terça-feira, 30 de janeiro de 2018

NOS BRAÇOS DO DESTINO.

    
   Não fosse um jovem morador de rua puxar o bêbado da frente do carro e Cecília o teria atropelado naquela noite chuvosa de domingo nas pistas do Parque do Flamengo.  Foi tudo muito rápido e quando conseguiu parar o carro os dois já tinham sumido na confusão. Cecília precisava abraçar aquele jovem em agradecimento ao que fizera, mas parar com aquela pista escorregadia só mais na frente seria possível. Dias e dias Cecília tentava encontrá-lo sem sucesso. Mas do alto, quando o avião se preparava para aterrissar no Santos Dumont  ela descobriu que pessoas moravam sob as passarelas daquelas vias e, quem sabe, em uma delas não encontrasse a pessoa que procurava? Dois dias depois lá estava Cecília  procurando por um rosto conhecido. Cansada e pensando em desistir arriscou através da fresta de uma porta improvisada como havia feito em duas delas, e para sua surpresa viu um negro despido das roupas jogando água no corpo num banho estilizado. Finalmente a sorte lhe sorria e Cecília, não só encontrou quem procurava como empalideceu com o que seus olhos podiam ver.  Não queria acreditar que existisse alguém tão bem dotado como aquele ali, ao alcance das suas mãos. Marcelo, um ex atleta do basquete que trocara o esporte pelas drogas e hoje lutava para sair do buraco, vestiu uma surrada bermuda e saiu para atender a quem chamava. O propósito de Cecília era dar a ele um abraço e algum dinheiro em recompensa, mas depois de tê-lo lambido com seus olhos gulosos, Cecília mudou de ideia e de planos.  Convenceu-o a tomar um táxi e ir com ela a sua casa onde pode tomar um banho de verdade. Vestir roupas limpas e comer como filho de ladrão quando o pai está solto. 
- A partir desse momento aqui é a sua casa - disse Cecília com as bochechas avermelhadas e os seios entumecidos como noiva adentra ao quarto de núpcias no colo do marido.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

ROLETA MAIS DO QUE RUSSA .

     

    Eu tinha oito anos quando Danny, com cinco, veio com os pais morar no nosso condomínio.  Com sete a garota gritava com os moleques quando dela descordavam e só não apanhavam porque corriam.  No momento em que Danny percebeu que podia dobrar o mundo às suas vontades ela não tinha mais do que treze anos.  Nessa época já falava como mulher, pensava e agia como mulher e para ninguém ter dúvida de sua grandeza, fazia coisas que até Deus duvidava. 
Aos vinte e oito Danny estava casada com um criador de gado que ficava mais tempo no Mato Grosso cuidando dos bichos do que no Rio com sua encantadora mulher. No réveillon de 2007 (para 2008) a gente se encontrou nas areias de Copacabana. Dez dias antes do natal minha namorada tinha me dado um pé na bunda por conta de um cara mais velho e cheio do dinheiro.  Danny também passaria sozinha a virada do ano por ter discutido com quem, muito zangado, tomou um avião e voltou ao convívio das vacas que, como dizia, não o tratavam tão mal como Danny. Depois de muito trelelé e tantos beijinhos fomos ao quiosque do posto 6 provar da caipirinha que um amigo vivia elogiando. Em quinze minutos tomamos três cada um. Depois o garçom ligou no modo automático e as caipirinhas chegavam assim que o nível dos nossos copos ia baixando.  Enquanto isso a gente falava, falava e tanto falamos que  praticamente não vimos  o show do Grupo Revelação antes do pipocar dos fogos. Quando a festa acabou fomos à casa dela, ou melhor, nos arrastamos até a esquina da Paula Freitas com Barata Ribeiro  onde morava. Tomamos um banho demorado que muito nos melhorou.  Depois, a  pedido dela, tentei colocá-la para dormir, mas não deu.  Não deu porque a gente se beijou, se beijo, e tanto a gente se beijou que acabamos por fazer  amor ali mesmo, na cama do fazendeiro. Na hora do rala e rola a garota pegou  minhas mãos e as apertou em volta do seu pescoço. No primeiro aperto Danny deu pinta de que ia gozar. Apertei mais um pouco e ela finalmente gozou como eu achei que conseguiria. Apertei mais um pouco e ela fez-me pensar que teria naquele momento o maior e melhor orgasmo de sua vida, e eu apertei. Quarenta minutos se passaram e eu ainda me via agarrado ao pescoço de quem, de olhos vidrados, gozava como jamais pensei que alguém fosse capaz.   E, quanto mais eu forçava o meu corpo para dentro do dela, mais minhas mãos apertavam sua garganta fazendo brilharem seus olhos e o corpo explodir em convulsões. Repetimos a maluquice diversas vezes naquela madrugada e em nenhum momento Danny deixou de responder com  orgasmos vibrantes ou tentou afastar minhas mãos. Não fosse meu fígado rejeitar as últimas doses de bebida e eu, com toda a certeza, a teria estrangulado, tamanho  é o tesão que a coisa provoca na gente. 
Quando acordei a maluca da Danny ainda dormia. Dei um beijo no canto de sua boca e saí sem fazer barulho. Mais tarde fiquei sabendo que a minha ex viajara para o Mato Grosso onde deve ter passado o Revéillon, enquanto eu e Danny acordávamos, cada um em sua cama, de um sonho que não dormimos.
- Notícias de  quem conseguiu tudo na vida e quase também conquistou o infinito eu não tenho, talvez por não consultar o obituário regularmente.

