segunda-feira, 27 de novembro de 2017

ADEUS, AMIGO. ADEUS.


        

      No final de novembro fiquei sabendo que o mais novo amigo que conseguira conquistar por estas bandas fora infectado pelo vírus da aids. Vírus adquirido na relação  com uma pessoa, por quem se apaixonara, e nos matou logo depois, com sua "ida". Foi um choque vê-lo definhando, fugindo dos médicos e dos tratamentos por não concordar que estivesse doente. Aos poucos perdia a fome, o sono e a vontade de continuar vivendo. Em contrapartida às feridas, coceiras, cabelos caindo e o corpo debilitado, sem viço e sem cor,  estava ali como prova daquela doença. Eu não acredito na cura através da oração, mas que ela dá força para enfrentar o mal, ah, isso ela dá, com certeza. Não a oração de uma pessoa ou de um grupo na intenção do um enfermo, mas a introspecção do próprio doente em nome de Deus, pois a fé alavanca a criação de anticorpos assim como fortalece a crença da cura,  a coragem da luta e a vontade de continuar vivo.
A fé tem esse poder. 
Agora internado contra a própria vontade ele mal enxerga o que se passa diante dos seus olhos, mal fala e quase mais nada ouve, principalmente o que dizem aqueles que acreditam na fé e no milagre.
Espero que a ciência, através dos médicos postados na sua cabeceira, rompa a fita de chegada antes que a morte atinja a reta final.
   - MAS...
Infelizmente às duas da madrugada de uma quinta-feira de dezembro, ele partiu... Talvez até ele mesmo torcesse por isso, pois a sua vaidade o aprisionava à doença de maneira que só não pediu socorro aos profissionais da medicina e aos amigos, porque a cidade onde nasceu, cresceu e morava era  pequena e todos se conheciam.  Todos os que se relacionaram sexualmente com ele estavam,  neste momento, em polvorosa. Talvez para evitar constrangimento meu amigo preferisse a morte, a mesma que o levou do nosso meio.  Mentiu, escondeu-se de tudo e de todos e só foi internado quando forças já não tinha para evitar o que fizemos.  
- Descanse em paz, meu rapaz, mesmo que eu o quisesse cansado, como estava, ao meu lado.
A saudade que você deixa é grande e somente minha.

terça-feira, 21 de novembro de 2017

SUPERMAN...

   Eu gostaria muito de falar sobre meu pai, mas como amigo da gente não tem defeito evitarei qualquer adjetivo que o favoreça, mesmo ainda achando ter sido ele o melhor pai do mundo, como o é, em minhas recordações.  Quero e vou falar da frustração que tive quando eu era criança e ele fazia coisas que só os super-heróis eram capazes. Custei muito a aceitar esse deslize, pois diferente das histórias em quadrinho, nada ou ninguém conseguiria vencê-los e nem mesmo a morte poderia destruí-los. Por isso eu me sentia protegido e talvez até abusasse por conta disso. Era fantástico saber-me filho de um herói de verdade; respeitador e cumpridor de todas as obrigações. Pessoa que todos gostavam, talvez por ser ele o herói das minhas histórias.
Um dia, sempre tem um em nossas vidas, meu pai adoeceu e quase todos achavam que ele não escaparia ileso daquela aventura. Todos, menos eu que conhecia o seu segredo. Mesmo assim papai morreu. Fiquei frustrado, transtornado com o desfecho, já que existiam várias revistas e livros garantindo a imortalidade daqueles audazes. Então, como uma coisa dessa podia tirar a vida de quem, durante décadas, enfrentou madrugadas frias com o mesmo sorriso enquanto seguia para buscar o nosso sustento? Era difícil acreditar que uma pessoa que conseguiu vencer a pobreza, a falta de estudo e ainda por cima criou cinco filhos com um salário irrisório pudesse entregar os pontos à uma força que nem ele e muito menos eu conhecia.  Tive comigo por muito tempo as revistas que ele havia comprado na dureza de sua infância e que embalaram a dele e uma boa parte da minha juventude. As figuras e os textos me encantavam. Eu delirava com as proezas daqueles personagens assim como me encantava ter um tão junto de mim. O meu pai, definitivamente, era um Super Homem.
O tempo, porém, senhor de todas as decisões, calou o homem de aço e suas empolgantes histórias, só não emudeceu o filho e as doces lembranças que tenho, principalmente quando uma estrela em disparada riscava os céus sobre a minha cabeça como eu acho, ou achava que ele fazia.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

UNS CHORAM A VIDA, OUTROS A MORTE.

