sexta-feira, 20 de outubro de 2017

PREÇO DA VIDA.

    


     A vida aqui na terra podia ter o preço de um primeiro sorriso, uma festa de criança ou de um carnaval. Mas não tem. É escorchante o preço da diária quando não sabemos o tempo que levaremos por aqui. O recibo nos é passado, ou melhor, barganhado por uma infância inteira de obediência aos pais e aos de mais idade. Estudo e trabalho abnegado, assim como sorrir para aqueles que lhe são simpáticos e para os que não gostam de você faz parte do pacote. Ir à igreja com a família nas manhãs de domingo, observar os mandamentos e não comer se não poder dividir o que tem na marmita, também faz parte. Mesmo assim ninguém garantirá que sua saúde e a de sua família será preservada com esse preço absurdo que você pagará sem mesmo ter certeza de que seus filhos seguirão o caminho do bem ou que viverão em paz e harmonia ao seu lado.
Só com chás, bolachas, refrescos e bolos você deverá festejar uma data, mesmo sabendo que tais extravagâncias não levarão ninguém a lugar nenhum. Já as cervejas e os destilados que dão barato e nos fazem tão bem, nem pensar. Brindar com seus amigos só com refresco, refrigerante e chás, mesmo que prejudiquem seu estômago. Música, talvez baixinha, para não provocar incêndio na esfregação dos pares dançantes. 
  Habitar essa terra, pelo que me presto a pensar, é careta demais e talvez não valha o preço que se paga já que as mulher precisam fugir ao assédio gostoso dos irresistíveis cafajestes, assim como nós aos cigarros que nos fazem elegantes, principalmente aqueles que nos levam às nuvens numa espiral de sonhos e fantasias. O mesmo acontece com as bebidas.  Ai eu pergunto; pra que abrir mão dessas coisas? Em troca de quê, de um engarrafamento sem precedentes, de uma política que trabalha para enriquecimento dos desonestos em detrimento de um povo analfabeto e faminto como estamos no momento e aqueles que fogem da guerra de seus países? Eu acho que vou trocar minhas duvida pela certeza das garotas corajosas e pelas bebidas  e os cigarros que encurtam a vida, mas que nos dão prazer e contentamento. Eu sei que principalmente o cigarro me causará enjoo, mas nada será tão ruim como ter que pagar para viver triste e em sofrimento. 
Se eu não fosse covarde, saía para dançar com uma gata, bem agarradinho, e no pé da sua oreia falava as besteiras que gosto e quando o tesão tomasse conta de mim correria ao alpendre para olhar a rua e as estrelas. E ainda mentiria a meu respeito e depois...  Ah, depois eu me arrependo, peço desculpas a quem achar que devo enquanto levo pra cama a mulher que encantarei com as flores roubadas ao jardim do vizinho. 
Na manhã seguinte chegaria atrasado no batente pra botar a culpa na condução e ainda blasfemaria contra o criador se um amigo chorasse ou por ventura esquecesse de quanto eu o amo.  Assim, com certeza, o preço da vida será muito mais justo.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

SAUDADES QUE EU TENHO...


    No interior do estado festejavam o dia de ação de graças.  Não havia
 em nenhum calendário da era medieval aos tempos atuais um dia mais adequado ao encontro daqueles dois.  Talvez por anseio ao que pudesse acontecer ela tivesse chegado ao encontro um pouco mais cedo e em meio aos que se achavam no labirinto das barraquinhas alguém procurava por quem conhecera através das redes sociais.  Ela, como se fora criança, correu ao seu encontro e na ponta dos pés o beijou na face. A jovem parecia estar vivendo no mundo das maravilhas enquanto ele curtia a festa como se fora a melhor e a mais bonita.  Todos os bons ventos sopravam a seu favor, principalmente ao descobrir  que se tratava da mulher de sua vida.   Um beijo roubado   era o presságio do que a esperava. Depois, de mãos dadas, buscaram um lugar onde pudessem conversar. Ele falava enquanto ela o escaneava e nem os detalhes mais ocultos escapavam à curiosidade, se  me faço entender.

O cara pensou discutir a diferença de idade existente entre eles, mas achou melhor não mexer no que estava quieto, pois o que de fato importava era o respeito e o companheirismo entre eles. Dali seguiram à casa da moça onde os parentes os aguardavam. Ninguém confrontou as idades, mas para que não cometessem nenhum desatino a garota fez questão de dizer que o encontro era amistoso e que não esperassem nada de sério entre eles.  Tanto sabia do que estava dizendo que em tempo algum a interromperam ou a contrariaram naquilo que dizia. Depois vieram outros encontros  e por entender que um era a metade da laranja do outro resolveram juntar suas bandas.  A cama era seu ponto de encontro.  Sempre que um chegava a casa jogava-se nos braços do outro buscando o prazer que a química  provocava. 
No decorrer do período uma cirurgia se fez necessária e durante a convalescença do rapaz o sexo ficou fora de questão ou pelo menos deveria, como a ele disse o médico e a parceira não levou a sério.  A temperatura subia a cada encontro causando riscos a saúde dele, mas no afã do momento não se importavam com as consequências. 
      Hoje a frequência não é a mesma. Ambos, amadurecidos,  melhoraram em tudo e em todos os sentidos.  Afinaram as ideias, investiram no que é necessário e viajam aos lugares mais distantes e mais bonitos. Vivem como num conto de fadas trocando abraços e beijos num respeito de causar inveja, mas, nada além disso.  Eu acredito que já não fazem amor com a mesma pegada, embora o sentimento por parte dele continue num crescente quase avassalador, ao passo que ela já não vê tanta graça no que faz. Em vários momentos ele pensou  que o amor dela tivesse acabado, ou que se arrependera de tê-lo conquistado.  Ele, desesperançado, já não acredita que pulse em suas veias o mesmo desejo que tinha por ele, assim como não se vê provocado por um olhar malicioso, um cruzar de pernas pretensioso que os levava à cama naqueles momentos. 
          Enfim, vamos deixar que o tempo os ilumine, porque só ele tem o poder da mudança.   Se tiver de mudar para melhorar, que mude, caso contrário, que mudem os dois ou se acovardem sem reclamar...
       

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

SABOR DE NÃO SEI O QUÊ.

      
     Carlinhos não tinha preferência por cor, brinquedos ou pelo gênero das pessoas. Na casa das primas onde era deixado quando os pais saíam para o trabalho, Carlinhos passou a maior parte da sua infância . Brinquedos eram os que tinha na casa com os quais brincavam ele, suas primas e certas coleguinhas da escola. Algumas vezes Carlinhos foi ao portão para olhar os moleques jogar bola, mas não se viu tentado a juntar-se a eles. Pular amarelinha, rodar bambolê, pular corda e brincar de boneca com as coleguinhas era do que mais gostava e fazia. Seus pais se engrandeciam com as atitudes do filho, até porque, respeitava as meninas a ponto de brincar com seus brinquedos ao passo que outros meninos preferiam se passar por mocinho ou bandido, jogar bola e lutar entre si. Todos o amavam por ser uma criança comportada e estudiosa e por isso talvez não desse margem aos pais para castigá-lo ou tratá-lo de forma grosseira.
        Carlinhos cresceu estudando e brincando, e aos 23 anos já era doutor. Suas amizades eram as mesmas, muitas meninas e muito poucos rapazes. Estes, no entanto, não perdiam a oportunidade de criticá-lo pela forma de como se vestia e falava. Mesmo assim não abriam mão de sua amizade até porque era ao lado dele que se encontravam as mais lindas garotas do pedaço, e as chances de um desses rapazes se arranjar com uma delas não eram impossíveis. E foi na casa de uma dessas meninas que Carlinhos tomou o seu primeiro porre. Era uma festa de música lenta e pouco vinho, mas não pouco que não deixasse alguns deles fora de si e Carlinhos era uma dessas pessoas. Na manhã do dia seguinte o jovem rapaz acordou sem noção do que tinha acontecido além do gosto amargo que tinha na boca. Não fossem suas três melhores amigas esfregando os seios nus em sua cara enquanto uma tinha nos dentes a cueca que antes ele vestia e nosso herói jamais acreditaria que há pouco tempo ainda era um menino honrado e respeitador que nunca diferenciou o branco do preto, o bonito do aceitável e o homem da mulher e agora, entretanto, fica sabendo que passara toda a noite entre adoráveis criaturas com quem deve ter feito o impossível e o não permitido e mesmo assim acredita que o gosto que tinha na boca já tenha mudado.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

COLEGA (ÍNTIMA) DE ESCOLA.