sábado, 20 de janeiro de 2018

POR QUE CALAR A BOCA?

    

    Em uma casa onde ninguém se entende porque se acharem dono da razão, não pode haver paz, a não ser que os pais apaguem a lousa e nela insiram as normas a serem seguidas. Cada um com a sua obrigação, mas o respeito deve ser entre todos. Os pais seriam os líderes e cada tarefa, não fazendo parte do que foi combinado, deve e será discutida com o líder. Brigas sem motivos, desentendimento entre os pais quanto a governança e até a separação do casal talvez possam influenciar na formação da personalidade de um filho, mas nenhuma porta se escancara tão rápido à homossexualidade - não sendo genética - do que uma família sem regras governada por pais omissos. Indispensável, seria dizer, que o aplauso às pequenas vitórias, por menores que sejam não tem preço. O menino que tem traços afeminados ou comportamento de menina, necessariamente não será gay no decorrer da vida, mas sente que trilha por caminhos espinhosos. Não existe só uma causa que determine a homossexualidade. Quando a igreja, por exemplo, atribui o fato ao demônio discrimina a criança e consequentemente aponta o dedo para os pais como se eles afrontassem a sociedade com tal vergonha. Vergonha de quê? Eu posso afiançar que um bom punhado de gente não sabe ou não tem observado que a criança pode transferir sua libido para o homem – seu pai – ou à mulher – sua mãe. É tênue a fita onde nossas crianças se equilibram. 
Todo o cuidado no tocante ao modo de tratar com a futura mamãe e a maneira de ela reagir com relação a todos os problemas durante a fecundação do óvulo, a gestação do feto, o nascimento e a criação do filho é pouco, mas ajuda sobremaneira. 
Um menino de perfil diferenciado chama a atenção e tão logo atinge a adolescência é assombrado pela crise existencial e só a presença de um terapeuta, e do novo marido de sua mãe, poderão ajudá-lo a se entender e sem muito sacrifício exercer no futuro as atividades que a vida impõe. Isso sem contar que ele viverá numa sociedade formada por pessoas maravilhosas, mas que tem na maioria pessoas preconceituosas, machistas, hipócritas e homofóbicas. 
- Nós, aqui em casa, temos alguns livros de Charles Darwin, outro tanto de Lacan, Jung, três de Piaget e a obra de Freud para nos capacitar a discorrer sobre o assunto. Em um dos livros de Freud, ele determina a postura de cada um de nós diante da vida. Pai ausente ou pouco afetivo, assim como, mães dominadoras e possessivas, costumam consolidar a figura do gay na sociedade. Veja bem, não sou eu quem o diz, mas Sigmund.
Dos onze aos dezoito anos é quando o jovem começa a se questionar. Enquanto o amigo quer levá-lo para jogar bola ele quer levar o amigo para a cama. No grupo de sua relação todos falam de meninas, mas ele, sem jeito, cala ou sofre fingindo ser o que não é. O conflito é grande e muitos se perguntam por que as garotas não os atraem, mas os meninos, sim? A tentativa de suicídio voa em torno das possibilidades da criança que não vê apoio nos pais, nos parentes e nos poucos amigos. Conversar com ele alguns até conversam, mas ouvi-lo, entendê-lo, aceitá-lo, poucos ou ninguém. Os pais deveriam fazer exame de consciência para descobrir o quanto colaboraram para esta situação. Deveriam lembrar-se das farpas trocadas, do silêncio na hora da fala e das ofensas proferidas na hora em que era para calar. Não é só a genética que determina quem é gay ou não é.
Eu, silvioafonso, e minhas cinco irmãs, fomos levados por nossos meus pais a diversos cinemas, a vários passeios e eu, especificamente, joguei futebol, enquanto meu pai babava do outro lado do alambrado e minhas irmãs exultavam com o jogador que eu não me tornei. Não pretendo com isso mudar o rumo dos rios, mas já que eu quero e posso, vou ajudar meu filho com a minha presença no outro lado do alambrado caso ele precise de um amigo para abraçá-lo na hora do gol ou confortá-lo na hora que a bola for para fora. Quero participar de sua vida com o melhor dos meus sorrisos, com as mãos prontas para aplaudi-lo até nos seus intentos mais bizarros, e os meus braços escancarados para o abraço verdadeiro e mais sincero. Tirarei dos armários todas as portas que possam ter, pois criá-lo dentro de um deles eu jamais me permitiria e se a arte final não sair de acordo com o projeto, eu o amarei do mesmo jeito como eu sei que me amariam caso eu não fosse o resultado positivo de um estudo tão audacioso.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