   
       Como diz Cazuza, os meus ídolos morreram todos de overdose. Meu pai, minha mãe, Elvis e Sinatra, João Ubaldo, Cauby, Wander lee, George Michael, Prince e Michael Jackson, como Marília Pera, e agora Cabrita; a Neide Aparecida do Saí de Baixo. Cada um num percurso diferente. Uns pelo vício de melhores momentos, outros pelo uso indevido do tempo enquanto a minoria, talvez por ter sido amada como foram meus pais, se intoxicasse com o sentimento a ela dedicado.  Sabemos que a perda não é justificada ou relevante, pois, se um gato sujar nos cantos mais absurdos da casa de sua dona ao invés de na caixa de areia, nem por isso a possibilidade de trocá-lo por outro será aventada, mesmo que o negócio, aos olhos dos mais exigentes, seja encantador e lucrativo. Agora pensa se o infeliz morre. Está na cara que seu dono também morrerá com ele, mesmo que um pedacinho, pelo menos, o bicho levará consigo. Esse tipo de perda não é e jamais se tornará objeto de discussão num país místico, como o nosso parece estar se tornando com o surgimento de tantas igrejas e o convertimento de céticos ao Islamismo, ao Cristianismo e ao Judaísmo. Não fosse tal crença e a gente nasceria e cresceria sem mesmo pensar que o fim dos sonhos e de todas as esperanças está na morte que, talvez, seja a única certeza que se tem.
      Neide Aparecida, sofri com o mal que a vida fez a você, mas continuo sorrindo com o que você causou em mim.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

VALEU, NEIDE APARECIDA.

      O humor troca o riso pelo silêncio da perda. A graça ficou presa nas palmas que não demos, da mesma maneira que o palhaço resmunga um amor que se foi na intenção de voltar no futuro e não o fez para tristeza daquele que pinta na cara dos outros a graça que seu próprio sorriso não vê. Mais uma vez o mundo perde a importância quando permite que a morte nos tire dos lábios o risco do riso. Mais uma vez essa terra deixa de girar por alguma coisa que ultimamente vem acontecendo dentro e fora de um tablado onde o pano há muito não vem caindo, talvez por estar perdendo o tempo do improviso. Eu não conheci o sorriso franco, meigo e doce que ora nos deixa como em represália aos momentos sofridos que a vida vinha lhe dando a partir de 2010 quando descobriu-se que havia nas suas entranhas, não um óvulo que nos desse uma nova mulher, mas um inimigo transvestido de morte atirando em tudo o que via dentro dela. Hoje aqui na serra o dia está frio como as mãos de quem esqueceu o seu par de luvas. Está desprotegido como a criança que chora na beira da sepultura o pai protetor que se foi sem garantir se voltava, e triste como se alguém muito querido tivesse partido nas primeiras horas do dia, mas que na verdade, nem um passo esse alguém teria dado além da nossa saudade. Eu não sei se essa coisa que vem nos levando para lugares desconhecidos e não sabidos nos reservará um espaço onde se possa adubar a vida ou distribuir para os que ficam a colheita da despedida que nem sempre nos é permitido fazer. Enquanto não chegar a minha vez e a vez das pessoas que eu amo eu continuarei assinando o mesmo protesto, mas não sem chorar o pranto dos íntimos no fechamento da campa.


quinta-feira, 9 de novembro de 2017

SENTINDO AS COISAS POR TRÁS.

