terça-feira, 22 de maio de 2018

CAPIXABA.

       
           Do centro de Vitória eu embarquei à Colatina. Era um desejo antigo conhecer uma das principais cidades do interior do Espírito Santo e a influência que exerce sobre os municípios do leste mineiro.
Ao retornar, uma jovem mulher com o filho ao lado acenava chorosa para o marido que enxugava os olhos, na plataforma. Eram lágrimas doídas da despedida. Com os olhos molhados ajeitou a criança e sentou-se a minha frente, num dos últimos assentos, no corredor. O momento seria de grande ternura se ela não tivesse tomado a atitude que tomou quando, sem querer, esbarrei no seu seio.  Foi quando o busão deixou a rodoviária que eu, ao me apoiar no encosto do banco da frente esbarrei a mão no seu peito. Eu pensei que fosse tomar um baita esporro da dona. Que ela fosse mandar o motorista parar o ônibus e me jogar para fora enquanto me xingasse de tudo o que é nome.  Mas que nada.  Pelo contrário.  Ela sorriu com um lindo sorriso e ainda por cima prendeu minha mão de encontro a poltrona quando me desculpei.  Naquele momento foi que eu tive certeza de que o Diabo existia. Na certeza de não estar sendo  observado eu me  curvei e segurei um dos seus seios, mas desta vez de propósito. Primeiro por cima da blusa, depois através do decote.   Em nenhum momento a mulher que chorou ao se despedir do marido fugiu às minhas investidas. 
Eu sempre achei que pessoas audaciosas vivem cruzando a linha do perigo, por isso voltei a sentar, mas puxei a mão dela para trás, para o meu colo. Cutuquei um gorducho, com jeito de açougueiro, que cochilava junto a janela ao meu lado, e mostrei-lhe com um gesto de cabeça o lugar onde ela estava com a mão.  Depois me levantei e ao seu lado, de pé no corredor,  botei junto a cara dela todas as minhas vergonhas de modo que ela pudesse, com a sua ousadia, desenvolver a sua criatividade. 
 Incrédulo o gordinho não perdia um só movimento.  Enquanto a mulher se arranjava com o que esfregava na cara eu viajava na certeza de que os cafajestes, assim como mulheres inconsequentes, são capazes de coisas que até Deus duvida, mas, com certeza, deixando atrás de si um rastro de tristeza e sofrimento.

sexta-feira, 18 de maio de 2018

SONHO DE VALSA.

    
    Seu Justo, um senhor metido a puritano, mas que de puritano não tinha nada, gostava da maneira como o tratavam na padaria, principalmente por parte de Janice, a garota do caixa a quem cantava na maior cara-de-pau.  Talvez, em um desses momentos, a tivesse feito entender que precisava de uma pessoa para cuidar de si e da casa. Por isso Margarida, que era amiga de Janice, começasse a visitá-lo.
 Senhor Justo se arrependeu de não ter dito a Janice, que afora ela, mulher menor de 50 anos, principalmente as bem feitas de corpo e que usam vestidos curtos, não tinha chance na casa dele, até porque, ele sabia o tipo de homem que era.
Em duas oportunidades seu Justo teria descartado a possibilidade dessa pessoa trabalhar em sua casa, mesmo assim não tinha um dia que ela não o procurasse a noite para convencê-lo do contrário. 
Em contrapartida o cinquentão “lutava” para demovê-la da ideia.
– Pois é Margarida. Eu sei que a casa precisa de uma boa limpeza, mas eu não posso pagar o que você merece e mesmo se pudesse talvez eu não devesse já que vivo sozinho.  Você é u'a moça bonita e com predicados que não me deixariam dormir, principalmente  com você aqui, tão perto.  E se digo isso é porque já tive problemas, e não pretendo cruzar essa ponte outra vez – disse sem esconder que mentia.
– Ah, seu Justo, eu sei que o Sr. precisa de uma empregada da mesma forma que eu preciso de um emprego. Esqueça os detalhes que o senhor mencionou e me aceite, vai!  Eu juro que não tiro  o seu sono.  Até pelo contrário. Farei tudo para que seja tranquilo como eu sei que serão os meus se o senhor me empregar – disse com cara de dengo.
   Seu Justo tinha jurado não tocar mais no caso, mas como fazer para se livrar aquele demônio? 
– Oh, bicho desgraçado é mulher! Enquanto uma foge das minhas cantadas outras levantam a minha libido tão alto que parece doer com o estado que fica. Só que o preço para aplacá-la só eu sei quanto custa – resmungou. 
– Não, Margarida. Melhor não. Está na cara que isso não vai dar certo. Eu me conheço, enquanto você...
Margarida não esperou que completasse a frase. Abaixou a cabeça, pegou a bolsa pendurada no encosto da cadeira e já ia saindo quando seu Justo a puxou pelo braço. Margarida rodou nos calcanhares e sentiu o seu corpo encostar-se ao dele.  Um fogo, não se sabe vindo de onde,  cozinhou o juízo de Justo de tal forma que, não resistindo aos impulsos, beijou-a na boca.  Margarida, num gesto ligeiro enlaçou-se ao  pescoço do beijoqueiro e num salto trançou-lhe a cintura com as pernas. Sem desgrudar da moça a leva, como filho de macaco agarrado a mãe e a deita de costas no tampo da mesa.  Não tinha sacado a arma para abater a caça quando a campainha tocou.  Num salto Justo saiu da cama e antes de atendê-la notou que teria perdido a hora se a maldita campainha estivesse desligada. Nada, entretanto, havia do outro lado da porta a não ser um bilhete enfiado por baixo, onde se lia;  Obrigado seu Justo, mas o dono da padaria me chamou para trabalhar com ele. Desculpa a amolação e muito obrigado, de novo. Ass. Margarida.
Seu Antônio era viúvo e diziam as más línguas que antes da morte da esposa o safado levava as mulheres para dentro do estabelecimento onde metia a mão na massa.  Encantadas em vê-lo preparando os sonhos deixavam que lhes queimasse as roscas.

segunda-feira, 14 de maio de 2018

LOUCA DE PEDRA.

