que fazia com a boca na altura da cintura dele o obrigou a se curvar para abortar um grito. Talvez quisesse ir além daquelas olhadelas, mas as penas da lei o impediam. De qualquer maneira não deixou de se lambuzar olhando o bonito par de pernas nervosas que, em nenhum momento a garota sossegou.

 Dizem os especialistas que é uma ótima maneira de se masturbar sem que ninguém as note. Isso só se for na teoria, porque na prática o cara sabia ou melhor, tinha certeza daquilo que o levou a calar o grito.
 Sem ter como esconder o que fizera viu a pequena se aproximar e, olhando para as roupas dele disse que não o tinha reconhecido. Desculpou-se em nome do pai que estava trabalhando e mesmo não acreditando que
aquilo pudesse ser irmão do seu pai, o ajudou a entrar no uber e foram para casa.

sábado, 7 de abril de 2018

E SE FOSSE SEU FILHO?

 
    Vocês sabem que não gosto de falar de política num espaço onde os amores de um homem por suas mulheres contam, cada um, suas próprias histórias.  Mas não posso me calar diante da sacanagem de quem chama de burro o eleitor que, segundo diz, não sabe votar e se justifica dizendo que é burro porque põe no poder aquele que o chicoteia. Eu sei que um mal governo é resultado dos votos que damos aos maus candidatos. Quando se vota mal todos sofremos com a escolha. Mas, como escolher um bom candidato se os que nos oferecem não têm qualificação para o cargo, caráter para exercê-lo e compaixão para com os que os elegem? Eu penso que fazem isso para nos induzirem ao erro. E a gente acaba errando, não é mesmo? 
Alguém duvida que o meu filho ou o seu, caso concorresse e ganhasse as eleições para presidente, fizesse um governo voltado para os ricos, ou para aqueles cuja sorte nunca lhes favoreceu? Eu acho, e você também deve achar, que ele trabalharia a favor de todos, principalmente dos mais necessitados. Certamente que não permitiria a receita federal, através do imposto de renda,  descontar dos trabalhadores um percentual igual ou maior do que desconta dos políticos e dos mais abastados, como há décadas vem acontecendo. Será que vocês achariam que o seu filho ou o meu deixaria de cobrar os impostos sobre as grandes fortunas, sobre o lucro dos bancos e das empresas que sonegam às vistas de todo mundo para saquear o bolso do pobre como eu e você, por exemplo? É claro que não. Quer dizer, é claro que ele tentaria reverter essa vergonhosa situação, mas quem somos nós para acreditar que um presidente, sozinho, possa mudar leis criadas por quem delas se beneficiam?  Olhem só; um presidente sozinho (sem o apoio da Câmara e do Senado) governa de mãos atadas e nada pode fazer a seu favor e muito menos a favor dos outros, principalmente dos pobres. Só há um jeito de mudar o rumo dessa coisa ou seja, trocar o presidente, os deputados e os senadores, porque um presidente eleito precisa do aval dessa turma às mudanças que se farão necessárias, mas,  com o mandato de oito anos dos senadores, será difícil, senão impossível, aprovar leis que os desfavoreçam.  Eu nunca vi nenhum presidente reunir a mídia para dizer que a câmara dos deputados e o senado estão boicotando o trabalho que fez em benefício do povo, como melhoria na educação, na segurança, na saúde e de novos empregos para os jovens que atingem a maioridade. Eu acho que se o presidente agisse dessa maneira suas medidas provisórias aprovadas pelos políticos da área, com certeza.
É por essa razão, por não saber em que parede está localizada a porta de saída é que eu prefiro falar do amor entre as crianças. Do desejo do homem pela mulher e do riso às coisas que digo.

terça-feira, 3 de abril de 2018

UM JEGUE DE CALÇA.

     
    Antes dos 13 anos, Tico Duas Pernas e Meia, já tinha um propósito; estudar numa cidade onde ninguém o conhecesse.  Aos 15 realizava seu sonho.  Só que, curiosamente, as pessoas daquele lugar se tratavam pelo nome e o sobrenome ao mesmo tempo.  Paulo da Concha, por exemplo, era o sujeito mais antigo no lugar e com ele moravam Maria das Sandálias, suas esposa e os filhos, Pato de Calça e Insossa Sem CausaSuzana da Rua Larga, mulher do gerente do mercadinho da Rua das Batatas era bastante assanhada e se Carlos Meleca, como o chamavam, não a mantivesse com rédea curta, há muito Suzana da Rua Larga estaria sem marido.
Na igreja o vigário Paulo Gamela, lembrado pelo coroinha Guto do Rabo Riscado, dava boas-vindas aos recém chegados. Os pais de Tico Duas Pernas e Meia  ficaram emocionados com o carinho.
Na saída um grupo de jovens se perguntava;
 - Por que Duas Pernas e Meia?
Tico era grande e forte para sua idade e isso impunha, de certa maneira, o respeito que merecia.  Era de fato um negro a ser respeitado, mas nada havia que pudesse frear a curiosidade do povo, até pelo contrário, a cada momento se tornava maior. Tico Duas Pernas e Meia não tinha sossego.  Achava que morando onde todos tinham nomes estranhos pudesse viver tranquilo. Só que não. Nem na escola os colegas o deixavam em paz. A maioria já tinha ouvido coisas parecidas, com homem de "três pernas", mas de duas e meia, nunca. Até mulher casada chegava junto na esperança de descobrir qualquer coisa que justificasse o apelido, mas ele em nada colaborava.  Não fosse o padre chamá-lo para uma conversa sua vida ainda seria um mistério.
- Não sei qual o segredo que trazes contigo, meu filho, mas sei o que pensam a teu respeito.  Isso em nada incomoda a mim, a igreja ou a Deus, mas incomoda aqueles que mal te conhecem. Portanto, te aconselho tirar proveito da coisa, ao invés de andares olhando os próprios pés, como andas, por que não ergues o nariz, colocas nos lábios o mais bonitos dos teus sorrisos e sais por aí como quem ganhou a sorte grande?  Com certeza darás asas à imaginação daqueles que perdem o sono por medo de uma possível anomalia que possas ter.
 E assim fez Tito Duas Pernas e Meia.  Respondia a cada cumprimento com um aceno e um largo sorriso, e foi essa mudança que pirou a turma de vez.  Quem primeiro deu sinal da loucura foi Suzana da Rua Larga, que invadiu o banheiro da casa onde o jovem tomava banho e encheu as mãos com o que ele tinha no meio das pernas.
- Ué! Cade aquilo que você esconde da gente, cara? - Perguntou horrorizada com o que tinha nas mãos; nada além de qualquer coisa parecida com o dedo mindinho de uma criança.
Desesperada correu porta afora gritando palavras sem sentido como maluca que todos achavam que era.
A família do rapaz voltou à cidade natal na manhã do dia seguinte...