    

    Ela não podia acreditar que se apaixonara por um homem a quem tinha visto uma única vez em sua vida e mesmo assim não conseguia explicar se foi com alegria rara ou profunda tristeza que o mandou embora ao sabê-lo disposto a convencê-la a transar de uma forma que ele jurava ser normal entre pessoas daquela idade uma vez que não via indecência ou preconceito subjugar a parceira por trás se ambos se amavam como diziam.  A relação em questão talvez fosse um de seus sonhos como o de outras mulheres que até negam quando perguntado, mas que na verdade acreditam ser uma delícia e até se submeteriam ao ato não fosse a certeza de que só as devassas, as prostitutas e as vagabundas se prestam a esse tipo de coisa. 
    Eu, certamente, faria toda a questão do mundo poder discutir o assunto se não fosse um cara casado, mas também não ficaria nada feliz se uma audaciosa  senhora  não me escolhesse para seu cavalheiro nessa contradança.  Muitos homens se transvestem de bonzinhos, de respeitadores e cumpridores das leis da igreja, mas no fundo são uns recalcados e isso também cabe para algumas mulheres,  casadas ou não,  que se dizem filhas honradas e mães devotadas. Esse tipo de gente pode até não falar das pessoas que não estão nem aí para o que possam dizer a seu respeito, principalmente quando descobrem seus desejos e a coragem que tiveram de praticar o ato em questão, até porque, são elas pessoas bem resolvidas ao passo que os honrados e de conduta ilibada, como querem que os vejamos, choram a amargura de uma vida vazia em seus  próprios  velórios. No momento em que tais pessoas se veem sozinhas, lastimam por não terem tido um amor diferente ou uma vida prazerosa em todos os sentidos.  A vergonha é própria de uma boa educação, todos sabemos e concordamos, mas um tiquinho de pimenta, convenhamos, não é o que tira o sabor do prato. 

sábado, 4 de novembro de 2017

ORGULHO DE TRABALHAR.

    A reforma da previdência e a trabalhista têm incomodado bastante os políticos, até porque nenhum desempregado questiona o valor do salário numa crise como essa, muito menos vai perguntar sobre tais reformas. Um chefe de família que trabalha para sustentar a casa sabe que ter a carteira assinada é mais importante que o tamanho do salário e quanto receberá quando se aposentar.  E quando estiver trabalhando e descobrir que o salário não é muito, o honrado trabalhador mesmo assim se manterá na empresa até que as coisas melhorem, e enquanto as melhorias não vêm, vai se ajeitando da maneira que poder. Normalmente a família entende e colabora com a causa o que o deixa  bastante feliz.  Ninguém, das minhas relações, tem questionado o problema que anda tirando o sossego dos políticos e dos coitados que pensam que alguém, senão ele próprio, luta por seus direitos. Pena que elas se enganam. Político, na grande maioria, só quer saber de si mesmo, enquanto o resto, ah, o resto é o resto e nada mais haverá além disso. 
Um dia meu pai, que trabalhava na construção civil, reclamou com seu patrão a respeito do salário.  O patrão pôs a mão no seu ombro e disse-lhe; - você trabalha comigo há mais de 40 anos e nunca o vi falar em aposentadoria. Que tal procurar junto ao INSS por esses direitos?  Meu pai, segundo me disse, coçou a cabeça e decidiu por ir à uma daquelas agências. Em 30 dias o velho se aposentou e durante o resto do tempo que teve de vida trabalhou na única coisa que fez a vida inteira ou seja, levantar paredes do chão ao infinito. Muitos anos depois a vida fechou-lhe as portas e ele se foi. Foi, mas levou em seus olhos o brilho que o trabalho neles refletia.
Pois é. No momento em que os políticos falam que vão fazer isso e aquilo, a gente trabalha para pagar os seus gordos salários, enquanto ouvimos o que já deveria ter sido feito há muito tempo e não discutido em praça pública para fingir que se preocupam com a patuleia.