        
     Maria Santa viajou do interior do estado até aquele lugarejo, a quilômetros da capital pernambucana. Infelizmente chegou dois dias após Pedro Barros perder a luta que vencia contra o câncer.  Pedro Barros tinha 20 anos. Difícil foi acreditar que deixasse a mulher viúva, e o filho de 3, tão cedo. Tudo começou aos 17 anos quando Pedro Barros engravidou a namorada Sarah, de 15, como pretexto para se casarem. Com o parto complicado Sarah perdeu a noção das coisas e só 14 dias mais tarde recuperou a normalidade quando a parteira colocou nos seus braços um robusto menino com todos os traços do pai – antes pensava ser uma menina. Pedro Barros acompanhou o sofrimento da mulher que, segundo a parteira, talvez a mãe ou a criança não saísse do parto com vida. Pedro Barros, transtornado, partira em busca de socorro de onde voltou duas semanas depois e conheceu a criança. Foi um milagre – disse à parteira com o filho no colo.
Nesses últimos dois dias, ao levar o filho para brincar na pracinha, Sarah achou que uma mulher, que jamais vira naquelas redondezas, a seguia.  Até pela janela a mulher fora vista bisbilhotando.  Maria Santa tinha 22 anos, era ruiva, altura mediana e muito bonita. A sua aparência e vivacidade lembrava as Bündchens não fosse o aspecto de mulher sofrida e maltrapilha. Certa vez Dona Sebastiana, a parteira que tinha Sarah e o marido como seus filhos, sabendo que a mulher tinha qualquer coisa a ver com eles, decidiu questioná-la.
 – Eu nunca a tinha visto por aqui, mas como estou sabendo que a senhora está seguindo a minha amiga e a seu filho decidi lhe perguntar por quê está fazendo isso? Afinal, quem é a senhora e o que pretende além de tirar o sossego dessas pessoas?
– Ah, eu me chamo Maria. Maria Santa.  Estive internada em um sanatório por três anos de onde fugi para encontrar a pessoa que eu amei loucamente até que roubasse o nosso filho recém-nascido de mim.  Infelizmente, como eu dependia de carona,  cheguei depois que ele tinha morrido. Sofri e sofro muito a ponto de ficar louca, como fiquei, mas estava disposta a esquecer o assunto e até perdoá-lo depois que me falasse o que fez com meu filho  – disse chorando.
– Aonde a senhora conheceu Pedro Barros e o que lhe dá a certeza de que ele roubou um filho que nem a senhora sabe se era dele?
– Bem, os homens nunca têm certeza, mas nós, mães, sabemos quem nos insemina. Com o sumiço dos dois e a quebra do meu resguardo acabei enlouquecendo. Fui internada num sanatório, mas quando descobri o endereço dele eu fugi e foi graças as pessoas generosas que eu estou aqui. Pena que é tarde de mais – disse olhando os pés.
Dona Sebastiana correu à casa de Sarah e a chamou em um canto. Contou-lhe, enfim, um segredo que guardou por 3 longos anos. Tirava, a partir daí, um peso que carregou por tanto tempo na consciência.
– Sua filha era linda, Sarah, mas Deus não quis que vivesse. Pedro Barros ficou desesperado e sem saber o que fazer pegou um trem e sumiu por quinze dias deixando você mais morta do que viva.  Quando voltou entregou-me uma criança dizendo que era sua e dele. Quando perguntei de onde a trouxera ele mentiu e eu, infelizmente, fingi acreditar.  Guardei essa mentira por amor a ele que tinha como meu filho e a você, também, minha querida - disse com lágrimas nos olhos. Você criou um filho que agora é seu, mas também pertence a essa moça que vê em seu filho os traços de Pedro Barros a quem, também, amou, como você. Portanto, se você quiser e se o seu coração permitir, com certeza ela deixará definitivamente a casa de saúde que deve estar virando o mundo atrás de uma louca fujona. Louca, sim, mas por ter perdido um filho, um filho a quem você deu o bonito nome de Jesus.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

HOB CHAMBLER

    Quando Fernando enfartou eu sugeri a Teresa, sua mulher, que o trouxesse para se tratar no Rio e como eu tinha uma casa desocupada a duas quadras da minha prontifiquei-me a ajudá-los. Era justificável Teresa não me considerar amigo da família, até porque, eu a traí com sua irmã que, depois de ouvir as minhas queixas, decidiu me dar o que a minha namorada me negava.
Velhas lembranças – diria o Palhaço poeta. Velhas lembranças.
Eu acreditava que com o passar do tempo ela talvez me perdoasse, mas...
Agora era esquecer o orgulho e cuidar do marido para não perdê-lo.
Ontem, depois da caminhada, decidi por visitá-los.  Acredito não ter sido uma boa hora, não para mim, mas para ela que saiu do banho com uma toalha enrolada na cabeça e um felpudo roupão branco sobre a pele – pelo menos nada eu notei que vestisse por baixo. Coloquei a revista no colo para que ela não visse a protuberância nas minhas calças quando a vi se abaixar na minha frente para sentar. 
– Você não mudou nada – disse-me ela.
Estava na cara que o roupão a trairia. E traiu quando sentou. Abriu-se de cima a baixo e só não mostrou os seios porque os esfregaria na minha cara quando colocasse as xícaras, que trouxe na bandeja, sobre a mesinha. Teresa continuava a mesma mulher gostosa de há sete anos. Aliás, o tempo jamais se atreveria mexer no perfil das mulheres que se cuidam.
– Você não mudou nada – repetiu.
Eu sei que deveria falar sobre o caso do Fernando, mas como, se nem respirar eu podia? Vermelho eu sei que estava, e mais vermelho eu fiquei com a tranquilidade com que deixou a bandeja para cobrir as pernas e os pelos púbicos que o roupão deixou ver. Aí ela, como se nada tivesse acontecido, me entregou o café.
– Pois é, eu estava caminhando quando decidi perguntar se precisavam de algumas coisa.  O Fernando, por exemplo, como está reagindo às fisioterapias?
Teresa sabia que, se eu estava ali, não era só por causa dele, por isso achei que o roupão se abrindo fosse pretexto para testar minha amizade por seu marido. Depois me lembrei dela falando para todo mundo que eu era cafajeste e agora, diante do que parecia estar propensa, poderia, finalmente, provar que estava certa.
Em momento nenhum eu pensei que Fernando não desse mais no couro por conta da doença. Em nenhum instante eu achei que fosse por carência ou por lembrar-se da pegada que nem sabe se eu ainda tenho.  De qualquer maneira comportava-se como um coelhinho frente a arma engatilhada  do caçador.
– Teresa, quem está aí? – Perguntou Fernando lá do quarto com a voz atrapalhada.
– Eu preciso falar com seu marido, em que quarto ele está?
– Eu só não quero que ele saiba que você está aqui comigo. Espere um pouquinho que já volto. – Disse levando uns comprimidos e um pouco d'água lá para dentro.
– Pronto. Não dou cinco minutos e ele estará dormindo como um bebê. Agora venha comigo que vou lhe mostrar uma coisa.
Teresa pegou minha mão e foi me arrastando para um quarto nos fundos da casa onde uma cama com lençol de linho branco salpicado com pétalas de rosa vermelha nos aguardava.
– Meu Deus!  E o cafajeste sou eu...   
Tirei minha mão de dentro das dela e saí em passos largos, quase correndo, para não vomitar na sua frente.
Há um ano Fernando morreu. Eu só não saberia afirmar se em decorrência do enfarto ou pelos motivos que o provocaram.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