  
    Com mãos de fada Júlia acariciava o corpo da morena com quem dividia uma quitinete na faculdade. A pele brotoejava no toque sutil de quem talvez não soubesse que desenvolveria pela colega um sentimento maior que o de uma simples amizade. Ter a sorte de poder falar junto ao seu ouvido, sentir o cheiro de sua pele e quando possível tocar seu corpo era como realizar sonhos que jamais pensou que tivesse. Sempre que possível tomava seus cabelos entre os dedos e fio a fio os escorria, da mesma forma como elogiava o verde esmeraldas dos seus olhos. Também não media palavras quando elogiava os seios dela; pequenos e firmes. Júlia era bonita e persuasiva o bastante para conseguir o que queria e as vezes até se tornava refém dessas conquistas. Tinha vez que sentia água na boca  só de falar nas pernas compridas, lisas e macias da amiga. Não era à toa que se questionava quanto a necessidade de ficar tão perto dessa garota a ponto de querer tocá-la, de sentir seu hálito e de até beijá-la como já quis. Nessa noite porém, nada, ninguém ou a natureza teria como evitar o que houve entre as duas. Já era madrugada quando cansadas chegaram à casa. Quando Júlia entrou para o banho a amiga já tinha terminado o dela. Assim que voltou ao quarto viu que a amiga já tinha adormecido, mas nada além da calcinha impedia que um maravilhoso corpo fosse apreciado por quem se mordia de desejos. Júlia perdeu algum tempo namorando aquela obra-prima inerte na sua frente. Não podendo pensar em outra coisa Júlia se questionava; como tocar nessa gata sem ser repreendida caso ela acorde? Como controlar a vontade de mordiscar a pontinha de sua orelha, de beijar o canto de sua boca e de espremer entre os meus seios os da mulher que se quer? Nada disso seria permitido eu sei, mas cobri-la com um lençol de linho branco mesmo que minhas mãos toquem de leve seu corpo, abram suas pernas e entre elas eu me agasalhe, sim, isso podia. E foi graças a essa certeza que Júlia, fingindo escorrer o lençol por sobre aquela formosura pode acariciar sua amada naquela noite e em todas as outras em que juntas dormiram.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

DAS RUAS AO SUCESSO

     Em 1948 nascia na Flórida um cara que mais tarde reviveria o estilo do ídolo James Brown, um monstro do Funk e do sound mundial. Charles Bradley, que há dois textos venho falando a respeito, demonstrava claramente nas suas apresentações a influência adquerida  ao ídolo Brown morto não faz tanto tempo. As músicas de Charles Bradley fazem parte da trilha sonora do seriado americano Suits, que assistimos em minha casa até o meado desse ano, e dos seus personagens, principalmente do fabuloso advogado "Harvey Specter", que tem entre os de sua coleção no fabuloso escritório o álbum de Bradley como um dos preferidos. Eu gostaria de lembrar a quem viu ou vê a série que esse brilhante advogado é o mentor de Mick Ross, seu parceiro e amigo, o  segundo na foto.
  Somente aos 8 anos o cantor conheceu a mãe com quem foi levado a morar no Brooklin, em Nova York. Antes vivia na casa da avó até aquela idade. Aos 14 anos a irmã o levou ao Apollo Theater, para, pela primeira vez assistir o show de James Brown que a partir daquele momento mudaria a cabeça do menino. Na adolescência Bradley fugiu de casa para morar nas ruas, chegando a dormir nos vagões do metrô durante alguns poucos anos. Depois acertou ao se inscrever num programa gratuito de educação e estímulo vocacional que o governo americano dava de graça. Esse mesmo programa o levou ao ponto mais oriental dos Estados Unidos onde trabalhou como cozinheiro. Lá ele foi comparado a James Brawn por sua aparência. Perguntado se sabia cantar, negou, por medo. Depois de superado esse medo fez alguns shows com uma banda formada por pessoas amigas até o dia da convocação à Guerra do Vietnã, quando a banda acabou. Bradley cozinhou por mais 10 anos quando, pegando carona, cruzou o estado para morar em Seathe, Canadá e depois no Alaska, antes de morar na Califórnia onde teve alguns empregos temporários e fez alguns shows num espaço aproximado de 20 anos. Depois sua mãe pediu-lhe que voltasse a morar em sua companhia na cidade onde se apresentou como sósia de James Brown e depois, claro, o sucesso que teve até ontem, quando nos deixou ao som das músicas que não só em Suits, mas na vida que nos resta continuará nos embalando.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

UM HOMEM DE TODAS AS RAÇAS

     Jemes Brown foi o grande mestre senão o pai do funk music de onde surgiram Elvis Presley e mais recentemente, Michael Jackson que fez uma festa ao passar por aqui. Com a morte de Brown o som music ficou órfão, mas ia se consolando com as apresentações de Charles Bradley que, como poucos, sabia incorporar o precursor da música negra americana com sua dança arrojada e seu canto rouco agressivo. Tudo já quase ia bem quando, para nossa felicidade e principalmente a minha, soubemos que o negão se apresentaria no Rock in Rio desse ano. Os dias iam passando, os shows acontecendo e Lady Gaga não dava as caras. Assim como o pai do ritmo que antes envolvia os mais pobre negros novaiorquinos e os brasileiros da periferia de todas as raças, eis que Charles Bradley também não chegou a tempo de se fazer conhecido do seu público brasileiro. Novamente a maldade da foice da morte nos ceifa o prazer que teríamos em vir o negão suado, de corpo sarado rodando nos calcanhares no alto do palco mundo como Tony Tornado em 1970 nos fez chorar e cantar com ele.
Agora é esperar caso a morte não nos pregue outra peça para rever Jemes Brown incorporado em outra pessoa, não importa de que cor e de qual nacionalidade ela seja, desde que nos faça dançar e esquecer das agruras da vida antes da morte.

domingo, 24 de setembro de 2017

DE NOVO?

    Eu não sabia que escrevendo sobre um “sarro” eventual, entre um rapaz e uma mocinha no metrô do Rio causasse tamanho reboliço. Eram muitos, talvez uns dez ou mais emails nervosos que lotavam  minha caixa de correspondência depois da publicação. Cada um mais zangado que outro e aos que pensam que só mulheres desabafavam, enganaram-se, já que os homens esbravejavam muito mais. Talvez porque tenhamos, nós, os homens, o mesmo cérebro das amebas, segundo afirmação das feministas. Por isso é que eu, assim meio sem jeito, decidi contar-lhes que ontem, a amiga de minha filha, também adolescente, decidiu contar para ela, que por sua vez nos confidenciou em casa que essa sua amiga, no amontoado de estudantes que lotavam o último ônibus que as buscava na escola, sentiu-se, aparentemente, importunada por uma colega que, de pé a sua frente, enfiava uma perna lisinha e macia por entre as coxas dela, e, segundo relatou à minha filha, sentia no contato daquela perna entre as suas um prazer tão grande que, comparado ao prazer que os meninos com quem ficou lhe davam, era muitas vezes mais gostoso. Aí eu me pergunto; quem está certo e quem estaria errado assediando ou se deixando assediar num momento onde tudo é proibido ou é pecado, se o nosso dinheiro não dá para pagar quase nada do que é lícito e permitido?

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

SUANDO A CAMISA.

