quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

FENDAS E DECOTES.

 
     Quando ambicionamos ter alguma coisa é preciso pagar alto ou muita luta para conquistá-la.  Assim foi com Arthur que desde menino pensava namorar Maria Rita, a mais linda do bloco B.  Os anos passaram, as crianças cresceram e também mudaram para outros endereços.  E como é público e sabido as meninas desenvolvem mais depressa que os meninos, por isso a pequerrucha era agora um  mulherão, ao passo que Arthur parecia não saber onde esconder as fraudas.  Essa tortura durou até aos 17 anos quando o menino, agora rapaz, ingressou na faculdade de direito.  Talvez  não fosse ele o melhor na oratória, mas com certeza o mais elegante e mais bonito.  Dias antes da formatura Maria Rita ficara sabendo da festa por conta de um convite que a prima de sua amiga havia recebido. Maria Rita, impetuosa, resolveu fazer-lhe uma surpresa.  No dia da colação de grau a moça, dizendo-se prima de um dos formando, conseguiu acesso ao salão onde a turma comemorava o feito. Vestida num longo vermelho, ajustado em cuja fenda escapava-lhe a coxa esquia e bem torneada até junto a calcinha, Maria Rita era alvo de todas as atenções. O decote, este, bastante generoso, permitia aos olhares mais atrevidos um alcance muito mais aprofundado. Não tinha como não ouriçar os rapazes e as faladeiras vestida daquele jeito.  Bastou que as falsas defensoras dos bons costumes a vissem para que tomassem partido da coisa. O que logo foi feito.  Arthur e mais outros colegas largaram mão dos parentes e de outros amigos e foram ater-se aos mais curiosos. Assim que Arthur tomou conhecimento de quem atrapalhava o bom andamento da festa, rodou nos calcanhares e voltou para a festa. Na tribuna tomou o microfone e gritou palavras de ordem aos que antes babavam por outra razão.   Entusiasmados com cada palavra do, agora, Dr Arthur, respondiam com Viva! Urra! E coisas do gênero. Depois da entrega dos diplomas dispersaram-se indo, a maioria a um restaurante na intenção do "calote" tradicional. Maria Rita fora esquecida com suas fendas e seus decotes, assim como Arthur permanecera por toda a infância longe dos holofotes dos olhos dela.

sábado, 24 de fevereiro de 2018

GANHAR NO GRITO.

    
      Gritos, não sabia se de prazer ou de dor me jogaram fora da cama naquela madrugada. E, pelo que fiquei sabendo, eram dos novos moradores de um bloco de dois apartamentos sendo um parede-meia com o meu. Quanto ao movimento parecia com latas de cerveja e  taças ou copos de vidro se tocando. Água jorrando na pia e no chuveiro do banheiro e depois um silêncio sepulcral. Depois, do nada, surgiram os sussurros do homem e o choramingar da mulher. Segundos depois uma ordem que ela não teria cumprido, por isso o ruido de um tapa e um gemido mais profundo e demorado. Em seguidas surgiram novas ordens e novos tapas. Os gemidos se tornaram miados de gato abandonado, sofrido, e entre uma coisa e outra um gesto, talvez uma estocada mais profunda e um grito de satisfação ou desespero -  igual ao que me pusera de pé, como contei. Uma voz semitonada que dizia, toma, toma, toma, como se fosse qualquer coisa, menos os tapas que de antes. Naquele momento ela já não apanhava, pois trocara o grito e o choro por ordens que dava e não mais recebia. Eu, por mais que machucasse minha orelha de encontro a parede não conseguia entender o que ambos faziam com as ordens dadas por ela, e só então percebi o papel medíocre que eu fazia ouvindo a conversa dos outros.  Sem graça voltei ao meu leito.  Cobri a cabeça com travesseiro enquanto socavam a cama na minha parede.  Foi aí que descobri o quanto eu estava  suado e a minha pressão descompassada. Isso sem falar que se tocassem a campainha da minha porta eu não teria como atendê-la sem deixar ver as relevâncias na área abaixo da minha cintura. 
 Aí eu pergunto aos vigários e aos pastores. Pergunto também a mãe de família sem esquecer  dos monges e outros puritanos; O que vocês fariam se socassem a parede, como eu a soquei pedindo silêncio porque precisava acordar cedo e em resposta recebessem o convite para me juntar a eles pois a cama era grande e forte o bastante para o peso dos três?
 - Eu não sei da sua resposta, mas eu não dormi mais naquela noite e muito menos nas subsequentes.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

FORA DE SALA.

