segunda-feira, 23 de julho de 2012

DE TANTO FALAR DE MIM...

         Tem gente que interpreta o sentimento das pessoas de tal maneira que só de ouvi-la eu fico todo arrepiado. Recentemente eu escrevi sobre o relacionamento que existe entre o homem e a mulher, e na minha explanação eu devo ter dito muito de mim e das pessoas que de certa forma dividem suas vida comigo. Na oportunidade eu dissertei sobre o simples e o complexo. Sobre as lagartas que comem a árvore onde moram e sobre a razão que faz mover o mundo. Também falei sobre as coisas que aparentam não serem importantes, mas que na verdade são as que ditam a velocidade do tempo. Uma dessas pessoas, cujo nome prefiro não declinar, falou-me da tristeza que maquio nos textos publicados no blog que visita com certa frequência.  Essa pessoa, sem nenhuma pretensão, reabriu a ferida que há muito eu achava ter cicatrizado.  Suas palavras eram de uma ternura semelhante a de mediador de sequestro prestes a imobilizar o inimigo. Foi desta forma, doce e gentil, que abriu as comportas onde veladas tristezas se mantinham sob a face serena das águas represadas. Diante dessa realidade eu me vi vazando minhas lágrimas sobre um textos que terminava. Chorei me confundindo nas concordância, trocando de lugar os acentos, os pontos, as vírgulas, assim como transfigurei minha cara  com o pranto derramado.
Talvez eu devesse me "analisar" para buscar o motivo da minha alma fazer tamanho alarde frente aos que têm o privilégio de ler nos gestos e nas palavras a euforia extrema ou a alegria exacerbada digna de quem não tem uma trilha por onde caminhar, como eu imaginava. É provável que a terapia  acalme o ímpeto das grandes ondas que tentam levar o barco do raciocínio aos rochedos ou ao fundo do mar como se lá fosse seu derradeiro porto.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

BRIGAR OU VIVER SÓ.


            Eu conheci alguns casamentos felizes, mas a desarmonia  entre alguns pensamentos tem levado  casais à discussão gerando grandes confusões. A divergência entre os maiores pensadores causa uma terceira linha de raciocínio que depois de questionada e  discutida faz surgir outra e outras mais.  Com isso a ciência tem ganhado mais para a sociedade que perdido.  Na vida de um casal, entretanto, este comportamento tem duas portas de entrada e nem uma de saída, apenas algumas frestas. O diálogo é imprescindível, mas a discussão entre as partes é e sempre será inevitável. Quem convence com  argumentos acaba criando no outro um sentimento de perda, de despreparo e fragilidade, enquanto o primeiro fica mais autoritário e senhor de todas as situações no entender do companheiro. Alguns dos casais dos que mais discutiam acharam por bem trocar de companhia, mas no amadurecimento dos novos relacionamentos descobriam que nada tinha mudado. Que todos somos muito parecidos, todos temos as nossas próprias convicções pelas quais brigaremos até a última bala. Restava, portanto, uma solução; as frestas como saída. Sair para ficar só. Sair para esperar que suas razões amadureçam e depois de tudo esquematizado, planejado, voltar ao casamento, caso ainda tenha alguém pretendendo se casar principalmente com uma pessoa que desenvolveu uma estratégia de convencimento tão forte, que certamente preferirá morrer a se convencer que brigar não vale a pena. Discutir talvez também não valha, mas o que fazer, se a omissão e a falta de diálogo são as maneiras mais rápidas e fáceis de matar, cavar e sepultar um casamento? Até os que ganham a briga perdem com ela, porém o silêncio flagela e mata, não só a vida a dois, mas também as pessoas.
Na minha humilde maneira de entender a coisa, vejo que a necessidade de conversar é preponderante e que o assunto haverá de ser discutido  até que se esgotem os últimos argumentos, mas sem que com isso esqueçamos que ceder de vez em quanto, cada um na sua vez, também faz parte da briga e todos ganharemos no frigir dos ovos.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

A MORTE É BURRA.

        Desde menino eu chorei a morte dos meus parentes e amigos que com o passar do tempo foram nos deixando. Devo tanto aos meus avós e as minhas tias que tiveram suas vidas ceifadas pela ignorância da morte e por mais que eu orasse a Deus, não pago o bem que me quiseram. Hoje, infelizmente eu perco um dos meus melhores, senão o melhor de todos os  companheiros. Aquele com quem brinquei a vida inteira a qualquer hora do dia ou da noite sem que as minhas vontades por ele fossem  rejeitadas. Muitas vezes eu disse não ao seu convite para uma brincadeira fora de hora e só ele não se negava brincar comigo. A diferença de idade entre nós deveria ser um divisor de entendimento e compreensão, mas a isso eu dava de ombros para brincar até perder  o fôlego. Podia ser que eu tivesse tido melhores pais e melhores escolas, quanto a ele, não sei. É possível que tenha tido aquilo que fez por merecer inclusive a minha amizade que era uma via de mão dupla; eu o completava e ele me realizava, já que éramos exatamente iguais. Até carinho os meus pais faziam questão de dividir com a gente. Jamais recebi um agrado sem que Walter fosse lembrado; um doce, um sorriso ou uma palavra elogiosa acompanhada de um largo sorriso era com o que meu pai nos brindava quando voltava do trabalho.
     Dezessete anos de sorriso e festa. Nesse pequeno espaço de tempo tivemos mais alegrias que tristezas, mas de todas as dores essa foi a que mais fez doer meu peito.
- “Quando você achar que não vai suportar a ausência do amigo, vá ao seu túmulo e faça uma prece. Isso o ajudará a entender a mágica da vida e você se sentirá melhor, e, só não duvide se com isso você crescer, pois todos crescemos com os ganhos e com as perdas”. Essas foram as palavras da minha mãe que me trouxeram aqui, ao pé da cova, cercada de flores, aonde chorando, como choro agora,  enterrei Walter, o cachorro que mais me fez entender e gostar da vida.
 (Foto da Internet)

sábado, 7 de julho de 2012

TRISTEZAS DE UM PÉ DE PAU.