    Entrou e não encontrou onde pudesse se sentar, mas para ficar de pé podia escolher o lugar que quisesse. Então optou pela parte de trás onde ficaria à vontade nas redes sociais do celular. Entretido não percebeu o quanto de gente entrara naquele trem, mas o suficiente para uma garota, que não tendo onde se acomodar, se postar de frente à sua perna apertando, de leve, a vulva na sua coxa. Talvez não tivesse o propósito de fazê-lo, mesmo assim excitou-o a ponto de deixá-lo do jeito que ficou. Fingindo acessar o Whatzap como vinha fazendo, voltou para ela seus radares na intenção de saber se era ou não voluntarioso o contato de suas coxas na dele, da sua barriga no seu quadril e depois de um determinado momento, a dele na dela. Ninguém, além dos movimentos da locomotiva, os tirava daquela posição e só depois de concordar quando ela comentou sobre o calor que fazia ali dentro que o pobre rapaz relaxou e pela primeira vez na vida obteve um orgasmo em público e daquela dimensão, talvez com a permissão de quem também nunca tivesse gozado de tal experiência como ela naquele momento. 

- Nessas horas eu me lembro de um velho bordão que dizia; se a vida te dá um limão, que tal fazer dele um refresco?

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

SÓ O AMOR PARA EXPLICAR.

 
    Por isso ou por aquilo já vi gente trair no casamento, porém nunca pensei que alguém fosse capaz de ajuntar as tralhas, botar a família e o cachorro debaixo do braço e correr para junto de quem acha que ama só por pensar que tem por ela um amor tão puro que chegas às raias da inocência. Sim, porque só agora me dou conta de que esse tipo de amor é possível, mesmo já tendo largado tudo para atender o chamado de quem eu tanto gostava sendo que para a pessoa eu não passasse de um mero pagador de contas, principalmente dos almoços e dos chopes que bebíamos. Quando eu procurava por ela, nunca estava disponível, mas se fosse ela quem precisasse de mim lá estava eu abanando o meu rabo. 
O amor que eu sentia por essa pessoa, e acho que ainda sinto, era e é verdadeiro, sem cobrança, desinteressado, uma vez que dela eu só carecia da companhia para assuntos banais e como somos héteros e bem resolvidos com as nossas mulheres, sexo não tinha chance entre a gente.
 Hoje, algum tempo mais tarde, me vejo abraçando aqueles que largaram o conforto das casas, o aconchego dos amigos do bairro, a fidelidade da igreja dos domingos e vem, de mala e cuia, rever o amigo que calado sofria por sabê-los distantes. 
Amar é isso. É não se importar com idade, com o estado físico aparente e com o sexo que tenha a pessoa que o seu coração escolheu para amar, e quando esse amor é recíproco, aí a gente vira criança. Bate palminha, dá pulinho, corre para os braços da pessoa amada e beija-lhe a sua face ou, se você tiver a sorte que eu tenho, se deleita com a gargalhada que ensurdece a inveja e o preconceito, e aos íntimos, garante a sensação exata da felicidade.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

DESCULPE O DESABAFO, MAS POR SER CONSIDERADO UM MACHÃO NÃO TINHA COM QUEM CHORAR...

    
   Convivi com João Ubaldo Ribeiro de quem penso ter sido um bom amigo e com quem tomei algumas dezenas de chopes no Leblon onde ele morava e assim que eu soube de sua morte chorei mais do que talvez chorasse por um parente. Um dia esse mesmo João me falou que a minha escrita era confusa aparentemente, mas, quem sabe, talvez fosse uma nova maneira de se falar dos dias que estavam surgindo. A gente estava sentado num bar na esquina das ruas Dias Ferreira, onde ele morava, com a General Urquiza, no Leblon.
Também chorei com a morte do Paulo Silvino, pessoa com quem eu não convivi, mas conhecia uma vez que seu pai, Silvino Neto, vivia na diretoria do Banco, onde eu trabalhava, em busca de recursos para a sua obra e com quem conversava nas vezes em que ele por lá aparecia.
Luiz melodia,  por sua vez,  era um garoto que tocava escaleta, um tipo de flauta com teclas de piano, em frente a casa onde eu morava. Ele dizia que no futuro seria cantor e a gente, moleque que era, ria da cara dele, talvez por inveja dos dotes que tinha. Quando sozinhos a gente falava desse futuro que só veio pra ele, e da gente que dele fazia troça, recebia os aplausos e os gritos de bravo!, de bis, e de quero mais.  Sua morte também foi a minha.
Luiz Gonzada eu conheci quando o Governador de Minas,  que também era diretor do Banco onde eu trabalhava, me apresentou a ele graças a humildade do velho Magalhães Pinto. Uma vez o Gonzagão, que almoçaria com a gente no segundo andar da Travessa Ouvidor com a Av. Rio Branco, me chamou para perto de onde estava sentado e cantou uma de suas músicas, que já não me lembro qual foi, batucando na mesa de dez metros que ficava num espaço onde os diretores almoçavam e ele, como se eu entendesse de música, me perguntou o que eu tinha achado.  Na época eu era secretário de Theóphilo de Azeredo Santos, que por sua vez era casado com uma das filhas do Velho Magalhães e por isso eu também me sentava naquela mesa.  Foi lá que eu aprendi como se comportar em uma mesa de refeição e olha que eu era um menino, 20 anos de idade, e só ingressara no banco por causa de um despretensioso concurso. O que eu queria de fato era trabalhar no jornal onde aos 15 anos tomava gosto pela coisa e onde eu fiquei até os 18. Depois fui para o exército, mas voltei ao dar baixa para o convívio das letras. Pouca gente conhece a minha história e só a estou contando  porque estou triste com as perdas decorrentes, e como se não bastasse, chega ao meu conhecimento a morte de Rogéria com quem nunca falei, mesmo tendo amigos que não se continham na sua presença e agora, coitados, se escondem na saudade para comigo chorar essa mazela.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

SEU NOME É SAUDADE...

   Hoje eu acordei com uma saudade tão grande daquela moça que até chorei de soluçar. Foi difícil acreditar que tivesse tido coragem de arrumar suas coisas e sem saber que deixava um rastro de tristeza deu às costas e sumiu na poeira do tempo. Naquele dia não só eu chorei a sua ausência, mas todos que tão bem ela soube cativar. Não foi de agora que me dei conta do quão misericordioso foi nosso Deus nos presenteando com a sua presença, pois foi com ela que aprendemos o verdadeiro sentido da alegria. Foi com ela que soubemos o que é resguardar de companhia duvidosa aqueles a quem amamos, como também ela nos ensinou a valorizar uma longa viagem, mesmo que cansativa ou um simples passeio se estivesse conosco. Ah, minha jovem! Ninguém jamais fez melhor festa para me receber, para receber sua irmã e principalmente para ter sua mãe ao seu lado, como você fazia quando chegávamos à casa. Ninguém colocou tanta certeza nas minhas dúvidas, tanta alegria nas minhas tristezas e tanta saudade no meu coração como você consegue. Eu sei que voltar deve ser impossível, mas se um dia você achar que o nosso amor é suficientemente verdadeiro, por favor, não se acanhe. Volte pra casa que estaremos no portão onde você nos deixou, de braços abertos a sua espera.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

QUEM SERIA O DONO DELA?

   Eu não pedi pra nascer, mas se tivesse pedido, quem me garante que pediria para nascer humano? Talvez preferisse ser outro animal ou quem sabe eu quisesse ser a própria natureza mesmo errando ao colocar o nariz da gente em cima da boca, os testículos no meio das pernas e os seios da mulher na frente do peito; talvez um na frente e outro atrás fosse de bom alvitre. Mas nada como a natureza tem seus encantos. Nela existem rios com margens para a privacidade, leitos para esparramar suas preguiças, nascentes como berço e uma foz imensa para se entregar de corpo inteiro. E tem um mar para desaguar o que antes alimentou a fauna e a flora enquanto caminhava como também carrega consigo o poder da mudança. Em milhões ou bilhões de anos mudou as montanhas e os oceanos de lugar. Criou continentes, vales, precipícios, chuvas e ventos, e até se deu ao luxo de apagar do mapa o que achou ter errado. Com uma palavra é capaz de mudar o humor de uma pessoa para o bem ou para o mal, como também é capaz de salgar a lágrima de sua alegria e a da sua tristeza. Eu, portanto, queria muito ser essa tal natureza, mas pelo que vejo a natureza já tem dono ou o dono talvez seja sua própria criação.  Dessa maneira vou seguindo a minha trajetória enquanto invejo a vida que levam os outros animais.

terça-feira, 18 de julho de 2017

POR QUE SE FOI?