     Recebi um SMS  de uma pessoa dizendo-se ex-colega de colégio querendo se encontrar comigo. Eu, como qualquer mortal, liguei para saber quem era e do que se tratava. Mesmo a pessoa dizendo que tinha inveja da minha memória eu não me lembrava dela, até porque o tempo levara com ele, além da minha invejável memória, também a calma e a minha paciência. Por isso fui até grosseiro quando a ameacei de interromper a ligação se não me dissesse quem era. Só que ela não concordou e quase estourou os meus tímpanos dizendo;
 - Você não vai desligar essa coisa na minha cara, tá bem? Eu sei que você é ocupado,  mas não posso deixar de dizer que estou lhe fazendo um favor, porque, pelo que eu sei, fui a única da nossa sala que você não pegou porque as outras, ah, as outras já eram piriguetes mesmo antes de surgir esse termo.
- Agora quem ficou curioso fui eu. Afinal de conta, quem é que está falando? Perguntei meio sem graça.
-  Dorinha. Respondeu ela sorrindo.
- Dorinha, Dorinha. Quem seria Dorinha, meu Deus, que  eu não me lembro? - Resmunguei já não tão curioso.
- Eu sou a garota que todos cantavam na sala enquanto você me olhava com o rabo do olho. Naquela época era eu e o resto da turma zoando  as aulas da professora Dalila, lembra?  Inclusive você marcou de se encontrar comigo no recreio, mas como rasguei o bilhete que seu colega enfiou no meu caderno antes de lê-lo, a gente acabou não se vendo. Disso você se recorda, ou vai dizer que estou mentindo? Você até ficou puto e nunca mais olhou na minha cara - concluiu.
- Ué, se não leu o bilhete como sabia que era um encontro o que eu queria com você? - Perguntei curioso.
- Ah, sei lá. Você sabe como adolescente é. Só que hoje as coisas são diferentes e se você ainda quiser se encontrar comigo nem precisa mandar colega nenhum botar nada no meu caderno.  A gente marca e sai como você sempre desejou.  Ah, outra coisa. Eu nunca saí com ninguém da nossa turma.  Eu fazia aquele salseiro todo, mas era virgem e só o deixei de ser quando fiquei noiva, mas o safado sumiu depois de ter usado e abusado da bobinha que eu era.
- Eu sei que da nossa turma você não saiu com ninguém, mas do resto da escola não sobrou um que não a tivesse passado na cara - falei brincando.
- Antes que você leve a conversa para o lado da zoação eu vou desenhar o que você não quis entender: Hoje, às 20h estarei no portão da escola onde estudamos, e agora dou aula. Estarei lá com uma professora que trabalha comigo, a sua espera.  A gente leva a pessoa em casa e depois toma uns chopes na Cabana da Serra, na estrada Grajaú-Jacarepaguá onde  a gente se viu certa vez. Você estava com um amigo e eu com o professor de matemática que não sabia onde enfiar a cara quando você chegou - concluiu.
- Ah, tá.  Ele não sabia onde enfiar a cara, mas eu sabia onde a tinha enfiado ou ia enfiá-la quando saíssem dali. A propósito; por que suas notas não eram as melhores da sala se os professores saiam com você, coisa que nenhum aluno conseguiu pelo que está me contando?  
- Então estamos combinados - disse mudando de assunto. Ás 20h estaremos no lugar marcado a sua espera, e, por favor, não vai deixar furo ou conto para todo mundo que você é bicha.
- Isso  faz 10 anos que teria acontecido...

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

POR CIMA DA CERCA

      Eu queria dar uns pegas na filha do meu novo vizinho, mas nada conspirava a favor. Primeiro eram os meus estudos, depois minha mãe dizendo que crente não gosta de seguidores da doutrina espírita, como nós, e por fim, o pai da garota não permitindo a filha de fazer amizade com quem não fosse da sua crença.  Enquanto procurava meios para me aproximar  eu a observava da sacada de onde a via trocar de roupa ou até nua, perambulando de um cômodo ao outro. Sempre achei que ela soubesse que a sombra que se mexia na varanda fosse minha, até porque, mamãe fazia questão de deixar a luz acesa quando escurecia. Enquanto isso os hormônios esculturavam em mim o homem que eu me tornara, e no corpo da filha do vizinho esboçava uma bela mulher. O meu pai sofria quando me via triste por não ter como chegar na moça até me convencer a fazer um curso, na igreja do bairro, sobre os mistérios da bíblia.  Um dia, depois da aula, o pastor me convidou para o retiro que faziam. É claro que eu não dormi a partir daquela hora pensando no privilégio de poder vê-la de perto. De sentir o seu perfume e até tocar, mesmo que levemente, em quem fizera de mim, a distância, o que todas as mulheres fazem quando as assediamos.  Na primeira noite procurei um jeito de ficar ao seu lado o mais próximo que pude e quando todos fecharam os olhos em oração eu arregalei os meus para pegá-la me lambendo com os seus. Com a cabeça fiz um gesto para que saísse  de onde os fiéis diziam amém ao pregador.  E no terceiro aleluia a gente já se beijava e eu tocava no rosto dela, depois nos seios por sobre a roupa, e  por baixo, logo depois.  Ninguém deu por nossa falta,  mas na manhã seguinte era evidente a nossa felicidade. Da minha parte exultava com tudo e qualquer coisa, enquanto da parte dela o viço da pele e o brilho nos olhos davam a todos a certeza de que Deus, de fato, existia, até para os céticos como eu achava que era.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

UM HOMEM DE MEIA TIGELA.