MARIAJOÃO

   - Pisou no meu pé por que, cara? "Tá" a fim de arranjar confusão ou alguém "te" mandou me provocar? - disse-lhe na ponta dos pés com os narizes quase se tocando.  O pobre rapaz não queria nada disso, além de um lugar onde pudesse viajar num vagão apertado como aquele. Mas dera azar ao se apertar junto a  Marcelle, uma loirinha que até um ano atrás vivia presa  num corpo que não tinha nada a ver com a sua personalidade. Só depois de muito sofrimento e trabalho conseguiu mostrar aos pais e ao mundo a mulher que havia nele.  Muitas coisas mudaram a partir de então, só o temperamento que não.
Aos cinco anos, Marcelle, já era vista com olhos preconceituosos e jamais soube o que era paz até que resolvesse seus problemas. Com ajuda de um psicólogo e de um amigo, decidiu dar um rumo à sua vida.  Ela e sua mãe sofreram muito quando o pai lhes disse que não faria parte daquela vergonha e a expulsou de casa.
 Marcelle não o perdoou.
Hoje, para seu desespero, o viu na estação pronto para embarcar, mas para evitar confusão, ela não desembarcou. Ficou ali até que o pai saísse do trem. Preferiu perder o compromisso a topar com ele.  Não queria confusão, mas não deu. Não foi possível ficar sem brigar. Não com o pai, mas com quem nada tinha com isso, mesmo pisando seu pé.
- Desculpe.  Eu não quero e muito menos estou atrás de confusão, mas, caso eu quisesse procuraria um cara do meu tamanho e não u'a mocinha pequena e frágil como parece que és. E para provar que te falo a verdade vou trocar de vagão, só para não ficares com raiva de mim - disse com os olhos cravados nos dela. Depois virou-se e espremeu-se por entre os passageiros em direção à saída.
- Meu Deus, nunca um cara tão bonito e educado me olhou e agiu desse jeito - pensou.
Antes que ele saltasse Marcelle o pegou pelo braço.
- É claro que eu o desculpo, mas, por favor, antes de saltar, deixe-me explicar o que está acontecendo. Aí você vai me entender.
No bar que escolheram para conversar os dois se apresentaram. Victor  falou que tinha terminado com a namorada por ter mentido que estava grávida o que lhe dera uma grande dor de cabeça. Depois a firma o despedira, e agora pisava no pé de uma garota brigona.  Enquanto ele falava,  Marcelle selecionava as palavras com as quais contaria sua história. Já Victor, reclamava da sua falta de sorte que andava tendo.
E assim passavam a tarde até que o celular de Marcelle tocou.  Era sua mãe dizendo que o pai sofrera um enfarto e antes de ser operado chamara por ela. Nervosa e sem saber o que fazer contou para Victor que tentou convencê-la a visitá-lo.  
- Eu acho que deves escutar tua mãe, até porque, essa pode ser a última vez que teu pai pede alguma coisa para alguém.  Vá, vá e depois me digas o que ele te falar.
- Tá legal.  Eu vou, mas só se você for comigo...
Quarenta minutos mais tarde chegavam ao Hospital onde o pai de Marcelle fecharia os olhos assim que unisse a mão da filha com a do rapaz e pedisse que o perdoasse. Depois olhou para Victor e pediu que cuidasse dela.  Dado o recado tombou a cabeça e descansou. Uma lágrima surgiu nos olhos de Marcelle para morrer nos lábios de Victor que a beijava.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

THE VOICE KID

    
    Ao completar 15 anos  ingressei na Brigada Paraquedista realizando um sonho de infância. Lá recebemos, eu e 28 recrutas, algumas roupas das mãos de um sargento que nos levaria à companhia onde tomamos banho de mangueira. Era um jato de água tão forte que um cabo e um soldado suavam para dominá-lo. Para evitar que fossemos arremessados uns contra os outros, cada conscrito apoiou-se da maneira que dava. Eu, por exemplo, ajeitei-me de costas, não só para criar base, mas também para evitar certos comentários que poderiam fazer.  Mas não teve jeito. Logo me arrumaram um apelido. Um, não. Vários. Mesmo que eu só tivesse mostrado a bunda não consegui esconder o meu grande segredo.  Grande para mim, mas para eles parecia imenso.
A turma parecia ter esquecido meu nome, pois só me chamavam pelos apelidos pelos quais eu, prontamente atendia na esperança de que não pegasse. Um sargento, no entanto, chamou-me pelo que eu mais detestava e para minha infelicidade o apelido pegou. 
- Kid bambu! Gritou o miserável que nada de importante tinha para me dizer além de me sacanear.  De qualquer forma trocamos palavras sem sentido e cada um seguiu seu caminho. 
Em três meses a companhia já tinha saltado o suficiente para ser brevetada.  Eu, no entanto, não precisei mais de 30 dias para atingir essa meta.  Ninguém constava nas listas de salto mais do que eu e uns três camaradas que não me zoavam. Durante o tempo que fui responsável pelas listas de salto eu lancei menos vezes aqueles que eu não gostava do que eles achavam necessário ou queriam.  Só que eu, não.  Em um mês eu já tinha saltado mais do que qualquer um desejasse, até que, na sargenteação, um superior me perguntou por que os meus colegas faziam ordem unida naquele sol escaldante de abril enquanto eu me refastelava no ar condicionado? 
- Tenente, é que na companhia, só eu mexo com computador e as escalas de saltos são todas feitas por mim.
-  Tudo bem, soldado. Só que eu quero você lá embaixo com os outros.  Ordenou o oficial que saltava duas vezes por semana e jamais ficara de serviço num sábado ou num domingo. Isso mesmo. Saltava duas vezes por semana e tinha os fins de semana livres para fazer o que bem entendesse.  Isso mesmo, tinha. Pensei com os meus botões...
Semanas depois o comandante perguntava por que o tenente estava saltando de quinze em quinze dias e nos finais de semana era visto no quartel?  
- É a escala, comandante. É a escala,  só que não sou eu quem a faz, é o computador.  
Na formatura eu, claro, era o mais novo e também o mais sacaneado.  Quando chamaram o meu nome a turma não perdeu tempo...
-  Kid bambu! Kid bambu! Kid bambu! 
Eu, como já estava acostumado, não dei bola.  Dei um passo à frente para ser brevetado por alguém que se parecia muito com a tia Clarisse, cunhado da minha mãe. 
- Meu Deus, como era bonita aquela mulher... 
Depois fiquei sabendo se tratar da esposa do tenente, aquele que me mandava marchar num sol  escaldante de abril.  O comandante a convidara pela beleza, com permissão do marido, é claro, a  fazer as honras da corporação.
No final da festa recebi abraços de uns, beijos de outros e alguns bilhetinhos marcando encontros.  De toda aquela gente a que mais me impressionou foi uma que além de ter colocado o brevet no meu peito também tinha  letra muito, mas muito interessante.

segunda-feira, 30 de abril de 2018

QUANTO TEMPO TEM O TEMPO?