   Chorou como choram os bebês no berço sentindo a falta da mãe. Chorou até se desidratar, como os monges na semana santa choram o sofrimento de Cristo. Chorou para não se esquecer que chorando lava-se a alma e tudo que não for puro existente nela. E foi assim o seu fim de semana como também os demais dias que se passaram. Certamente os inimigos se perguntariam se a tal choradeira seria consequência de um estado terminal dando motivos a tão sonhada festa em homenagem a sua morte, ou teriam de aturar por mais uns tempos esses sorrisos de felicidade e até quando já que a eles incomodava tanto? Mas ele, sinceramente, não pregaria uma peça dessa nos que o querem jazido em cova rasa, até porque, atingiria, de certo modo, os que tanto gosta e pretende mantê-los consigo por vários anos. De qualquer formam foram tristes os dias que passaram sem a presença dela. Com ela ele era uma pessoa, mas sem ela nem sabia no que tinha se tornado. Talvez nem humano ele se considerasse mais. E com este pensamento deixaria de se definhar como vinha acontecendo, já que ela, com certeza, era tudo que um ser poderia esperar de bom da natureza pois a sua imagem era linda como o alvorecer, adorável como uma tarde de domingo e irradiante como as festas da primavera. Que pena que vai durar mais tempo sem ela do que ela durou com ele e que pena que ela não tenha ficado para ver a mudança que causou em cada um dos que, de uma certa maneira, ela provou que amava.
A estas horas certamente já deve estar distante, talvez num lugar onde entendam a linguagem dos anjos com a qual tentava se comunicar com os amigos que fez ou ainda esteja por aí a sua espreita. A ele deve ter sobrado forças para dizer que haverá uma enorme festa para os que em breve descobrirão que não é preciso saber falar ou ouvir tão bem para fazê-los felizes como ela, de certa maneira, fez com os que deixou para trás.
-Vá na paz, mas não exija dos que triste ficaram que a esqueçam, porque somos humanos e o esquecimento não faz parte dos nossos melhores sentimentos.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

SOU FILHA DO CARA...

         

   Meu nome é Rebecca. Sou filha de um cara que diz que o verdadeiro amigo não é aquele que nos fala a verdade , mas aquele que fala o que a gente precisa ouvir.
- Certa vez meu pai chegou a nossa casa com alguém que marcaria os nossos dias, o nosso tempo, a nossa vida. No princípio achamos que trazer Babi para o nosso convívio fosse algo de errado, mas errado seria o julgamento que fizemos de papai, já que logo entendemos que o verdadeiro amigo, contrariando o que diz o meu velho, não é aquele que nos fala o que acha que precisamos ouvir, mas aquele que cala e nos escuta. É aquele que nos olha e nos enxerga. Aquele que não puxa a cadeira para se sentar conosco, mas que se deita aos nossos pés para mostrar que não estamos sós. Dois anos e sete meses essa criatura ficou com a gente na casa dela. Sim, porque a casa, que antes nos pertencia, mudou de dono com sua chegada. Nada mais fizemos sem antes pensarmos nela. As viagens, os hotéis e os restaurantes tinham de atender às suas necessidades ou mudávamos a rota, os pernoites e os lugares onde comeríamos. Tudo foi ajeitado de maneira que nem nós notamos que até as nossas vidas não mais nos pertencia. Babi tornou-se dona de tudo e de todos. Trocou de quarto, trocou de comida e tudo o mais que a fez mais bonita às exigências dos outros. Há dois dias Babi resolveu nos pregar uma peça e o fez sem nos questionar se estávamos de acordo ou não. Hoje pela manhã Babi arrumou o que tinha trazido há dois anos e sete meses, meteu dentro das nossas lembranças e partiu. Foi embora para lugar desconhecido e não sabido, mas deixou, além da saudade e o agradecimento preso em nossa garganta, o espaço vazio onde, com jeito e inteligência, conquistava mais a cada dia.
Como tudo em nossa casa foi feito às suas vontades, que vá na paz, minha doce Babi. Vá, mas desculpe se a gente não foi nem um terço do que você representou para nós que chorosos, sentimos a falta que você já nos faz".

sábado, 1 de julho de 2017

POR QUE CORRUPTO?

    A corrupção não é privilégio do ser humano ou não seriamos fruto de um homem e uma mulher que, por corrupção da natureza, se apaixonam a ponto de perder o siso já que o homem vê na mulher, que o enfeitiça, o que de mais delicioso, bonito e gostoso alguém espera que a natureza lhe dê ao passo que ele, aos olhos de sua amada, não é menos que a dádiva que Deus guardou para ela até que aos poucos o tempo prove ter enganado a ambos, e ao tomarem conhecimento da esparrela que caíram o homem volta à dureza do machismo e a mulher à subserviência do seu legado. 
Ninguém, pelo menos que os estudos me garantam, é feliz no casamento, a não ser que estejam juntos a pouco tempo ou um deles se curve diante daquele que bate no peito dizendo que é a exceção da regra. 
Por isso alguns homens são trocados por quem não possui nem um terço das suas qualidades. O mesmo acontece com a mulher. Tem homem que escolhe a melhor do mundo com quem se casa e depois de alguns meses corre às ruas em busca de quem o satisfaça na cama, mesmo que em casa ele tenha o que de melhor e mais belo exista no planeta. Na hora de acusar aqueles que achamos que estão errados nos esquecemos da arapuca que a natureza nos tem metido ou as desculpas para esse tipo de erro não seriam necessárias. Eu adoraria ser a exceção da regra, mas para isso seria preciso encontrar uma exceção tão grande que coubessem os meus parentes e os melhores dos meus amigos.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

E AGORA?

    Tem vez que gentileza não gera gentileza, até pelo contrário. Assim foi com meu filho que ao sair de uma festa num bairro vizinho, viu que alguém dava tapas na lataria do carro. Talvez fosse um conhecido querendo carona ou quisesse zoar, como fazem alguns jovens num final de festa. Meu filho ficou uma fera e com toda a razão, até porque, se o pai soubesse que o carro correra risco de ser arranhado, com certeza não o emprestaria novamente. O veículo não tinha andado suficiente para que o automático trancasse as portas, por isso aquela pessoa o adentrou mandando que seguisse. Era a voz de quem fugia de uma possível violência. Voz de medo, de pavor. 
– Meu Jesus do céu! Será que estou sendo assaltado por uma criança? – Pensou o condutor. Nenhuma segurança, por mais reforçada que seja, detém a violência nessa cidade. Cem metros mais a frente a voz no banco de trás voltou a ser ouvida, desta vez com menos petulância. Certamente pela calma que o meu filho, falsamente, aparentava, mas de qualquer forma era menos agressiva que os agudos dados ao pé do seu ouvido. 
– Você me desculpe, mas passei a noite com um cliente que ao invés de me pagar pelo serviço me tomou o dinheiro que eu tinha e ainda me forçou a cheirar cocaína. Foi muita sorte achar a chave e poder fugir. Por isso eu entrei no primeiro carro que apareceu, nesse caso, o seu. Eu estava fora de mim, só queria salvar a minha vida, entende? Agora que estamos longe do perigo você pode me deixar em qualquer esquina ou se não for pedir de mais, me leva pra sua casa. Assim que eu melhorar eu juro que vou embora – completou chorando. A garota era linda e com aqueles olhos cheios d’água, então, ficava muito mais bonita. Parecia uma santa, não fosse a saia extremamente curta e os pequenos seios que a blusa mal cobria. 
– Tá legal. Depois do que você me contou eu não tenho coragem de deixá-la por aí a mercê da sua malfadada sorte. Vou te levar comigo, mas nada de barulho para não acordar meu pai. O coroa é careta e jamais entenderia u’a menor em nossa casa. 
– Não se incomode comigo que eu sei me cuidar – disse ela – amanhã de manhã eu volto pra minha casa – concluiu.
– Amanhã de manhã? Tu ta de sacanagem, garota! Tu não podes passar o resto da noite na minha casa ou meu pai corta minha mesada. Você até pode ir para minha casa tomar um banho, comer alguma coisa e quando sentir que está melhor me fala que eu te levo de volta. Depois eu converso com meu velho. 
– Tá legal. Vou aceitar o banho, comer alguma coisa e depois eu penso no que faço da minha vida – disse escondendo o riso. 
Eu, como faço todos os domingos, me levantei às 7h, tomei uma ducha fria e um gole quente de café, e, diferente do meu filho, ia à missa dominical. Era só pegar a chave que infelizmente não estava no lugar onde guardamos, por isso fui questionar meu filho. Pasmo o encontrei abraçado a uma mocinha que mais parecia minha neta, filha dele se filha ele tivesse. 
– Jesus de Nazaré! É a mesma menina a quem eu dei carona recentemente e por respeito e diferença de idade a deixei dormir em minha casa e dela recusei todos os carinhos que a mim oferecia. Será que eu sou um imbecil de carteirinha por não saber viver a vida ou o meu filho é que não vale nada por estar dormindo com uma criança? Na dúvida resolvi esquecer o assunto, como se um caso dessa magnitude fosse simples de se tirar da cabeça, principalmente quando uma garota, um pai e um filho, em diferentes noites da mesma semana, participaram de alguma coisa sem que cada um desconfiasse dos outros.