DE TEMPO EM TEMPO .

     

    Talvez não te tenhas esquecido do corpo bonito e bem feito que tinhas.  Das pernas bem torneadas e dos peitinhos durinhos que ponhavam a babar os rapazes por onde andavas e as moçoilas, coitadas, a se roerem de inveja à tamanha exuberância. Hoje, no entanto, tudo ou quase tudo mudou em tua vida, inclusive a cama que antes vivia quebrando hoje se presta como nova.  Teus desejos, tua ousadia, teu desempenho de moça fogosa de orgasmos mil, já não são assim tão parecidos.
Está claro que certas coisas não mudaram como não mudaram o teu caráter e a fidelidade para com teus amigos. Outras, entretanto, iam mudando a cada dia.  E o sexo então, nem se fala. A propósito; como tu serás daqui a três ou quatro décadas? Como estará tua libido com relação ao marido ou aos teus namorados? Quando se tem 20 anos a animação é tremenda, mas depois da idade adulta tudo mudo de figura.  Com 20 anos as garotas não ligam de fazer sexo durante o dia ou durante a noite, quem sabe de madrugada sobre o capô de um carro, no banheiro do colégio ou atrás do muro da igreja? Qualquer lugar é lugar e qualquer hora é hora  para novos amassos.  Essas crianças, como nós no passado, transam na escadaria do prédio onde moram e sem pudor nenhum contam às amigas detalhe do que fizeram. Com o tempo tudo vai mudando e o que se fazia bem feito durante um dia inteiro, hoje, em 10 ou 15 minutos se faz mais ou menos.  Na juventude fazíamos tudo bem feito e achávamos pouco, ao passo que hoje... 
Alguns maridos tentam pular o muro, mas as mulheres, coitadas, seguram a barra o quanto podem, e caso não fossem os safados a perseguirem com propostas mentirosas e promessas que jamais cumpririam e elas continuariam fieis e até infelizes, porém junto aos trastes dos seus companheiros.  
Eu, silvioafonso, jamais aconselharia alguém a trair seu par por falta de cumplicidade na cama ou na vida, mas se tomo conhecimento de alguém tentando pular a cerca eu corro para o lado das mulheres porque ninguém precisa ser uma para entender o duro que deve ser olhar para  aqueles belos rapazes desfilando por sua calçada enquanto ela se vê obrigada a deitar-se para dormir com quem mal toma banho, mal escova os dentes, só faz a barba quando vai sair e não a ama como antes era amada. 
- Curtamos, pois, nossa tenra idade antes que o texto seja sobre nós.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

UMA TARDE NO METRÔ.