Aquele era o último banco da praça mais distante que encontrou. Sentou e entregou-se aos pensamentos. O corpo padecia o cansaço da existência até encontrar  o lugar certo para chorar suas mazelas. Choro secreto. Pranto de alma. Entregue aos soluços não se deu conta da presença de uma criança sentada ao seu lado. Sorriu para ela meio que sem jeito enquanto, sem interesse ou maldade, ela lhe perguntou;
- Você está triste?
Que vontade de abraçar a própria alma e com ela chorar  todas as amarguras que ambos passaram juntos.
 - Não, eu não estou chorando,  só estava pensando na minha vida futura. Mentiu o senhor à criança   enquanto às escondidas passava sobre os olhos a manga da camisa.
- Eu já fui menino assim, como você. Disse-lhe o homem. Eu era bonito e tão preocupado com a dor e o sofrimento dos outros, quanto você  demonstra ser. Eu quando vim ao mundo, nasci, como nascem as plantinhas. Vicei na primeira folha e enquanto procurava chegar à  janela em busca da luz, descobri que a porta era maior e mais espaçosa. Foi aí, com o passar do tempo que eu descobri que a cada instante tentei levar meu tronco em direção da luz enquanto ela se fazia mais forte e irradiante em lugares diferentes. Talvez por isso eu tenha o meu caule ondulado, torto.  Quando eu descobri que a busca pela vida me fazia em curvas, deixei meus galhos fazerem o que eu não conseguia e foi assim que janela, porta, basculante afora, eu consegui respirar o ar como devia. O preço, no entanto, foi tão grande que até hoje não vi como pagar. As flores que eram o meu sorriso se abriram longe dos meus olhos e da metamorfose para o surgimento do fruto, eu não fiquei sabendo. Só através das pessoas que colhiam o meu sorriso em cada estação me permitiram saber que nenhum outro era mais bonito.  O mesmo acontecia com os meus frutos, meus filhos.  Quando dizem que eles são doces, são bonitos de cor e formato, eu sei que falam de mim, porque os meus filhos sou eu.
Hoje, meu menino, eu tenho raízes que não me obedecem, elas quebram as calçadas e atrapalham a brincadeira das crianças e poucos se dão conta de que as grandes árvores precisam de grandes bases. Tenho uma copa que atrapalha a vista da paisagem e alguns moradores adorariam cortar meus galhos, esquecendo-se da sombra. Tenho a minha volta as folhas secas brincando no vai e vem do vento provocando queixas no pessoal da limpeza que esquecido não sabe que outras substituíram as que morreram conservando a dimensão da sombra. Tenho medo quando ouço o barulho da serra elétrica. Quando noto que um cabo novo foi comprado para o velho machado, porém o que mais me incomoda é a indiferença dos que colhem as minhas flores para enfeitar as suas salas. Colhem o meu fruto para matar-lhes a fome  e a de seus filhos e na minha sombra trocaram juras e promessas de amor.
Portanto, minha criança, hoje, talvez não, mas amanhã, com certeza eu serei posto por terra, cortado, esquartejado em pequenos pedaços e mesmo não servindo para coisa alguma eu deixarei que me queimem enquanto aqueço uma bacia de água para lavar os pés de qualquer um. Concluiu o jovem senhor enquanto voltava os olhos à realidade do momento, mas no banco ao seu lado o menino não estava mais. Talvez a imagem do arbusto buscando a luz não fosse tão bonita para ele quanto  a do tronco atrapalhando o caminho de quem tem pressa de brincar ou de viver, é para mim.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

SEM REMO e SEM DIREÇÃO.


     
                 O azul do céu e a verde cor do mar confundiam-lhe a vista numa linha reta no infinito, mas isso não importava no momento.  A preocupação era com a volta à casa depois de tantos anos e tão importante quanto o barco rasgando as águas no gemido rouco do motor.  Seus olhos, os pensamentos e o casco do barco avançavam na intenção da praia batendo as ondas de um passado não tão remoto, mas triste por ter dito adeus a quem não esperava.  Caminho encrespado, ondulado, salpicando lágrimas de maresia.  Horas de sol na cara, onda entortando a proa aspergindo água pra cada  lado. Peito apertado sem saber se ela o receberia. Vestido branco, fino, solto sobre a pele amorenada de sol. Pés descalços chutando marolas, correndo na areia. Cabelo solto aos beijos do vento, lembrança que não sai do pensamento. Saudade do toque, do abraço sem jeito, do beijo molhado, da falta de vergonha e do respeito. Do sorriso escachado, das safadezas no leito.
          - Duas horas sem ouvir o canto das gaivotas.  Só o barulho do motor empurrando o vento. No jardim da casa, antes, muitas flores brancas e na entrada uma leva de rosas amarelas.  Hoje, sem cor, desbotada, morta. Borboletas pintadas numa tela era como se pensava ver a natureza; uma linda aquarela. Voavam numa rota estranha em torno do corpo dela. Trazia na testa a segurar-lhe os cabelos negros uma fita amarrada, como donzela.  Braços cruzados, debruçada na janela olhos perdidos no infinito do azul do mar, talvez, a sua espera.        
            Um  grito, um tiro, correria. Num sobressalto vazou de onde se estendia e na cidade o silêncio.  Nada se movia.  Só a tevê no último volume que um filme de bangue-bangue exibia. Não fosse esse pequeno impasse, com certeza, ele dormia.