terça-feira, 20 de junho de 2017

COISA DE CRIANÇA...

   

   Na umidade entre as pernas da mocinha achava que tinha a mão, a boca, o órgão  despretensioso do menino, e tudo graças a generosidade do lençol que permitia aos olhos gulosos do rapazinho, vasculhar os dois mais lindos montes daquela paisagem.  De sua boca, fortuitos lábios de um sonhador em crescimento roubam beijos de gente grande para depois sumir no anonimato de suas remotas lembranças. Foi  diferente, estranho, surpreendente. Foi como um sonho, uma droga, para deixá-la naquele estado.  Um pesadelo talvez, mas quem nos garante que a causa tivesse mais importância do que o efeito nela provocado? Não continuassem os espasmos a contorcer-lhe o corpo tal qual uma serpente à beira da morte se contorce e eu garantiria que os múltiplos espasmos – ou seriam orgasmos?, estariam vibrantes como os sinos em dia de missa.  Sonho ou pesadelo, verdade ou fantasia? Não importa se promessas não são negadas ou quebradas. Se desejos proibidos, pecado capital, incesto de mãe desejosa de  filho amado, é verdade.  Enfim, nada de concreto teria acontecido de maneira que a lembrança não pudesse esquecer, desde que, assim o pretendesse. Eis que,  ao som do alarme de um celular a mocinha salta do leito deixando ao vento um par de pernas nuas e os seios pontiagudos mirando a cara espantada de quem, envergonhado, a desejava, enquanto ela dormia.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

LEMBRA DE MIM?

   
   Sempre que eu ia à rua, Vagabundo me acompanhava. Esse cara não ia com a cara de nenhum dos moleques da redondeza, mas na minha se amarrava de montão, por isso o levei pra morar comigo, mas, daquela data em diante eu o chamaria de Válter, porque "Vagabundo" não é nome que se dá a cachorro nenhum, principalmente ao cachorro que a gente gosta, e eu gostava daquele bicho. Tudo o que presta e também o que não prestava, confesso, ensinei para ele. Por isso Válter era o único cachorro que falava na minha rua - pelo menos era o que me diziam. Quando a gente saía nada que eu fizesse era feito sem sua participação. Se por ventura eu comesse alguma coisa, a melhor parte era dele. Talvez por isso o seu pelo vivia brilhando ao passo que o meu.... Nem te conto. Válter adorava cachorro quente com molho de tomate, batata palha e maionese. Aliás, eu nunca entendi esse cara que amava cachorro quente com molhos afins, mas na hora de comer só a salsicha o interessava. 
  Na segunda-feira de carnaval e não na quarta-feira de cinzas daquele ano Válter bateu as botas, e como todo bom amigo, morreu sem me dizer que sofria. Como um cão tão forte e bonito daquele jeito podia morrer numa hora dessas, meu Deus? Valter, seu filho da puta, você acabou com o único carnaval que minha mãe me deixou brincar, sabia? E não contente, ainda levou com você a alegria de quem me falava de suas aventuras, dos seus sonhos e até dos amores não correspondido que teve você me falou. Desculpa, mas até a data de hoje eu não me conformei com a sua partida. Se você tivesse me dado um toque, uma pista, feito com que eu entendesse que alguma coisa não ia bem ou que a morte o estava embalando para viagem e eu teria tomado as minhas providências. Não sei exatamente o quê, mas faria qualquer coisa, como rezar, jurar que deixaria de roubar dos meninos no jogo de botão, coisa que eu fazia com destreza ou nunca mais tomar banho pelado no Rio que separa Vigário Geral de Caxias, onde praticamente aprendi a nadar enquanto na margem onde eu deixava a minha roupa você ficava torcendo para eu não me afogar, lembra? Pois é, e você me faz aquela sacanagem. Desde aquele tempo que eu não tenho olhos para nenhum bicho da tua raça. Não quero saber de cachorro para trocar o nome, ensinar a falar e principalmente, com quem me abraçar e chora nas horas triste da vida enquanto você, entendendo como entendia do meu sofrimento, deixava uma lágrima correr dos seus olhos para depois me enganar que não era sua, mas minha. Não, nada de cachorro para comer o melhor do meu cachorro quente. Nada de bicho que não me impeça de chorar para poder chorar comigo. Não quero mais um companheiro que me deixe com cara de retardado falando com quem não entende, segundo os anormais que pensam que bicho não fala.
Agora chega senão eu choro. Esse texto era só um motivo pra dizer que cresci, amadureci e já sinto as rugas me incomodarem, mesmo assim não consigo esquecer do amigo.

sábado, 10 de junho de 2017

DORMINDO COM O INIMIGO...

Sentou-se no leito enquanto ao lado um parceiro, gordo como uma porca, babava
estirado na cama. Mais uma vez a filha de uma família abastada se questionava quanto ao que teria na cabeça para se entregar a qualquer um depois de umas cervejas e, as vezes, um "cigarrinho", que sempre aparece nos barezinhos de final de semana. Se eu acordasse depois desse cara - pensava - com certeza teria encontrado uma nota de 50 paus jogada na mesa para, submissa e devedora da generosidade do gesto, tomar um táxi para casa. Mas se ela se levanta primeiro, como agora, quem paga a corrida é a sua insensatez, também por achar que não teria estômago para encarar uma pessoa que a levou à cama sem que em sã consciência se permitisse. Vestiu-se, tomou no ombro a bolsa, e atrás dos calcanhares bateu a porta. Ganhou a rua, parou um táxi e volto à agonia do silêncio do seu canto para, certamente, refazer no dia seguinte ou no escurecer da mesma tarde o que acaba de lastimar...