 
     Já estava a ponto de explodir com a pessoa que ao celular gesticulava num espaço tão pequeno como alguém tentando se salvar em uma grande correnteza.  Com dedo firme tocou as costas da mocinha que afastou o celular para atendê-la.   - Pois não - respondeu com a brejeirice dos seus 18  anos. Márcia, quase teve um troço ao ser lambida por um par de olhos azuis turquesa. - Estou falando muito alto? - Quis saber a jovem. - Bem, é que, quer dizer...  Você não está falando muito alto, mas é que... Ah, deixa pra lá. É que eu achei que a sua bolsa estava aberta -  mentiu para a garota. - Obrigada - respondeu fechando o zíper enquanto observava a mulher que, agora calma, não tirou os olhos dela.
-A partir daquele momento Márcia não teve mais sossego. Aquela jovem alta, magra, pelos dourados pelo sol da praia, boca vermelha irradiando a jovialidade da sua idade, fora o verde azulado daqueles olhos nos quais ela demoradamente se banhou, tocavam alto um sino na sua cabeça. - Meu Deus, acho que estou enlouquecendo - sussurrou baixinho.  Antes eram os esbarrões dentro do trem que me incomodavam, agora é o medo de não tornar a vê-la.  Se eu não a encontrar em poucos dias, acho que terei um troço - resmungou mordendo o travesseiro. Cinco dias se passaram e  Márcia, desesperada, corria aos lugares onde acreditava que a pudesse ver, mas nada. Na sexta-feira seguinte, praticamente desiludida, Márcia deixou a gare onde há dias se encontraram e, pela última vez achou que pisava aquela plataforma. Márcia deixou passar uma senhora com uma criança no colo. Atrás subiu um homem de casaco longo até os pés acompanhado de uma adolescente de vestido acima dos joelhos segurando um celular. As pernas da jovem que cortou a sua frente tinham pelos dourados pelo sol, o que, de certa forma, acendeu um clarão em sua memória e Márcia, puxando o casaco do homem chegou junto aquela criatura e viu ali, diante dos seus olhos, a felicidade que achava que perdera.  As duas se olharam como se fossem amigas de há muito tempo. Largaram mão do que estavam segurando se abraçaram tão forte e não menos demoradamente que fez com que o homem, com um sorriso alegre nos lábios se afastasse delas e fosse embora.  - É meu pai - disse a pequena.  Ele sabe de mim e de você.  Há dias  não falo em outra coisa senão na utopia de poder voltar a vê-la - concluiu a mocinha sem sair de dentro dos braços dela.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

E AGORA, O QUE EU FAÇO?

   
   Juro que só não dei na cara dele porque sou covarde convicta e mesmo que não fosse, talvez não o fizesse, até porque o cara que se esfregava atrás, na minha bunda, era a coisa mais linda que os meus olhos já tinham visto, e quem acreditaria se uma pessoa de meia idade, operadora de caixa de supermercado, gritasse num ônibus apertado às 6 da tarde dizendo que estava sendo assediada por aquele deus? Ninguém, não é mesmo? Principalmente as mulheres que certamente tomariam o partido dele. É claro que diriam que eu queria "aparecer".  Agora, se eu fosse jovem, bonita e gostosa, e um cara se esfregasse atrás de mim eu, certamente, rodaria a baiana e ele, para não apanhar dos que gostariam de estar no seu lugar, giraria nos calcanhares e meteria o pé para fora do coletivo.  Só que a coisa não era bem assim, pois o sujeito que roçava na minha bunda era alto e sarado, queimado de praia e muito bem vestido.  O agravante era o danado ser bonito e além disso, era muito,  muito gostoso.  E então, como eu, uma balconista de meia-idade, mas conservada, diga-se de passagem, poderia acusá-lo de se aproveitar de mim? Meu Deus do céu... Eu juro que pensei sair de sua frente, mas se o fizesse outros tomariam o seu lugar e nada seria a mesma coisa.  Ninguém estaria com o perfume dele, o mesmo charme que envolvia a gente e a mesma segurança que dava a quem se sentisse presa a sua frente.  E se ter alguém nas costas era um pecado, que eu pecasse com quem não demonstrasse ser pecador, mesmo ele me espremendo contra o banco da frente e me deixando suada, como eu acho que fiquei. 

sábado, 6 de janeiro de 2018

O FUZILEIRO.

