segunda-feira, 24 de abril de 2017

NÃO MATE SEUS SONHOS...

   
    Ela era uma criança que enrubescia ao ver o garoto pobre e sorridente que ultimamente vinha ao seu portão. Do quintal onde a menina de 12 anos morava podia ver o garoto se acomodar nos degraus que acessavam a entrada de sua casa, como a garotada nos fins de tarde. Aquele era o momento mais confuso que a pequena atravessava. Será que esse moleque sabe que eu existo ou pelo menos já me teria visto em algum momento? Será que eu devo arrumar um pretexto para ser vista por quem me faz tremer quando ele aparece? - Pensava a jovem sem tirar os olhos do menino. Aquela criança, cujos hormônios esculpiam o corpo, poderia, quem sabe, vir a ser o homem de sua vida? Mais cedo do que pensava os dois se encontraram na gincana entre as escolas. Naquele momento a menina se viu instigada a falar com ele, mas estancou diante da sua figura. Ela, que carregava consigo uma gota de esperança, sentiu o calor esquentar-lhe o rosto e um fogo propenso a queimar-lhe o peito não fez outra coisa senão olhá-lo de tão perto que poderia tê-lo tocado se quisesse. Mas não o fez. Angustiava-lhe o desejo de sabê-lo sentindo por ela o mesmo que nela o menino causava. Na esperança de reforçar a equipe o instrutor achou conveniente trocar o menino por outro mais experiente. Não aquentando a pressão a equipe da menina acabou derrotada. Mesmo não tendo o que comemorar, lá estava ela para ver o menino, mais uma vez. Seria o garoto o primeiro e único amor de sua vida? - Voltou a se perguntar.
Outros encontros, casuais, foram surgindo com o passar dos anos, porém um a levou às lágrimas; a morte da avó do coleguinha. D.Arvelina cuidara do menino desde o nascimento, mas ao primeiro assédio da morte, não resistiu. Entregou-se a ela. Cruzou sobre o peito suas mãos bondosas, fechou o azul dos seus olhos riscando nos lábios o último sorriso. Queria ser lembrada pelo neto como uma pessoa feliz até na hora da morte. O menino acusou o golpe e talvez por isso não se tenha dado conta dos braços miúdos que o envolveram e do beijo na face aonde escorria uma lágrima. Não foi naquela oportunidade que a menina seria notada por ele. Quis a sorte que os dois se encontrassem num momento de grande tristeza para ele. Tempos mais tarde o time do rapaz conquistava sobre o seu principal oponente o título de campeão brasileiro e entre risos de felicidade acabou entre os braços daquela menina que nem gostava de futebol. Fingindo estar feliz com o resultado o beijou na face e com ele ficou o tempo suficiente para alinhavar os seus sonhos. Outros encontros garantiam a ela que estavam namorando. Aos poucos o par foi se conhecendo e dos dois, ele se acomodou primeiro. Não dava pinta de querer nada da vida e de campeão que fora na gincana escolar o moleque já não tinha mais nada. Ela, por sua vez, era mais atirada e se não fosse por sua ousadia, os dois nem teriam se conhecido. Pegada eu não percebi que tivesse, mas, enfim, ele era um bom companheiro, um bom namorado, um ótimo rapaz. Mas sabia que estava errada. Quantas vezes a menina sonhava encontrá-lo galopando num lindo cavalo branco para além dos contos de fadas, os príncipes e as princesas vivem as suas histórias. O desinteresse pelas coisas e por ela, de certa maneira, deixou balançando o que ela achava que sentia por ele e até se questionava se o homem que morava com ela era o mesmo moleque que sentado nos degraus do seu portão olhava as pipas no céu da sua rua. Há muito ela achava que não era, mas só agora tinha certeza. Meu Deus, por que permitiu que eu mesma matasse o melhor dos meus sonhos? Por que não o fez mudar com seus pais para um outro bairro, para uma uma cidade distante, para outro estado ou para outro país? Se assim tivesse acontecido eu não estaria tão triste com ele deitado ao meu lado, mas feliz em me lembrar quando corria pelas ruas atrás da bola que jogava com a molecada enquanto eu fazia tranças na boneca que minha madrinha me deu num dos poucos natais quando alguém se lembrou de mim. Talvez eu não tivesse resistido se você não fosse meu na hora que foi, mas também você, quem sabe, não tivesse tido a sorte de conseguir alguém melhor do que eu? Pensando assim estou dando a entender que cansei de correr atrás do meu próprio rabo. - Ela se perguntava como se não estivesse vivendo aquilo. Agora que o tempo passou e tudo na gente ficou diferente eu já não o vejo com os mesmo olhos que me levam a perguntar se ele é mesmo aquele moleque por quem fiz loucuras só para que me notasse. Eu sei, disse ela aos seus botões, que você está aqui, deitado ao meu lado, mesmo assim eu sinto muito a sua falta. Talvez se você mudasse a sua maneira, se me tratasse com mais interesse, se ouvisse do começo ao fim o que eu falo talvez mudasse alguma coisa. O tempo, no entanto, me mostra o cristal rachado e não fui eu sozinha quem fez esse estrago, você me induziu ao erro quando me obrigou a deixar de ser criança, a pensar e agir como mulher. Talvez por isso nada mais pode ser mudado a não ser para a pior. Ah menino da minha infância, que saudade você pinta em minhas lembranças. Resmungava ela no momento em que ele puxava o lençol de cima dela para se cobrir.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

