quarta-feira, 28 de junho de 2017

E AGORA?

    Tem vez que gentileza não gera gentileza, até pelo contrário. Assim foi com meu filho que ao sair de uma festa num bairro vizinho, viu que alguém dava tapas na lataria do carro. Talvez fosse um conhecido querendo carona ou quisesse zoar, como fazem alguns jovens num final de festa. Meu filho ficou uma fera e com toda a razão, até porque, se o pai soubesse que o carro correra risco de ser arranhado, com certeza não o emprestaria novamente. O veículo não tinha andado suficiente para que o automático trancasse as portas, por isso aquela pessoa o adentrou mandando que seguisse. Era a voz de quem fugia de uma possível violência. Voz de medo, de pavor. 
– Meu Jesus do céu! Será que estou sendo assaltado por uma criança? – Pensou o condutor. Nenhuma segurança, por mais reforçada que seja, detém a violência nessa cidade. Cem metros mais a frente a voz no banco de trás voltou a ser ouvida, desta vez com menos petulância. Certamente pela calma que o meu filho, falsamente, aparentava, mas de qualquer forma era menos agressiva que os agudos dados ao pé do seu ouvido. 
– Você me desculpe, mas passei a noite com um cliente que ao invés de me pagar pelo serviço me tomou o dinheiro que eu tinha e ainda me forçou a cheirar cocaína. Foi muita sorte achar a chave e poder fugir. Por isso eu entrei no primeiro carro que apareceu, nesse caso, o seu. Eu estava fora de mim, só queria salvar a minha vida, entende? Agora que estamos longe do perigo você pode me deixar em qualquer esquina ou se não for pedir de mais, me leva pra sua casa. Assim que eu melhorar eu juro que vou embora – completou chorando. A garota era linda e com aqueles olhos cheios d’água, então, ficava muito mais bonita. Parecia uma santa, não fosse a saia extremamente curta e os pequenos seios que a blusa mal cobria. 
– Tá legal. Depois do que você me contou eu não tenho coragem de deixá-la por aí a mercê da sua malfadada sorte. Vou te levar comigo, mas nada de barulho para não acordar meu pai. O coroa é careta e jamais entenderia u’a menor em nossa casa. 
– Não se incomode comigo que eu sei me cuidar – disse ela – amanhã de manhã eu volto pra minha casa – concluiu.
– Amanhã de manhã? Tu ta de sacanagem, garota! Tu não podes passar o resto da noite na minha casa ou meu pai corta minha mesada. Você até pode ir para minha casa tomar um banho, comer alguma coisa e quando sentir que está melhor me fala que eu te levo de volta. Depois eu converso com meu velho. 
– Tá legal. Vou aceitar o banho, comer alguma coisa e depois eu penso no que faço da minha vida – disse escondendo o riso. 
Eu, como faço todos os domingos, me levantei às 7h, tomei uma ducha fria e um gole quente de café, e, diferente do meu filho, ia à missa dominical. Era só pegar a chave que infelizmente não estava no lugar onde guardamos, por isso fui questionar meu filho. Pasmo o encontrei abraçado a uma mocinha que mais parecia minha neta, filha dele se filha ele tivesse. 
– Jesus de Nazaré! É a mesma menina a quem eu dei carona recentemente e por respeito e diferença de idade a deixei dormir em minha casa e dela recusei todos os carinhos que a mim oferecia. Será que eu sou um imbecil de carteirinha por não saber viver a vida ou o meu filho é que não vale nada por estar dormindo com uma criança? Na dúvida resolvi esquecer o assunto, como se um caso dessa magnitude fosse simples de se tirar da cabeça, principalmente quando uma garota, um pai e um filho, em diferentes noites da mesma semana, participaram de alguma coisa sem que cada um desconfiasse dos outros.

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