     
     Há muito o sujeito me causava repulsa e indignação...  Oh, cara chato, meu Deus! Se eu pudesse dava um soco na cara dele. 
Muitas foram as vezes que troquei de calçada para não ter o desprazer de cruzar com ele. Olhar sua cara então, nem pensar. Se alguém acha que conhece alguém inconveniente esteja certa que esse cara é duas vezes pior. Uma vez fui à casa da Francisca, irmã dele, a fim de ajudá-la em uma matéria que certamente cairia na prova. Mas não deu. Desisti, porque o garoto não sossegou até me tirar do sério. Começou me dizendo que eu era linda e que tinha sonhos românticos comigo. Até aí, tudo bem. Mas quando começou a contar os detalhes daquele sonho nojento, virei bicho.
- Cara, será que você não se enxerga? Quando foi que te dei permissão para falar assim comigo?, disse esfregando o dedo no nariz dele. Mas ele, como todo cafajeste, ria com o estado que conseguia me deixar. 
Desculpando-me com Chiquinha enfiei minhas coisas de qualquer jeito na mochila e saí chutando tudo o que via pela frente. Infelizmente a irmã não tirou nota boa e tudo por causa do desgraçado. Mas foi bem feito para ela, porque, como seus pais, nada fazia para melhorá-lo como pessoa.
Dois meses depois papai nos levou para o outro lado do planeta, pois era assim que eu chamava o lugar onde nos levou para morar. Não fosse a morte da minha avó a gente não saberia das novidades, como a separação dos pais de
 Chiquinha dois anos após nossa viagem, quer dizer, há treze anos.  
Francisca se casara e foi morar em Portugal com o marido. O irmão, aquele idiota de cujo nome, graças a Deus, eu já nem me lembro, montou um consultório após ter se formado onde atende a seleta clientela na parte da manhã, e a tarde, crianças e idosos carentes da região. Tudo de graça. Fora as semanas que viaja à Amazônia, mais precisamente à tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru, para tratar os carentes infectados pela malária, segundo titia me contou, e terminou dizendo que só Deus o mantinha de pé pois nem para descansar o rapaz tinha tempo.
Quando eu soube que ele pagava as despesas e as passagens, inclusive os remédios que receitava com o seu próprio dinheiro, eu juro que me deu vontade de sentar nos calcanhares e chorar até que as lembranças de ter sido tão rancorosa e grosseira sumissem da minha mente. 
 Mais de três vezes aqui, eu falei o nome da minha amiga Francisca, mas quantas deixei de falar no dele, do Guilherme, Guigui, como o chamavam quando jovem? Um monte, não é mesmo? Meu Deus, quanto arrependimento...
 Com os olhos úmidos pela perda de minha avó e a
rrasada com o que  minha tia acabava de dizer eu deixei minha xícara de café no balcão e voltei para rezar junto ao corpo. Coloquei minha mão sobre a mão que puseram no meu ombro, de quem recebi um beijo no rosto. Era Guigui, o Dr. Guilherme. Viera para atender seus clientes e dar o último adeus aquela que o viu crescer.  Primeiro por fora e mais tarde por dentro.
Segurei o rosto dele entre as mãos, olhei fundo no azul dos seus olhos e sem dizer de quê e porque,  pedi-lhe desculpas. Beijei-lhe as faces, abaixei a cabeça e, chorei...

quinta-feira, 26 de abril de 2018

BOLINHAS DE GUDE.

      
    Meu pai era boxeador, nas horas vagas, mas era mamãe quem dava porrada na gente o resto do dia.  Meu pai era um sujeito fora da curva, mas alguém tinha que segurar a turma, principalmente a mim, como ela dizia.  A gente morava  a meio quilômetro do comércio, mas qualquer moleque fazia o percurso em 15 minutos, ida e volta. Eu, no entanto, não conseguia fazer em menos de trinta. Ou será que alguém consegue jogar uma partida de bola de gude, principalmente se estiver ganhando, em menor tempo?  Minha mãe ficava uma arara, mas na distribuição das tarefas ir à rua era responsabilidade minha. No dia em que o tio Dilermando veio nos visitar, mamãe pediu-me que comprasse o pão para o café da tarde, mas não sem antes garantir que se eu levasse meia hora, como fazia, haveria de me ver com ela.  Desci a minha rua à mil por hora, mas...
A padaria dava frente para o que sobrou de um antigo armazém cujo telhado parecia estar desabando.  Mesmo assim Vera Olho de Gato passava a maior parte do tempo lá dentro. Parecia não saber o que era medo.  A moça era escurinha, muito magra e bem mais alta do que eu.  Tinha  35 anos aproximadamente e vivia do que lhe dessem. Segundo diziam, era meio perturbada.  Quando me aproximei Verinha me cercou pra pedir dinheiro.  Eu tinha uma nota de dez reais da mamãe.  Eu disse que tinha o dinheiro, mas não podia dá-lo a ela. Então, como ninguém estava olhando, Verinha levantou o vestido e disse que por cinco reais me deixaria tocar naquilo que me mostrava.  Eu, um moleque de 14 anos via, em loco, não a cores, claro, aquilo que me levaria à loucura quando dela me lembrasse. Sem pensar nas consequências aceitei a proposta.  Era só comprar o pão e pegar o troco, até porque era com ele que eu poderia tocar no que ela havia me mostrado. Assim que saí da padaria Verinha me mandou entrar.  Estava escuro e o cheiro não ajudava muito.  Tentei negociar dizendo que era muito dinheiro para botar a mão no que ela tinha em baixo daquele vestido surrado e fedorento.  Então, para não perder o freguês, suponho, me permitiu fazer com ela o que os casais fazem quando estão sozinhos. E eu fiz. Fiz, mas foi diferente de tudo o que já tinham me falado, inclusive quando cheguei em casa sem o dinheiro, que, se Vera não pegou deve ter caiu no meio dos escombros  e sem o pão que ela, com uma dentada comera a metade.
Mamãe pediu licença ao meu tio e me levou para fora querendo que eu a convencesse que não tinha perdido o dinheiro dela jogando bola de gude.

segunda-feira, 23 de abril de 2018

EU TAMBÉM QUERO...