COM MUITA HONRA.

     Na calçada em frente a um depósito de bebida os vendedores vão saindo para trabalhar. Se alguém me pega olhando, enquanto passo, respondo com um aceno de cabeça em cumprimento. Mal sabem que durante anos eu fiz parte daquela trupe e graças a estrutura da empresa e a generosidade do patrão eu estudei e me formei doutor em leis. No final dos meus estudos meu pai montou um escritório, que seria meu, num espaço vago da sua casa.  Diploma em baixo do braço, aperto no peito e na mão uma carta de rescisão que o meu patrão não aceito. Deu-me em troca, além do abraço arrojado e palavras de encorajamento, valores que jamais pensei ter direito. E como sabemos Internet não havia naquele tempo, por isso os anúncios dos meus serviços eram postados nas páginas amarelas e foi através delas que alguém me contatou.  Eufórico pedi que viesse à minha sala. Assim que o vi percebi que o sujeito era um tipo conhecido, mas o que mais me chamou a atenção foi o nome da empresa que queria acionar. Tratava-se da mesma onde  trabalhei, ganhei meu dinheiro, respeitei e fui respeitado. Como poderia processar pessoas dignas e que tanto fizeram por mim e por muitos que por lá passaram, como aquelas? Quando nos despedimos prometi encaixá-lo na minha agenda, mas ligaria para os detalhes.  Gente, se eu me comprometesse com certeza me esforçaria para ganhar a causa, e se ganhasse alguém tiraria uma foto que se transformaria num post e certamente iria para o alto da parede atrás de mim. Depois eu, com o peso na consciência, ficaria sem dormir o resto da minha vida. 
Dei uma desculpa aos meus pais e fui à casa de um amigo onde fiquei aquele resto de semana.  Na segunda feira me inscrevi no vestibular da USP onde há dois anos me formei em jornalismo.   
- Como jurista talvez não comentasse o fato, mas como escritor me arrisco falar dos outros, inclusive das minhas fraquezas.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

CURAR OU MATAR.

   Para cada remédio ou aparelho que possa curar a doença no ser humano é introduzido no mercado um milhão de artefatos que mutila ou mata. Desta vez, no entanto, aconteceu diferente. Acabo de ler nos jornais que um estudante brasileiro que fazia estágio nos Estados Unidos descobriu, através de pesquisas nos laboratórios de Harvard em Massachusetts, um novo meio para curar a tuberculose, que no mundo mata tanto quanto a AIDS, sem a necessidade do uso do antibiótico, que agride a flora do organismo combalido. (Dessa vez com o auxílio dessa mesma força armada) O estudante pernambucano desenvolveu a tecnologia que é capaz de tratar infecções através da irradiação de luz nos tecidos humanos. Em uma frequência que mata até mesmo as bactérias, chamadas de resistentes, os equipamentos são capazes de eliminar a infecção em cerca de 60 minutos.  Bem mais eficiente que os antibióticos que existem nas farmácias e hospitais, a pesquisa já foi testada, graças ao patrocínio do do exército norte-americano para eliminar uma bactéria encontrada em ferimentos de soldados que voltaram do Iraque. 
Como uma lanterna portátil, o equipamento conta com lâmpadas de led preparada para irradiar uma frequência determinada de luz, que é visível aos nossos olhos e não tem efeito colateral.
Uma microagulha guia essa luz, da fonte para dentro dos tecidos, atingindo até mesmo áreas mais profundas.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

DEU RUIM...

     Tem dia que você acorda sem forças para sair da cama. O dia passa com você torcendo para ouvir o Bonner dizer; boa-noite, e você voltar para a cama de onde jamais deveria ter se levantado.  Tem esses dias na vida da gente, mas o importante é saber se o problema é passageiro e não diz respeito a uma possível depressão, mal que afeta uma grande parcela da população.  Você já se imaginou torcendo para que o tempo acelere os passos e leve o dia consigo noite afora?  Dizem os entendidos que você, nesse caso, deve procurar um médico, e ai eu pergunto; como procurar por um especialista num país aonde se morre de gripe?  Talvez nem um terço da população mundial tenha acesso à prevenção dos males corriqueiros, principalmente da prevenção que ainda é um mistério para os mais esclarecidos.  Eu sou um desses privilegiados que dispõe de recurso para recorrer a um craque no assunto, mas, quem me garante que também não faço parte da maioria que, mesmo tendo acesso aos clínicos,  acham que isso é coisa passageira e que logo, logo, estarei melhor?

quinta-feira, 6 de abril de 2017

DIA 8 DE ABRIL MORRE PABLO PICASSO.