      Sexta-feira é dia de chope aqui e em qualquer lugar deste planeta e no banco onde eu trabalhava não seria diferente. Naquela tarde a agência fervia. Era cliente pagando conta, fazendo saque e depositando enquanto a gente se virava para atendê-los e aos telefones que não paravam de tocar, inclusive aquele que esgoelava no canto da minha mesa. Despachei um correntista e fui até lá.
  - Banco Itaú, boa tarde... Sim sou eu.  Mas quem está falando? - Perguntei como se não soubesse que a voz era a mesma que me dizia que um dia me levaria para a cama para fazer comigo coisas das quais nunca me esqueceria. E desligava rindo na minha cara. Dessa vez foi um pouco diferente.  A dona da voz fora mais taxativa. Disse que o seu sonho seria me levar a um lugar onde pudesse me dar seus beijos e seus carinhos e em troca teria os amasso de que tanto precisava.  Eu devo ter ficado vermelho como um tomate, mas confesso que a vontade de conhecê-la aumentava a cada vez que o telefone tocava.
   - Por favor, pare de brincadeira porque eu estou trabalhando, e também não me ligue mais porque tudo o que você fala é mentira. Você não teria coragem de ficar sozinha comigo nem por um minuto, sua tonta.
   - Arranjes um lugar onde um não veja a cara do outro e eu te darei o melhor orgasmo que já tiveste - disse com voz de quem sobe pelas paredes. Passe o tempo que passar e tu jamais te esquecerás do que deixarei que faças comigo na cama - concluiu.
Tremi naquele momento. Quem seria essa desvairada que sempre me telefona como se fosse um homem assediando a mulher desejada? Será que teria mesmo esse poder para humilhar um cara com 30 anos e que sabe tudo de mulher como eu acho que sei? 
  - Eu garanto, rapaz, que nunca te esquecerás do encontro que teremos esta noite. Sim porque será hoje ou nunca mais saberá de mim - disse ela sorrindo. 
  - É claro que não verás o meu rosto, mas poderás me descobrir com tuas mãos, pois as quero no meu corpo, nos meus seios, nas pernas e onde mais se atreverem. No final - concluiu - tu terás a tua disposição uma fêmea que escolhe, entre tantos que a cantam, o cara certo para se deixar possuir.  Encontre o lugar, menos motel, onde possamos ficar juntos que dentro de 15 minutos volto a te ligar  - e desligou.  Fiquei com o fone mudo no meu ouvido pensando com quem arranjaria um espaço para esse evento. Foi aí que eu me lembrei de um cliente.  Liguei e consegui as chaves do seu escritório. 15 minutos depois, como havia prometido, ela ligou. Desta vez sem muita firula prometeu que estaria no endereço às 19h. e que todas as luzes deveriam estar apagadas ou ela retornaria antes que eu desse por sua presença.  
A hora não passava, mas quando ela abriu a porta e entrou minha vista que já se acostumara com a escuridão deixou-me ver com detalhes a sua linda silhueta.  De fato, mulher com aquele perfil eu jamais tive em minha cama, muito menos cheirando a fruta madura e que tivesse cabelos sedosos, pele de pêssego em época de safra, seios de adolescente e um orgasmo longo e choroso, como os tinha em meus sonhos, antigamente.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

UM DEDO DE MULHER.