    O que D. Marinete estaria fazendo por aqui, meu Deus? Acho que vou oferecer-lhe uma carona, até porque, ontem, durante o almoço com os meus amigos em minha casa, percebi que ela estava meio caladona e sempre que nos dirigíamos a ela balançava a cabeça em resposta ou dizia um sim ou um não, simplesmente.  Até o Clóvis, que frequentava a casa dela por ser amigo do marido, percebeu. Foi sorte não ter buzinado ou o  Clóvis, que coincidentemente saía do motel na mesma hora em que ela passava por ali, teria ouvido. Agora, o que estaria D. Marinete fazendo ali enquanto ele estava no motel? Ou será que os dois...  Meu Deus, eu não quero nem pensar...  Acho que deve ser coisa da minha cabeça, só pode ser.  Esses caras não seriam tão audaciosos como a minha mente suja me obriga acreditar para fazer um negócio desses. Até porque D. Marinete e a mulher do sujeito frequentam a mesma igreja, além de serem amigas. Eu jamais teria acreditado se me tivessem dito, mas eu vi com esses olhos caramelados que talvez um dia a terra coma.
Confuso e sem saber o que fazer acelerei e fui embora.  No final do dia eis que D. Marinete bateu lá em casa.  Disse que u'a amiga contou para ela que tinha me visto em Mesquita, em Nova Iguaçu, mas que ela tinha respondido que eu jamais deixaria a zona sul para andar num lugar como aquele.
Fiquei puto com aquela conversa. Deu até vontade de voar na garganta dela, mas acabei confirmando a história;
-Não só a sua amiga me viu como eu também a vi. Ela estava saindo do motel com um dos nossos amigos.  Eu fiquei e ainda estou muito indignado com o que vi, disse-lhe eu.  D. Marinete empalideceu. Chorou de soluçar.  Depois enxugou as lágrimas com as costas das mãos e disse que foi num momento de fraqueza que tudo aquilo aconteceu.
- Eu não tenho nada com a sua vida e muito menos com a do Clóvis.  Só  acho que o seu marido, como a mulher dele merecia um pouco mais de respeito.
- O que você quer que eu faça para você me desculpar e esquecer tudo isso? Perguntou.
- Nada. Não quero que faça nada a não ser que você tenha algo em mente, já que anda cheia de surpresa ultimamente.  Respondi.
- Bem, todo mundo sabe que você tem olho em mim e nenhum homem olha para uma mulher sem pensar em levá-la para cama. Portanto eu te pergunto; o que você faria se eu aceitasse um convite seu para sair? Perguntou empertigada.
- É verdade.  Eu sempre tive olhos gordos em você, mas jamais a cantaria, até porque seu marido é meu amigo e também não tenho a cara de pau do Clóvis.  Mas já que você perguntou...
No momento em que eu a vi em Mesquita jamais acreditaria que tivesse coragem de ir onde acabou de dizer que foi, mas agora, depois da confissão, meu Jesus do Céu! Será que o marido e os filhos conhecem a mulher que os tem por esposo e filhos?  Enfim, como diz minha avó, só o marido e a mulher concordam com os segredos que têm.

quinta-feira, 19 de abril de 2018

PUNK NA CABEÇA.

    Não viajei no feriadão, fiquei em casa. Fui o único do prédio que esperou por quem não veio, me deu toco. Não me zanguei, até porque chovia muito no final de semana. Teve um momento que até me arrepiei com um trovão. Parecia que o prédio ia cair. Mal eu me refiz do susto tocaram o interfone, e como o sistema ficava meio esquisito quando chovia achei melhor descer para conferir. 
Na portaria alguém se espremeu entre mim e a porta que eu nem tinha aberto direito e se enfiou num dos elevadores. Apertou o dez e, sem me olhar, começou a futucar as unhas. Era u'a moça alta, ossos malares visíveis, um maxilar que definia claramente o queixo. O rosto era longo, cabelos curtos pintados de azul e vestia casaco cumprido até o coturno que escondia as pernas da calça. Por baixo uma jaqueta preta sobre a blusa da mesma cor. Dois piercings no nariz, três em cada orelha, outros nos cantos da boca e uma bolinha de ouro no meio da língua. Nos dedos, anéis de prata em forma de caveira e os olhos com muita sombra no entorno. Mesmo assim era bonita.
No segundo andar as luzes piscaram. O elevador deu uma sacudida, mas seguiu seu trajeto. As luzes piscaram de novo, mas desta vez o elevador deu um tranco mais forte e parou entre o sexto e o sétimo andar.  Acionamos a campainha do alarme, mas ninguém apareceu para ajudar. O ar condicionado parou e o calor tomou conta da gente. Em cinco minutos a garota começou a suar.  Em dez tirou o casaco e o amarrou na cintura. Assim que o ar deixou de circular e as luzes se apagaram eu comecei a rezar e a estranha perdia os sentidos. Apesar do calor ela estava gelada, talvez porque estivesse nua da cintura para cima não obstante o pequeno sutiã. O elevador começou a tremer, deu um novo tranco e subiu. Apagado, mas subiu.  Foi até o andar que eu tinha marcado. 
 - O que eu faço com essa garota, meu Deus? Deixá-la onde estava eu não tinha coragem.  Levá-la até o décimo eu não tinha também. 
Ainda confuso eu a sacudi e bati no seu rosto, mas nem um sinal ela dava de vida. Arrastei-a para dentro de casa eté minha cama.  Tentei ligar para alguém, mas não tinha sinal. Acendi um toco de vela. Dei palmadinhas no rosto, assoprei seus ouvidos, mas ela não se mexia. Achei que respiração artificial fosse uma boa, por isso fechei a porta para não pensarem besteira e me posicionei sobre ela. Curvei-me até sua boca, mas não tive coragem. Como eu poderia colocar minha boca na de uma outra pessoa sem antes escovar os dentes? Corri ao banheiro e resolvi o problema.  Na volta eu achei que ela tinha mudado de posição.  Tentei contato, mas nada. 
-Será que ela está mesmo apagada ou tá tirando onda com a minha cara?, pensei. Com essa possível certeza reiniciei os trabalhos.  Subi na cama com ela entre os meus joelhos e coloquei minha boca na dela. Beijei-a com sofreguidão. Beijava, mas com a atenção voltada para sua respiração que aos poucos ia aumentando até que ficou igual a do Usain Bolt no final de uma prova. 
-Graças a Deus a garota está viva. Eu sei que estava mal, mas agora deve estar me testando. Deixei seus lábios e desci com a boca pescoço abaixo. Ela resfolegava tal qual locomotiva subindo a serra.  Com muita calma e carinho saquei um dos seios  na intenção de lambê-lo, e o fiz. Livrei-a dos empecilhos que  a sufocavam e a degustei por inteiro. Desci, como um cão bebendo água, até abaixo do umbigo onde escalei o monte de Vênus. O vento não me soprava os aromas do campo, mas também não me desagradava o perfume que me trazia. Desci deslizando a encosta por um lado e voltei a subi-la  por um outro.  Escorreguei pelo meio até que cheguei ao pomar. Que contrassenso,  sucumbi afogado na seiva da vida. 
Além do que eu fiz, nada mais pretendi sem sua participação por mais que o meu corpo exigisse. E para fugir dos demônios corri ao banheiro e tomei uma ducha bem fria. Na volta, advinha qual foi a minha surpresa?  A punk estava de pé ajeitando o cabelo. Já era senhora de suas próprias vontades.  Jogou o casaco no ombro e saiu batendo a porta atrás de si. Nem quis saber o porquê de ter acordado numa cama desconhecida.
-Este fato me dá a certeza de que, nem toda porta que abre é para você entrar. Quem sabe não é para você sair?

segunda-feira, 16 de abril de 2018

NO ANDAR DE CIMA.