     
      Quando o mês de abril me bate a porta eu me recordo da importância que esse mês teve nos anos anteriores. Em um deles morre o pintor espanhol e em um outro um golpe militar derruba Jango da presidência. Nesse mês eu só não acho importante o dia 29, quando fico um pouco mais velho segundo os registros, mas me incomoda saber que um certo sujeito aparecendo do nada nasce antes de mim. Talvez essa pessoa esteja nesse momento com a nata dos seus amigos reunidos e por isso não dará importância ao que eu disser por aqui, e caso ele não se recorde da importância da data ou não se importar com o que eu disser, eu cá, no alto da montanha me manifesto, porque hoje é dia de festa.  Este mês Leonardo Da Vinci  e meu filho também aniversariam, mas quem já me viu falar do nascimento de outra pessoa senão daquele de quem eu me lembro a qualquer dia e a qualquer hora?  Eu nunca pedi um abraço a Da Vinci ou teria pedido ao meu filho que viesse me visitar, mas pedi, sem vergonha e nenhum constrangimento que o meu irmão, como ele se refere a mim, esquecesse os mosquitos na orla onde mora e viesse me dar esse abraço, um beijo, e como prova de sua amizade gargalhasse gostoso, como costuma fazer.  Digam o que vocês quiserem dos dois.  Falem o que acharem que devem de um ou do outro, mas não neguem a felicidade que os caras estampam na minha cara com a sua presença.  Al, você é meu irmão, meu amigo e fiel camarada.  Jamais eu teria dito que morreria por você, mas se depender de mim a gente sequer adoece.  Parabéns, camarada e feliz aniversário.  Caso o seu abraço me venha envolver esse corpo que teima em manter-se de pé, saiba, que você é a pessoa mais importante que eu tenho na vida, mesmo que eu tenha de discutir com  os outros o teor da questão.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

TUDO TEM LIMITE...

       Ela tem ficado muito sozinha ultimamente e a prova do mal que a solidão faz a ela é o carrapato que vem se tornando para com os que, talvez nem por vontade própria, vai visitá-la. Assem tem sido a coisa e pelo que vejo não há o que a faça melhorar. Ou será que não é um saco a gente visitar uma pessoa que a todo momento nos oferece uma água, um café, ou é preciso dizer para não se preocupar com a comida porque vamos almoçar na casa de um parente na cidade vizinha?  E quando nos levam, coercitivamente, a olhar do alpendre a paisagem que a todo momento é postada nas redes sociais? Como se vê, é um saco, na excepção da palavra, aguentar dois minutos ao lado de quem não te deixa completar uma frase sem acrescentar alguma coisa achando que vai te favorecer.  Dizem as más línguas, que durante as chuva que castigaram o povo serrano acabando com a esperança da metade dos  seus habitantes, um tal de Sérgio, que tinha perdido tudo, teve o desprazer de ser recolhido por aquele que já vinha se achando sozinho a partir de então.  No terceiro dia de convívio o Sérgio foi embora.  Havia resistido a tempestade, mas não sabendo como fugir do grude do dono da casa, pegou seu boné e foi-se embora. Agora que as visitas se fazem mais a miúde, talvez, o sujeito se manque e melhore o seu comportamento, ou morrerá do jeito que viveu a metade da sua existência; chato como carrapato por querer agradar.

domingo, 2 de abril de 2017

ALICE NO PAÍS.

    Para alguns um sorriso é motivo de felicidade, enquanto para outros, milhões de dólares não acabam com o seu sofrimento.  Tem gente que chora por ter furado um dedo enquanto a mulher não se importa que lhe tirem de junto ao coração, o filho que ora lhe suga o peito.  Todos aplaudem a criança que vem à luz, mas nem todos se lembram do caminho que a mãe percorreu. Hoje, Alice, que há muito vem sendo a maravilha do mundo, risca na cara dos crédulos o sorriso da felicidade sem que pouco ou muitos dólares fossem necessários para isso. Parabéns à mãe que esconde no sorriso a dor do parto. Parabéns aos escudeiros que durante o tempo de maturação da semente não estavam por perto, mesmo assim nunca a perderam de vista. Parabéns a pequena que não viverá mais tão só e a gente que sente na entrada do túnel a claridade da luz.