     
  Aqui nesse canto eu escrevi muito sobre vários assuntos e como a política não saía da mídia era para lá que eu apontava a minha artilharia dizendo o que eu achava e o que a maioria das pessoas bem informadas achavam dela.  Acontece que alguns, felizmente não eram tantos, discordavam da minha fala com palavras ásperas e isso, de certa forma, aborrecia a mim e aqueles que concordavam. Aos poucos fui deixando de lado a matéria que há muito não dá à mídia a oportunidade de falar em outra coisa, e o fiz constrangido, porque não há nada pior do que um dedo estranho vir de encontro aos seus lábios impondo silêncio. Essa, a meu ver, é a maneira mais idiota e imperiosa de se discutir um assunto quando desfazem do debatedor ao invés de mostrar solução. Esse é o nível de censura de um déspota, um fascista, um opressor.  Quisera eu conviver num lugar onde todos pudessem dar pitaco sobre tudo e qualquer coisa sem a obrigação de se ter cultura ou não ter. 
Eu nunca me achei mais sabido do que ninguém, muito pelo contrário. Mas gostaria de poder falar o que eu acho sobre qualquer coisa para, sem preconceito ou rancor, estimular qualquer um a dizer o que pensa, desde que se lembre dos riscos que corre sobre o que diz, e não sobre o que supostamente seja.

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   Ainda nessa semana eu volto a falar do homem e da mulher, porque depois da política não vejo assunto melhor para se tratar.  Nele eu me ponho como protagonista e as vezes como figurante.  Tem vez que eu sou o narrador da história, mas  também tem as que falo na terceira pessoa.
Vamos aguardar.  Enquanto isso, cartas para a redação.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

MILAGRE, FEITIÇO OU O QUÊ?

   

    Perdoe os meus seios, pois, pequenos, porém atrevidos, tocaram teu rosto quando a minha blusa se abriu. Faças isso que eu perdoo os teus lábios por beijá-los na hora da fuga.  É claro que nada existe em comum entre nós, inclusive eu comigo e tu contigo. Nem mesmo os meus 25 anos fazem jus ao meu corpo esguio e bem acabado, aos meus olhos penetrantes, as minhas pernas longas e torneadas,  a minha pele viçosa e esse par de peitos durinhos que, pelo que parece, vidraram teus olhos por eternos segundos, assim como o teu porte nobre e bonito, meu rapaz, que eu até me atreveria a compará-lo a um deus da Grécia de todos os tempos, e no entanto estás aí, parado como um anjo abatido pelos meus possíveis encantos. Talvez nada tu tenhas a ver com quem, em transe, divide as suas escusas. Se alguém pudesse tomar alguma providência quanto ao caso, certamente não serias tu e muito menos seria eu, mas, quem sabe, não seria esse magnetismo que prende os teus olhos no meu corpo e os meus nessa escultura?   Não, não precisas me perguntar se te amo porque o amor nada tem a ver com o que pedem o teu e o meu corpo se ambos são vítimas do mesmo feitiço... 
E então, vais me perdoar por, acidentalmente, esfregar algumas vezes os meus seios nos teus braços ou queres que eu grite a todo pulmão que teus lábios, mesmo que doces, carnudos e gostosos como água que se dá a quem morre de sede, são atrevidos como frutos do pecado? Penses bem e me digas. Não precisas responder antes de me beijar, mas me digas tão logo o teu corpo se desgrude um pouquinho do meu, o que espero não venha a acontecer antes do amanhecer, ou quando a respiração voltar ao meu peito dando-me conta de onde e com quem estou senão no paraíso com o filho pródigo de Atenas.  É lá, ou aqui, agora, que eu, molhada de suor e desejo, pretendo falar dos meus longos e pecaminosos sonhos, daqueles que mexem com a gente e com quem se deita na intenção de ter ao seu lado um deus do olímpio moderno que provoque nela o que o meu acabou de provocar.