    Toda noite é a mesma coisa. O vizinho do andar de cima fica até altas horas com os amigos que vão à sua casa fazer não se sabe o quê. Só ouvimos gargalhada, palavrão e barulho de garrafa entre outros. Os vizinhos dizem que já estão acostumados com a sacanagem dos finais de noite.    E a gente esperando o dia amanhecer para poder dormir. 
Na semana passada quase aconteceu uma desgraça. Não fossem os gritos das mulheres alguma coisa ruim teria acontecido.  As vozes, entrecortadas, deixavam perceber que alguma coisa grave estava para acontecer caso um deles, que não sabemos quem, não as ouvisse. Alguns dizem que se tratava de roleta russa enquanto outros afirmavam que podia ser algo pior, se é que existe algo pior do que brincar com a morte em detrimento da vida. Tem gente que depois de velha vira criança levando coleguinhas pra brincar na casa dele.  
No dia seguinte fiz questão de ficar olhando para ver o estrago que a festinha fez em cada um.
Dois homens, um de 15 anos e um coroa na casa dos 65 saíram primeiro. Atrás vieram uma senhora baixinha e forte e duas garotas beirando os 17 e 18 anos. Todos demonstrando que a noite fora bem aproveitada. Uma pergunta, no entanto, não calava; o que um velho e um garoto faziam com três mulheres num apartamento onde a bebida e os palavrões rolavam soltos? Talvez o velho e a gordinha tivessem a experiência que certamente faltava nas  moças e no rapaz, mas não seria suficiente para deixá-los do jeito que ficavam. Gritinhos de mulher e risos de homem as instigando fazer alguma coisa não era raro. Todos bebiam e fumavam, só não sabemos se era o que a lei permitia ou que condenava. Falavam coisas como tirar camisa, quem sabe camisinha? E por que tirar e não botar? Falavam de alguém estar com a boca suja, quem sabe o nariz? Esse tipo de viagem os igualava no tocante a idade e na irresponsabilidade.
Ontem, para o nosso desespero, o número de pessoa ficou maior.  O rapaz chegou com um cara que era a sua cara e tinha o dobro de sua idade, enquanto uma das meninas levou a mãe ou  não se teria ouvido alguém chamar a outra de mamãe quando pediu para usar não se ouviu bem o que. As vozes dos homens eram diferentes uma das outras enquanto as das mulheres tinham o mesmo tom.
Pouco antes do amanhecer alguém tentava colocar um sapato menor do que cabia no pé de uma das moças por isso a ouvi pedindo que não empurrasse com força porque ela não era como fulana, eu não entendi o nome, para aguentar aquele tipo de coisa. As outras riam da covardia de quem se assujeitava aquele tipo de brincadeira. Pelo que pude acreditar, o velho ou o pai do rapaz também reclamou da brutalidade com que o calçavam. E pelo visto, o sapato era um ou dois números menor. 
No outro dia lá estava eu e as minhas olheiras querendo descobrir de quem era o sapato e quem o tentara calçar em quem, se é que era de sapato que se tratava.
Felizmente eu não estava na festa, porque, calçando 44, como eu calço, meu sapato não machucaria o pé de ninguém. Principalmente das mocinhas, mas se fosse o contrário eu nem na brincadeira entrava.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

"PRECISO FALAR..."

    Há tempos nascia a criança mais linda do mundo. Não era simplesmente por ter sido o primeiro filho de um casal que se entendia e se respeitava, mas por ter sido querido e amado antes de decidir se viria. Esse moleque surgiu no mundo para iluminar a terra e o fez de maneira que as flores ficassem mais cheirosas, mais bonitas e o dia mais prazeroso.  Nasceu loirinho como um dinamarquês.  Seus olhos azuis pareciam um céu de brigadeiro e tão esmeralda, ao mesmo tempo,  como se fora filho da mãe do seu pai.  
 Essa criança cresceu para tomar  no mundo o espaço que tomou.  Fez nele o que quis e o que não quis.  Acertou como todos prevíamos, e errou como qualquer um de nós. 
 Hoje você é um homem. Senhor das suas vontades e de todos os seus desejos. Paga pelas dívidas contraídas e recebe os louros pelas vitórias conquistadas.  
Você hoje, meu filho, não fica um poucos mais velho, mas fica experiente o suficiente para entender o amor de um pai e o que ele deseja e reza para que o filho tenha e se torne.  Portanto,  seja o que você achar que pode ser, mas nunca se esqueça do amor e do orgulho que tenho em fazer parte da sua vida.
Seu pai.
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                                                    (DE FRENTE PARA O PERIGO)
       Um recém-chegado dos cafundós de Garanhuns se espichava como um lagarto num dos bancos do Terminal do Tietê. Enganavam-se os que achavam que exibir-se fosse a intenção dele, já que estava ali a espera do irmão ir buscá-lo, como havia prometido. Enquanto ele não vinha, nosso herói se lambuzava com os olhos enfiado entre as pernas de quem as escancarava diante de um par de olhos gulosos como o dele. Às vezes as pernas se abriam tanto que pensava ver cabelinhos escapando às bordas da calcinha. E graças ao irmão não dar as caras ele pecava imaginando coisas.
  Perigo havia no que fazia, mas também era gostoso enfiar os olhos até aonde ela deixava ver. 

 Esse sujeito era grandão e mal acabado. Era nascido e criado onde Judas perdeu as botas e só estava ali por insistência do irmão que há anos tentou a sorte e se deu bem. Hoje ele é casado, bem empregado e pai de duas filhas. Na caatinga, o máximo que viam de uma mulher eram os tornozelos, mas que muitas vezes os levavam a sonhos pecaminosos.
  Agora estava ele ali deitado se refestelando...
Esquecido da vida pensava no que faria com aquela cabritinha presa no seu cercado.
Rolou novamente os olhos para os lados e na certeza de não ser observado, meteu a mão no bolso e lá ficou mexendo e remexendo não se sabe em que até que vermelho como um tomate se curvou para sufocar um grito que certamente tocaria todos os sinos da cidade.
Refeito sentiu-se quase saciado.
Segundo ele contou, passou um filme na mente dele onde, sem vergonha nenhuma, essa mocinha se jogava de joelhos e com movimentos que fazia com a boca na altura da cintura dele o obrigou a se curvar para abortar um grito. Talvez quisesse ir além daquelas olhadelas, mas as penas da lei o impediam. De qualquer maneira não deixou de se lambuzar olhando o bonito par de pernas nervosas que, em nenhum momento a garota sossegou.

 Dizem os especialistas que é uma ótima maneira de se masturbar sem que ninguém as note. Isso só se for na teoria, porque na prática o cara sabia ou melhor, tinha certeza daquilo que o levou a calar o grito.
 Sem ter como esconder o que fizera viu a pequena se aproximar e, olhando para as roupas dele disse que não o tinha reconhecido. Desculpou-se em nome do pai que estava trabalhando e mesmo não acreditando que
aquilo pudesse ser irmão do seu pai, o ajudou a entrar no uber e foram para casa.

sábado, 7 de abril de 2018

E SE FOSSE SEU FILHO?