sábado, 3 de junho de 2017

SEXTA NO BAR


   
    Da mesa onde Zemané estava se via um belo par de pernas de quem, mesmo com saia curta, não se aquietava conversando com as amigas. Batata frita, meia garrafa de vodca e algumas latas de energético faziam das quatro um bando nada reverente. Uma delas falava tão alto que mal se ouvia a música ao passo que a mais espevitada se deitava na mesa para fazer fofoca de alguém do bar. Zemané se contorcia para não ser pego olhando e assim continuar se fartando com o que mais lhe enchia os olhos. Quando a morena se levantou para ir ao banheiro, duas outras a acompanharam, enquanto à dona das belas pernas restava guardar os lugares na mesa. Zemané se excitava com as pernas da garota que uma hora as tinha cruzadas e em outra as afastava o suficiente para que suas calcinhas, se é que as tinha vestido, ficassem a mostra de quem tivesse, como Zemané, o privilégio de sentar-se ali. Nervoso com o que via Zemané resolveu puxar assunto com ela. Chegou como quem não quer nada para dizer, abaixando-se sobre a mesa, que ela era a garota mais linda que já tinha visto e que a sua presença valorizava o lugar até então frequentado por quem só queria espairecer. Marcinha, acostumada com todo o tipo de assédio, inclusive os mais atrevidos, ficou apaixonada com o respeito e cuidado com que foi abordada. Por isso, depois de dizer o seu nome e saber o dele, perguntou se não queria sentar-se com elas, o que o jovem de pronto aceitou. 
A madrugada tinha chegado quando as meninas chamaram para ir embora. Zemané pagou a conta e decidiu levá-las, cada uma, à casa dela, deixando por último Marcinha com quem se entendeu e que mal se aguentava acordada. Prometendo as amigas que entregaria a menina à família Zemané levou sua caça a um motelzinho na esperança dela dormir um pouco para se recuperar. Zemané não gostava de fazer amor sem a participação da companheira, por isso assistia TV enquanto a moça dormia. Eram 10h da manhã quando o interfone tocou para avisar que o prazo de seis horas já tinha vencido e que ele precisava entregar o quarto ou pagar por uma nova "diária". Nesse momento foi que Zemané percebeu que estava sozinho na cama. Na cama e no resto do quarto, já que a garota por quem nutrira todos os desejos, mas por quem teve o maior respeito, meteu o pé, foi embora. Vazou levando o que ele tinha de valor, inclusive o carro que foi encontrado num shopping daquela cidade. Zemané não fez questão de nada que ela tinha levado, mas achou-se um grande idiota ao esperar que a moça que o encantara com o seu lindo par de pernas, melhorasse para com ele fazer o mais gostoso de todos os amores.

terça-feira, 30 de maio de 2017

O VELHO MASCATE

      Luiz Bolinha, como era conhecido, era mascate, um tipo de vendedor que saia de cidade em cidade oferecendo seus produtos. Era um tipo interessante, brincalhão, fascinante por assim dizer. - Um garotão -, como Zé Klein o definia. Bolinha não viajava sem antes preparar um plano de voo. Jamais deixou de programar o seu roteiro e quando dizia adeus a sua gente era sinal de que sabia para onde ir e o que fazer, em quais pensões faria as refeições e em que hotel descansaria o corpo. Luiz Bolinha tinha os Hotel reservados para os pernoites, mas esqueceu-se de um, por isso foi dormir de favor na casa de um velho aposentado que se prontificou tirá-lo daquele sufoco. Não fosse o agravamento da enfisema levar o velho ao posto de saúde e Luiz Bolinha teria dormido no banco da praça. Isso se Bruno e Marrone não estivessem dormindo lá. 
A casa do seu Neneu, velho que socorreu Luiz Bolinha, era bastante simples e o dono generoso por demais. O ambiente era humilde, mas limpo. O banheiro era digno de elogios. O lençol que recebeu para cobrir o colchonete cheirava a flor e a colcha tinha o perfume da bondade. Isso sem contar com o sorriso franco e generoso como jamais tinha visto. Depois de uma boa chuveirada o visitante se deitou ao longo do corredor sabendo que talvez atrapalhasse quem precisasse por ali passar, mas o cansaço cerrou seus olhos e dormiu. Dormiu até que os gemidos no quarto em frente o acordaram. Bolinha ficou sem saber o que fazer. Estava muito cansado, pingando de sono e mesmo não se esquecendo que estava de favor na casa de quem o tinha recebido como um parente, Luiz Bolinha se encheu de curiosidade. A cama no quarto ao lado fazia barulho e os gemidos eram de mulher. Uma dúvida, porém, baratinou Luiz; como aquele velho doente, como lhe pareceu, conseguia tal façanha? Que tipo de mulher seria aquela que transformava um velho asmático num garanhão? Bolinha cobriu a cabeça com o travesseiro, mas quando pensou que podia dormir, um grito agudo o pôs de pé. Luiz, esquecendo-se do sono e do cansaço, quis saber o que estava acontecendo. A voz que ouvia era de homem que pedia a mulher que o permitisse fazer com ela alguma coisa que o mascate não ouviu direito. Curioso, Luiz Bolinha tentou olhar através da fechadura, mas nada viu. Os gemidos e sussurros aumentaram até que um berro de prazer ou sofrimento antecipou o silêncio que se instalou nas redondezas.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

PARABÉNS PELA DATA.

    
     Hoje não só é o dia do seu aniversário como todos os outros o são para você, para mim e todo mundo.  De  uns anos para cá eu tenho dado graças a Deus por conseguir abrir os olhos para ver que  a vida ainda me sorri.  Ainda mexo os braços e as pernas, sinto o clima da casa, o cheiro do café na cozinha, assim como me levanto, ando e tenho fome.  Hoje, portanto, é o dia do meu aniversário, mas como já faz tanto tempo que o milagre acontece  eu não ligo mais ou digo que não ligo.  Tal acontecimento não é privilégio meu ou seu, mas da gente, dos bichos e da natureza.  Hoje, de verdade, o Milton César, meu gato, aniversaria como todo mundo, mas dessa vez é pra valer.  Faz muito tempo que ele viu, pela primeira vez, a luz do sol, da lua e das estrelas.  Viu a felicidade escancarada na cara dos pais quando chegou e, por fim, assistiu o começo dos dias, das tardes e do anoitecer, assim como sentiu e se deu conta do legado que recebeu; a vida.
     Do meu gato eu quero o primeiro pedaço de bolo e mais um dos seus belos sorrisos. Quero também que a sua felicidade seja o melhor dos legados que Deus já tenha dado a um filho.  Parabéns e aproveita a festa, porque ela é sua, enquanto a gente aqui, ali, e alhures, tem o privilégio de estar ao seu lado como seus amigos, seu pai e os seus amores.

sábado, 20 de maio de 2017

MARESIA.

   Tem gente que interpreta o sentimento das pessoas de tal maneira que só de ouvi-la eu fico todo arrepiado. Recentemente eu escrevi sobre o relacionamento que existe entre o homem e a mulher, e na minha explanação eu devo ter dito muito de mim e das pessoas que de certa forma dividem suas vida comigo. Na oportunidade eu dissertei sobre o simples e o complexo. Sobre as lagartas que comem a árvore onde moram e sobre a razão que faz mover o mundo. Também falei sobre as coisas que aparentam não serem importantes, mas que na verdade são as que ditam a velocidade do tempo. Uma dessas pessoas, cujo nome prefiro não declinar, falou-me da tristeza que maquio nos textos publicados no blog que visita com certa frequência.  Essa pessoa, sem nenhuma pretensão, reabriu a ferida que há muito eu achava ter cicatrizado.  Suas palavras eram de uma ternura semelhante a do mediador de sequestro prestes a imobilizar o inimigo. Foi desta forma, doce e gentil, que abriu as comportas onde veladas tristezas se mantinham sob a face serena das águas represadas. Diante dessa realidade eu me vi vazando minhas lágrimas sobre um textos que terminava. Chorei me confundindo nas concordância, trocando de lugar os acentos, os pontos, as vírgulas, assim como transfigurei minha cara  com o pranto derramado.
Talvez eu devesse me "analisar" para buscar o motivo da minha alma fazer tamanho alarde frente aos que têm o privilégio de ler nos gestos e nas palavras a euforia extrema ou a alegria exacerbada digna de quem não tem uma trilha por onde caminhar, como eu imaginava. É provável que a terapia  acalme o ímpeto das grandes ondas que tentam levar o barco do raciocínio aos rochedos ou ao fundo do mar como se lá fosse seu derradeiro porto.  Por isso o gosto da maresia nessas palavras

segunda-feira, 15 de maio de 2017

SABES POR QUÊ?