 
     A firma deu-me férias antes do tempo e como a maioria dos colegas que as tirou foi mandada embora eu vislumbrei a possibilidade do desemprego.  Logo eu que tinha passado os melhores réveillons na casa do chefe a convite do casal! Está certo que só me convidaram porque a minha coluna alavancava a venda do vespertino até então. Já os motivos da mulher do chefe sugerir-lhe que me convidasse podia ser qualquer um, menos esse. Será que ele já tinha a bota apontada para minha bunda, mas sua mulher  a estava segurando? Que razão ele teria para me mandar embora se eu nunca aceitei  ir a sua casa, por mais que a esposa insistisse,  quando ele estava viajando? Meu Deus, essa dúvida vai acabar comigo,  mesmo eu não tendo certeza de que serei ou não demitido.
 Aos trancos e barrancos eu teria de"gozar" os dias que me deram.  E foi com esse pensamento que  ajuntei minhas tralhas e voltei à minha casa na intensão de um banho quente e me jogar na cama para, caso eu não dormisse, soluçar todas as minhas pitangas. Fechei o registro e sem olhar procurei a toalha que me foi dada por quem não deveria estar ali. - Dona Creusa, pelo amor de Deus, o que a senhora está fazendo aqui? Imagina se seu marido me pega  com a senhora aqui dentro, o que  acha que ele faria comigo além de me matar?     - Quem te garante que serás mandado embora, hein? - Perguntou fechando o vaso e sentando na tampa, e jogando os cabelos para o lado cruzou as grossas e bonitas pernas diante do meu nariz.  Em tempo nenhum eu teria sonhado com aquela mulher sozinha no meu banheiro massageando com os olhos o único músculo sobre o qual não tenho domínio. Eu precisava, mas não tinha voz para pedir que saísse, que fosse embora antes daquele pesadelo tomar nova dimensão, mas como a mulher não tirava os olhos da minha virilha acabei dando conta de a toalha cobrir todo o meu corpo, menos a ereção que  pulsava como papo de lagarto diante da presa. Eu também já não tinha controle, mas enlouqueci de vez no momento em que atirou-se de joelhos na direção do que vira buscar. D. Creusa, chorando, esfregava as minhas vergonhas no rosto dando sinal de que esse tipo de prato não era servido nas suas refeições e naquela noite ela fartara-se. Eu juro que não entendia por que se mantinha casada se o jornal e todos os bens do casal eram dela. Por que seu marido não dava o que a esposa buscava na cama de tantos amantes? 
   Eram nove horas do dia seguinte quando o celular tocou na minha cabeceira.
   - Alô! É, sou eu.  Mas eu estou de férias, Dr. Antônio Ignácio, esqueceu? Meia hora depois eu chegava na redação onde uma pilha de papel esperava por mim.
    - Desculpe, mas as férias eram para alguém da sucursal de Vitória e que por acaso tem o seu nome - e concluiu:   Foi  D. Creusa que, hoje de manhã, percebeu o erro.  Agora anda com isso porque o tempo urge e sem a sua matéria o vespertino não vai  às ruas.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

NACO DE PROSA em CASA DE MADEIRA.

    

   Talvez a lembrança de ter apertado a garganta de uma pessoa por quem eu tinha uma grande afeição e que para mim era amigo do peito, um  irmão camarada e de cuja lembrança me levou a narrar aquele episódio.  Também me lembro que não havia nada que um fizesse sem a companhia do outro e foi graças a essa fidelidade e confiança que a gente fez  a maluquice que contei.  Muitas pessoas de blogs que eu sigo comentaram sobre a coragem que tivemos, mas duas em especial;  Janicce do Blog Casa de Madeira, e Marli, do Blog Naco de Prosa, tocaram  fundo nas minhas memórias com seus comentários ou eu não estaria voltando ao assunto.  Não diria, por exemplo, que as vezes, quando eu era solteiro e sentindo o vazio consumir minha vida eu telefonava para a pessoa de cujo pescoço apertei e que, faço questão de lembrar, em tempo nenhum rejeitou meus convites por mais absurdos que parecessem. Ligava e a convidava a sair e não importava se fosse para conhecer uma cidade distante, almoçar em lugares exóticos ou simplesmente tomar um café na subida de Paulo de Frontim ou passar alguns momentos em Miguel Pereira, Mendes ou Conservatória em Valença onde aplaudíamos os cancioneiros em algumas ocasiões. A gente varava estrada em busca de aventura e argumento para as nossas conversas. Almoçar em casa de gente que a gente não conhecia no interior do estado em troca de alguns reais, um abraço e algumas histórias a gente já fez de montão e na volta ainda encontrávamos tempo para um drinque nos motéis da beira do caminho onde fazíamos o que nem em Kama sutra cabia. O pior é que eramos amigos e um não se metia na vida romântica do outro. Nesse relacionamento ela só fazia questão que eu a satisfizesse primeiro, depois, segundo ela dizia, eu podia fazer o que me desse na telha e do jeito que me desse tesão.  Só não valia fio terra, até porque ninguém nunca tocou no assunto, drogas, a não ser bebida, e do sadomasoquismo só algumas palmadas a pedido dela já que, segundo diz o poeta, um tapinha não dói..
Como você previu, Janicce, havia mais alguma coisa naquela relação sim, pois durou todo o nosso tempo de solteiro.  Hoje a gente se fala nas datas festivas, mas não sabemos nada mais um do outro até porque ninguém se atreve perguntar.