 
    Vocês sabem que não gosto de falar de política num espaço onde os amores de um homem por suas mulheres contam, cada um, suas próprias histórias.  Mas não posso me calar diante da sacanagem de quem chama de burro o eleitor que, segundo diz, não sabe votar e se justifica dizendo que é burro porque põe no poder aquele que o chicoteia. Eu sei que um mal governo é resultado dos votos que damos aos maus candidatos. Quando se vota mal todos sofremos com a escolha. Mas, como escolher um bom candidato se os que nos oferecem não têm qualificação para o cargo, caráter para exercê-lo e compaixão para com os que os elegem? Eu penso que fazem isso para nos induzirem ao erro. E a gente acaba errando, não é mesmo? 
Alguém duvida que o meu filho ou o seu, caso concorresse e ganhasse as eleições para presidente, fizesse um governo voltado para os ricos, ou para aqueles cuja sorte nunca lhes favoreceu? Eu acho, e você também deve achar, que ele trabalharia a favor de todos, principalmente dos mais necessitados. Certamente que não permitiria a receita federal, através do imposto de renda,  descontar dos trabalhadores um percentual igual ou maior do que desconta dos políticos e dos mais abastados, como há décadas vem acontecendo. Será que vocês achariam que o seu filho ou o meu deixaria de cobrar os impostos sobre as grandes fortunas, sobre o lucro dos bancos e das empresas que sonegam às vistas de todo mundo para saquear o bolso do pobre como eu e você, por exemplo? É claro que não. Quer dizer, é claro que ele tentaria reverter essa vergonhosa situação, mas quem somos nós para acreditar que um presidente, sozinho, possa mudar leis criadas por quem delas se beneficiam?  Olhem só; um presidente sozinho (sem o apoio da Câmara e do Senado) governa de mãos atadas e nada pode fazer a seu favor e muito menos a favor dos outros, principalmente dos pobres. Só há um jeito de mudar o rumo dessa coisa ou seja, trocar o presidente, os deputados e os senadores, porque um presidente eleito precisa do aval dessa turma às mudanças que se farão necessárias, mas,  com o mandato de oito anos dos senadores, será difícil, senão impossível, aprovar leis que os desfavoreçam.  Eu nunca vi nenhum presidente reunir a mídia para dizer que a câmara dos deputados e o senado estão boicotando o trabalho que fez em benefício do povo, como melhoria na educação, na segurança, na saúde e de novos empregos para os jovens que atingem a maioridade. Eu acho que se o presidente agisse dessa maneira suas medidas provisórias aprovadas pelos políticos da área, com certeza.
É por essa razão, por não saber em que parede está localizada a porta de saída é que eu prefiro falar do amor entre as crianças. Do desejo do homem pela mulher e do riso às coisas que digo.

terça-feira, 3 de abril de 2018

UM JEGUE DE CALÇA.

     
    Antes dos 13 anos, Tico Duas Pernas e Meia, já tinha um propósito; estudar numa cidade onde ninguém o conhecesse.  Aos 15 realizava seu sonho.  Só que, curiosamente, as pessoas daquele lugar se tratavam pelo nome e o sobrenome ao mesmo tempo.  Paulo da Concha, por exemplo, era o sujeito mais antigo no lugar e com ele moravam Maria das Sandálias, suas esposa e os filhos, Pato de Calça e Insossa Sem CausaSuzana da Rua Larga, mulher do gerente do mercadinho da Rua das Batatas era bastante assanhada e se Carlos Meleca, como o chamavam, não a mantivesse com rédea curta, há muito Suzana da Rua Larga estaria sem marido.
Na igreja o vigário Paulo Gamela, lembrado pelo coroinha Guto do Rabo Riscado, dava boas-vindas aos recém chegados. Os pais de Tico Duas Pernas e Meia  ficaram emocionados com o carinho.
Na saída um grupo de jovens se perguntava;
 - Por que Duas Pernas e Meia?
Tico era grande e forte para sua idade e isso impunha, de certa maneira, o respeito que merecia.  Era de fato um negro a ser respeitado, mas nada havia que pudesse frear a curiosidade do povo, até pelo contrário, a cada momento se tornava maior. Tico Duas Pernas e Meia não tinha sossego.  Achava que morando onde todos tinham nomes estranhos pudesse viver tranquilo. Só que não. Nem na escola os colegas o deixavam em paz. A maioria já tinha ouvido coisas parecidas, com homem de "três pernas", mas de duas e meia, nunca. Até mulher casada chegava junto na esperança de descobrir qualquer coisa que justificasse o apelido, mas ele em nada colaborava.  Não fosse o padre chamá-lo para uma conversa sua vida ainda seria um mistério.
- Não sei qual o segredo que trazes contigo, meu filho, mas sei o que pensam a teu respeito.  Isso em nada incomoda a mim, a igreja ou a Deus, mas incomoda aqueles que mal te conhecem. Portanto, te aconselho tirar proveito da coisa, ao invés de andares olhando os próprios pés, como andas, por que não ergues o nariz, colocas nos lábios o mais bonitos dos teus sorrisos e sais por aí como quem ganhou a sorte grande?  Com certeza darás asas à imaginação daqueles que perdem o sono por medo de uma possível anomalia que possas ter.
 E assim fez Tito Duas Pernas e Meia.  Respondia a cada cumprimento com um aceno e um largo sorriso, e foi essa mudança que pirou a turma de vez.  Quem primeiro deu sinal da loucura foi Suzana da Rua Larga, que invadiu o banheiro da casa onde o jovem tomava banho e encheu as mãos com o que ele tinha no meio das pernas.
- Ué! Cade aquilo que você esconde da gente, cara? - Perguntou horrorizada com o que tinha nas mãos; nada além de qualquer coisa parecida com o dedo mindinho de uma criança.
Desesperada correu porta afora gritando palavras sem sentido como maluca que todos achavam que era.
A família do rapaz voltou à cidade natal na manhã do dia seguinte...

sexta-feira, 30 de março de 2018

A VINGANÇA DA COR.

   
      Minha pele é negra, minha alma é negra e o país de onde fui arrancado também é negro. Fora isso, só os meus dias e o  meu futuro não têm cor.  Quando chegaram ninguém me perguntou se eu gostava disso ou daquilo, não me disseram o que fariam do meu passado, da minha história. Não perguntaram se eu tinha sonhos e desejos porque, se direito a fala eu tivesse, diria; não sei.  Não sei, porque também não me perguntaram.  E se não perguntaram foi porque já sabiam a resposta. O que acham que eu responderia se me perguntassem se quero deixar minha terra, minha pátria, minha gente, em detrimento de um mundo de boca grande e ouvidos tapados. Um lugar onde se usa o açoite em lugar de bom senso? Quem disse que eu desejava ir mar afora sem pressa ou tempo de chegar? Ninguém.  Ninguém me perguntou coisa alguma, nem mesmo se eu tinha dinheiro para um lanche, para uma casa onde guardasse o nada que a vida me reservava.  Nada, nada me deram ou me ofereceram em troca da vergonha que senti quando, pela primeira vez, lenharam meu corpo, humilharam a minha cor.  Quem sabe não eram os trapos que vestiam o escravo que me tornaram o que havia de puro em seus corações? Por isso, repito, nem as madames e suas filhas esfregando as pernas brancas como algodão em minha cara eu as possuí por prazer. Fi-lo para não apanhar. Fi-lo na certeza que pretendiam trair seus maridos  com o que havia de mais torpe e vulgar nessa terra maldita; o negro.   Por mais que a mim causassem dor, por mais que privassem de mim a liberdade e que tirassem o repouso que corrigiria minha espinha, não terão como seu o que tenho de grande, grosso e viril, no meio das minhas pernas, e, querendo ou não, ele é livre. Negro sim, porém, livre.  Livre para dar às mulheres dos meus carcereiros o prazer que lhes negam. E negam porque o roubam de entre as coxas das negras da gente.  Ninguém, nem as esposas brancas e as filhas de bochechas rosadas que lambem com seus olhos a virilidade que tenho, me alforriam para ir ao cinema,  à praia ou caminhar pelo parque nas tardes quentes de domingo. Os senhores para quem garimpei as riquezas me olham como se vissem excremento de gado, ao passo que na senzala lambem de cabo a rabo nossas irmãs, mulheres e filhas.  Pode até ser fraqueza da minha parte, mas não guardo rancor de quem açoitou minha carne, engravidou moças da minha cor e depois assassinaram seus filhos bastardos, porque nós, os negros, continuaremos dando às suas esposas o direito de gemer, de gritar e até de chorar, com um açoite grande como um braço, duro como um punho e preto como a noite vomitando dentro de si.  