   Tu podes até dizer que não sou teu conhecido, teu colega, teu amigo, mas no fundo, no fundo, sou eu quem sabe o que verdadeiramente sou para ti. E se queres que eu te lembre não faças cerimônia pois eu ainda sou o vento que espalha a tua chama. A lágrima do teu pranto quando rola. O gol que te fez vibrar e a picada por onde a floresta dos teus desejos escapou. Eu não sou o sim ou o não, mas o talvez de todas as tuas incertezas. Eu sou as mãos que as tuas afagaram, a prece da tua fé, o remédio que te cura, a extrema-unção da tua tristeza e a alegria que te mata.
Eu sou, enfim, o que tu quiseres e o que não quiseres que eu seja.




quarta-feira, 10 de maio de 2017

SÓ SE FOR ASSIM...

   Não tenho prazer nenhum em falar que calei aquele que me ofendia. Que esmurrei quem me bater queria e para não colocar em suspeita a minha honra eu paguei uma conta que não fiz.  Não teria prazer algum dizendo ter desonrado algumas mulheres, mesmo que fosse mentira.  Que recebi troco a mais, que ajudei a dar porrada em um moleque que roubava uma velhinha e que eu tinha ensinado ao meu instrutor o que é ser cidadão. No entanto tem coisas que me enchem de orgulho como ser honesto, pagar minhas contas e devolver o que peguei emprestado.  Essas coisas fazem de mim uma pessoa diferente, pois, de certa forma, mesmo sabendo que pagando o que eu devo e devolvendo o que não é meu não passa de obrigação.  Não quero morrer achando que a minha passagem por este jardim foi em vão, por isso pretendo ensinar aos meus netos, caso seus pais tenham se esquecido, que ser direito não é errado e que ser honesto não é desonestidade.   Assim como vou dizer a eles que meu pai morreu sem saber como era ficar sem trabalhar. Sem saber o sentido da palavra cansaço e sem deixar que suas dores, que talvez o meu velho tivesse, tirasse dos seus lábios a doçura do sorriso.  Vou dizer que bondade não é sinônimo de bobeira.  Que evitar uma briga não é prova de covardia e que o amor, só o amor, lapida na rocha o seu nome. Assim, creio eu, todos serão felizes, como, acredito, o meu pai foi, eu sou, e meus filhos talvez também sejam.

sábado, 6 de maio de 2017

VISITA AO INFERNO.

    Não tinha um dia que a sogra não fosse várias vezes à sua casa. A qualquer momento, até cansada de uma longa viagem, ela ia perturbar a paz dos que sem a velhota iam melhor. As visitas constantes perturbavam o pobre do genro que para não ouvir os queixumes da esposa acabava engolindo os sapos de sempre. Quando alguém os visitava era a sogra quem dava as caras. Segredos não eram trocados naquelas dependências porque de orelha em pé a pessoa aparecia na maior cara de pau. Se alguém quisesse se esconder daquela criatura bastava ir a sua casa, lugar onde pouco ficava. Longos anos de angústia e sofrimento o rapaz passou com a presença indesejável que até de namorar a própria esposa da maneira que pretendia era impossível. A intimidade do casal era de certa maneira interrompida por quem batia na porta querendo falar sobre coisas que nem a ela interessava. Em um dos sábados quando se preparava para sentar-se à mesa com a família para o almoço, o capeta, em forma de mulher, apareceu. Felizmente foi vista antes de concluir o primeiro lance de escada. 
- A gente está almoçando, disse o genro fechando a cara. Quando terminarmos eu te chamo, completou sem olhar para baixo. A velha fingindo não ter ouvido continuou subindo até que foi impedida de fazer o que pretendia.
- Eu já falei que estamos almoçando e tão logo terminemos eu te chamo. Grunhiu enfurecido. Aí fechou o tempo. A velha começou a gritar e chorando dizia que a filha era dela. Que a neta era dela e que a casa  onde a gente morava também era dela. O genro que não queria que a família soubesse que estava acontecendo fez tudo para abafar o caso.  Disse saber que  não era dono de nada, mas que isso não vinha ao caso, mas que ela os deixasse almoçar em paz jurando chamá-la quando terminassem. Nesse momento a mulher e a filha, tomaram partido da coisa. Largaram seus pratos e foram abraçar a velha que chorosa se viu carregada para dentro, como ela queria, onde abraçadas choraram a "injustiça" do rapaz. Mais tarde a esposa, educada e compreensiva, entendeu os motivos da briga, só lamentou que fosse com a sua mãe, enquanto a filha, por quem daria a vida, há 15 dias não olhar para a sua cara. Enquanto a sogra não escancarou as portas do inferno não se deu por feliz. Isso nos garante que o diabo existe e o genro garante que mora na casa ao lado. Durante o tempo que a filha não fala com ele o diabo continua fazendo a ronda. Pelo visto a perturbação voltará a ser como antes, só a mocinha continuará fugindo do pai como o diabo apavorado foge da cruz.

terça-feira, 2 de maio de 2017

A FÉ NÃO COSTUMA FAIÁ.

  

   Eu costumo dizer que médico não tem, necessariamente, que examinar o paciente tocando no corpo dele, sorrindo de suas histórias ou conversando como se ninguém mais o aguardassem na sala de espera. Médico, como eu vinha dizendo, não está ali para agradá-lo, mas para melhorar o seu sofrimento ou, se possível, curá-lo da enfermidade.  Não adianta tratar o doente como se fosse seu amigo e deixá-lo do mesmo jeito que chegou, mas, se o profissional tiver como amenizar o sofrimento de quem busca os seus serviços e ainda por cima for atencioso e gentil, palmas para ele.  Por outro lado o paciente precisa ter fé em quem vai examiná-lo.  Ter fé nos que o cercam em seu leito e ter fé, principalmente no criador, porque, quando o doente acredita em Deus e nos profissionais a sua volta ele encontra conforto à uma possível melhora ou à hora derradeira.  Havemos de acreditar em quem cuida da gente,  em quem torce por nós e principalmente naquele que, sendo noite ou sendo dia, faça sol ou faça chuva, nos tem sob o seu manto sagrado.  Com fé o doente melhora se o médico não acertar com a medicação. Melhora com a enfermeira tomando o seu pulso, com o zelador nos pés da cama escondendo uma lágrima e até contraria o tempo de vida anotado no prontuário aos pés da cama. E quando tudo passar. Quando o sol apontar os últimos raios dourados do outro lado do mar e a dor der um basta ao sofrimento, mesmo assim o senhor haverá de estar por perto para fechar, pela última vez, os olhos do seu filho.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

EU TE AMO VOCÊ.


    Eu sei que não falo corretamente e escrevendo eu consigo piorar o que já não vinha bem, mas não iria esconder um amor que não nasceu do meu interesse, mas da relação que mantemos. Eu jamais me calaria por falar e escrever errado. Não é por comer umas letras ou escrever outras que não fazem o menor sentido que deixarás de saber que sou um cara bastante castigado nesta minha curta existência e quando alguém melhora alguma coisa a meu favor eu me torno seu eterno escravo. Pelos caminhos por onde passei conheci um pouco de tudo. O que era bom era pouco e o que não prestava sobrava. Conheci gente roubando de quem nada tinha ou se tinha foi por anos de luta e sofrimento. Conheci pessoas doentes que tentavam, para viver um ou dois anos a mais, roubar os remédios daqueles que esperaram meses para receber do governo. Quanto à parte boa da coisa, é claro, que é esse amor que tu regas no meu coração. Contigo me sinto livre para abraçar todo mundo. Abraçar e dizer obrigado por me permitir amar como jamais pensei que eu fosse capaz. Há dias fiquei sabendo que onde tu pões os pés nasce de um tudo. Nasce e viça a fauna e a flora.  A doçura dos frutos não há quem dela conteste. As minas de ouro, os poços de petróleo, as pedras preciosas e o alimento que mata a fome dos que plantam, dos que cuidam, dos que trabalham na colheita e dos que nada tem para viver são fundamentais à vida dos teus filhos. Por isso eu também te amo, e, por me deixares falar o que sei e do jeito que sei sobre ti e tua gente. Amo-te por saberes que eu falo errado e mesmo assim tu te ris ao invés de me ignorar. De qualquer maneira te digo que pensando bem eu até falo e escrevo melhor do que muitos porque só faz 45 dias que eu soube da tua existência.(Antes era Pelé,Lava Jato e nada mais) Nesse pequeno espaço de tempo aprendi a falar e a entender o que tu dizes e só o fiz rapidinho por causa do amor que tu despertaste em mim. Amo-te, Brasil, terra querida, que és linda e gentil. Hospitaleira e carinhosa com os que aqui aportam e mesmo sabendo que uma pequena parte do teu povo tenta te devorar aos pedaços tu continuas de uma forma ou de outra, a manter na boca da maioria dos teus o sorriso da esperança. 
  Espero que acredite no amor desse cara que nasceu no outro lado do mundo onde tudo que pagamos volta em benefício da população, mas se quisermos sorrir como o povo daqui tão bem faz, haveremos de pagar um bom dinheiro para que nos façam cócegas ou viveremos emburrados como eu era.


segunda-feira, 24 de abril de 2017

NÃO MATE SEUS SONHOS...

   
    Ela era uma criança que enrubescia ao ver o garoto pobre e sorridente que ultimamente vinha ao seu portão. Do quintal onde a menina de 12 anos morava podia ver o garoto se acomodar nos degraus que acessavam a entrada de sua casa, como a garotada nos fins de tarde. Aquele era o momento mais confuso que a pequena atravessava. Será que esse moleque sabe que eu existo ou pelo menos já me teria visto em algum momento? Será que eu devo arrumar um pretexto para ser vista por quem me faz tremer quando ele aparece? - Pensava a jovem sem tirar os olhos do menino. Aquela criança, cujos hormônios esculpiam o corpo, poderia, quem sabe, vir a ser o homem de sua vida? Mais cedo do que pensava os dois se encontraram na gincana entre as escolas. Naquele momento a menina se viu instigada a falar com ele, mas estancou diante da sua figura. Ela, que carregava consigo uma gota de esperança, sentiu o calor esquentar-lhe o rosto e um fogo propenso a queimar-lhe o peito não fez outra coisa senão olhá-lo de tão perto que poderia tê-lo tocado se quisesse. Mas não o fez. Angustiava-lhe o desejo de sabê-lo sentindo por ela o mesmo que nela o menino causava. Na esperança de reforçar a equipe o instrutor achou conveniente trocar o menino por outro mais experiente. Não aquentando a pressão a equipe da menina acabou derrotada. Mesmo não tendo o que comemorar, lá estava ela para ver o menino, mais uma vez. Seria o garoto o primeiro e único amor de sua vida? - Voltou a se perguntar.
Outros encontros, casuais, foram surgindo com o passar dos anos, porém um a levou às lágrimas; a morte da avó do coleguinha. D.Arvelina cuidara do menino desde o nascimento, mas ao primeiro assédio da morte, não resistiu. Entregou-se a ela. Cruzou sobre o peito suas mãos bondosas, fechou o azul dos seus olhos riscando nos lábios o último sorriso. Queria ser lembrada pelo neto como uma pessoa feliz até na hora da morte. O menino acusou o golpe e talvez por isso não se tenha dado conta dos braços miúdos que o envolveram e do beijo na face aonde escorria uma lágrima. Não foi naquela oportunidade que a menina seria notada por ele. Quis a sorte que os dois se encontrassem num momento de grande tristeza para ele. Tempos mais tarde o time do rapaz conquistava sobre o seu principal oponente o título de campeão brasileiro e entre risos de felicidade acabou entre os braços daquela menina que nem gostava de futebol. Fingindo estar feliz com o resultado o beijou na face e com ele ficou o tempo suficiente para alinhavar os seus sonhos. Outros encontros garantiam a ela que estavam namorando. Aos poucos o par foi se conhecendo e dos dois, ele se acomodou primeiro. Não dava pinta de querer nada da vida e de campeão que fora na gincana escolar o moleque já não tinha mais nada. Ela, por sua vez, era mais atirada e se não fosse por sua ousadia, os dois nem teriam se conhecido. Pegada eu não percebi que tivesse, mas, enfim, ele era um bom companheiro, um bom namorado, um ótimo rapaz. Mas sabia que estava errada. Quantas vezes a menina sonhava encontrá-lo galopando num lindo cavalo branco para além dos contos de fadas, os príncipes e as princesas vivem as suas histórias. O desinteresse pelas coisas e por ela, de certa maneira, deixou balançando o que ela achava que sentia por ele e até se questionava se o homem que morava com ela era o mesmo moleque que sentado nos degraus do seu portão olhava as pipas no céu da sua rua. Há muito ela achava que não era, mas só agora tinha certeza. Meu Deus, por que permitiu que eu mesma matasse o melhor dos meus sonhos? Por que não o fez mudar com seus pais para um outro bairro, para uma uma cidade distante, para outro estado ou para outro país? Se assim tivesse acontecido eu não estaria tão triste com ele deitado ao meu lado, mas feliz em me lembrar quando corria pelas ruas atrás da bola que jogava com a molecada enquanto eu fazia tranças na boneca que minha madrinha me deu num dos poucos natais quando alguém se lembrou de mim. Talvez eu não tivesse resistido se você não fosse meu na hora que foi, mas também você, quem sabe, não tivesse tido a sorte de conseguir alguém melhor do que eu? Pensando assim estou dando a entender que cansei de correr atrás do meu próprio rabo. - Ela se perguntava como se não estivesse vivendo aquilo. Agora que o tempo passou e tudo na gente ficou diferente eu já não o vejo com os mesmo olhos que me levam a perguntar se ele é mesmo aquele moleque por quem fiz loucuras só para que me notasse. Eu sei, disse ela aos seus botões, que você está aqui, deitado ao meu lado, mesmo assim eu sinto muito a sua falta. Talvez se você mudasse a sua maneira, se me tratasse com mais interesse, se ouvisse do começo ao fim o que eu falo talvez mudasse alguma coisa. O tempo, no entanto, me mostra o cristal rachado e não fui eu sozinha quem fez esse estrago, você me induziu ao erro quando me obrigou a deixar de ser criança, a pensar e agir como mulher. Talvez por isso nada mais pode ser mudado a não ser para a pior. Ah menino da minha infância, que saudade você pinta em minhas lembranças. Resmungava ela no momento em que ele puxava o lençol de cima dela para se cobrir.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

COM MUITA HONRA.

     Na calçada em frente a um depósito de bebida os vendedores vão saindo para trabalhar. Se alguém me pega olhando, enquanto passo, respondo com um aceno de cabeça em cumprimento. Mal sabem que durante anos eu fiz parte daquela trupe e graças a estrutura da empresa e a generosidade do patrão eu estudei e me formei doutor em leis. No final dos meus estudos meu pai montou um escritório, que seria meu, num espaço vago da sua casa.  Diploma em baixo do braço, aperto no peito e na mão uma carta de rescisão que o meu patrão não aceito. Deu-me em troca, além do abraço arrojado e palavras de encorajamento, valores que jamais pensei ter direito. E como sabemos Internet não havia naquele tempo, por isso os anúncios dos meus serviços eram postados nas páginas amarelas e foi através delas que alguém me contatou.  Eufórico pedi que viesse à minha sala. Assim que o vi percebi que o sujeito era um tipo conhecido, mas o que mais me chamou a atenção foi o nome da empresa que queria acionar. Tratava-se da mesma onde  trabalhei, ganhei meu dinheiro, respeitei e fui respeitado. Como poderia processar pessoas dignas e que tanto fizeram por mim e por muitos que por lá passaram, como aquelas? Quando nos despedimos prometi encaixá-lo na minha agenda, mas ligaria para os detalhes.  Gente, se eu me comprometesse com certeza me esforçaria para ganhar a causa, e se ganhasse alguém tiraria uma foto que se transformaria num post e certamente iria para o alto da parede atrás de mim. Depois eu, com o peso na consciência, ficaria sem dormir o resto da minha vida. 
Dei uma desculpa aos meus pais e fui à casa de um amigo onde fiquei aquele resto de semana.  Na segunda feira me inscrevi no vestibular da USP onde há dois anos me formei em jornalismo.   
- Como jurista talvez não comentasse o fato, mas como escritor me arrisco falar dos outros, inclusive das minhas fraquezas.