terça-feira, 27 de março de 2018

IMORAL, MAS LEGAL

   -Cara, tu não vais acreditar, mas ontem Doralice acabou comigo. Oh, mulher fogosa, véio! Quando eu achava que já tinha acabado, lá vinha ela por cima e começava tudo de novo. E não foi só uma vez, não.  Essa semana a gente transou quase todos os dias.  Acho que a gata gamou e o pior é que eu também me enrabichei, e se não for fogo de palha, juro que me caso com essa maluca.
- Se você diz isso é porque já se apaixonou.  Infelizmente porque todos com quem ela saiu não gostaram. Disseram que era fria e que ficava olhando o teto enquanto suavam encima dela. Comigo aconteceu a mesma coisa, e só pra você ter uma ideia, nem Paulinho boca de sapato gostou de sair com a garota e olha que qualquer rabo de saia é princesa pro cara. Só você elogiou. Portanto, vai fundo que a rapaziada vai se amarrar de montão quando souber da parada. Mas olha aqui, você não vai proibir a garota de participar dos chopes nos finais de semana, vai? Porque seria uma baita sacanagem privar os amigos da companhia dela.
   Doralice era do tipo despachado, daquele que não corre da raia se o grupo aprontasse e até chegava junto na hora da conta.  Durante a semana os amigos sofriam com sua seriedade, mas nas sextas, principalmente depois das vodkas com energético, ninguém mais a segurava.  Tião, no entanto, estava de quatro por ela. Das gatas  com quem tinha transado só Doralice mostrou  o garanhão que nem ele sabia que era.  
- Desculpa gente, mas em breve vou brindá-los com a minha ausência...
- Mas, como assim, cara? Vai nos deixar, por quê?
- É que eu estou caidinho por uma gatinha e vou me casar com ela.
- Um brinde ao futuro noivo, gente! Gritou Marcos, um negro gordinho que saiu com a dita cuja e contou pra cidade inteira. Por isso ela o odiava. 
  Doralice era uma garota fantástica. Quando estava de cara limpa era cheia de não me toque, mas depois de beber o que gostava, sai de baixo.   
  Certa vez  um dos rapazes, sabendo que já tinha tomado suas "doses de coragem", a chamou para um papo.  Doralice o seguiu. No local os rapazes e a irmã do Paulinho boca de sapato a esperavam com más intenções. 
  Moral da história; Doralice transou com todo mundo, inclusive com a mocinha, sem que ninguém reclamasse.
 Agora, depois da decisão de Tião, a coisa muda de figura. Ou seja, se ele se casar com Doralice certamente entregarão o grupo à própria sorte. A não ser que decidam o contrário deixando tudo como estava, ou seja;  Tião continuaria articulando o grupo e Dora prestigiando os eventos com a presença, inclusive dividindo a conta como sempre fez. Com isso ninguém mais assediaria a moça, até porque seu marido a blindaria.  Dora, entretanto, continuaria fazendo o que sempre quis e fez, enquanto Tião, é claro, nada deverá reclamar, porque a turma que tinha privilégios com a mulher dele continuará a tê-los, inclusive o próprio marido, desde que parem de falar mal da garota.
Um brinde foi feito aos noivos enquanto Doralice abraçava e beijava os rapazes sem medo e sem vergonha.

sábado, 24 de março de 2018

O AMOR NÃO TEM RAZÃO.

     

    Você tem ideia do que passa na cabeça de um jovem cujos pais torcem por sua felicidade ao invés de estimulá-lo a trilhar o caminho que o levasse à faculdade onde, quem sabe?, esculpiria seu próprio futuro?  Não posso afirmar que aqueles que agem assim sejam mais felizes, mas posso garantir que terão mais segurança e mais tranquilidade nesse oceano revolto de todos os dias. 
Escolhi a manhã de hoje para falar de "felicidade", canção de Marcelo Jeneci,  que o filho de um querido casal, meu amigo, tocou e cantou na casa onde moro. Era a primeira vez que eu a ouvia. O jovem acompanhara os pais, a pedido deles, numa viagem que tinha por objetivo o abraço apertado e choroso que nos demos.
Toda vez que ouço a canção a minha alma estanca, curva-se em duas e chora. Talvez pelo filho que nada pedira além de carinho, atenção e um espaço onde pudesse juntar suas tralhas, distribuir seu sorriso e fazer chorar os mais apaixonados cantando o que faz de melhor ou talvez pelo amor que tenho por eles.  Quanto ao futuro, que espere até que a plateia termine os aplausos, o pano caia e surja uma nova manhã.   
Eu, como admirador e amigo, sei muito bem que não enriqueço a vida de ninguém com as minhas palavras, mas também entendo que não as faço mais pobres. Talvez a faculdade não tornasse a pessoa em questão mais gentil e amiga do que as que eu conheci, mas ninguém pode afirmar que também não o fizesse.  Por isso cante meu amigo. Encha o coração dos seus pais, irmão e amigos com essa alegria que você tem quando lida com as pessoas, quando ri olhando nos olhos delas e principalmente cantando "felicidade", que torço para que seja a trilha sonora da sua vida como é sonho dos seus velhos, ou, para eles, a vida não teria tanto sentido.
                                                   https://youtu.be/s2IAZHAsoLI

quinta-feira, 22 de março de 2018

A PRIMA DA MINHA MÃE.

    
    Quando meus avós vieram morar conosco trouxeram uma moça com quem, tempos depois, meu tio se casaria. Rosa era filha única do irmão do meu avô e só deixava a vida tranquila do interior porque minha mãe prometia ajudá-la no que fosse preciso. Inclusive já tinha para ela algumas roupas, um lugar na mesa de jantar e uma cama  no quarto junto com meus avós.  Pena que o espaço fosse tão pequeno para tanta gente, principalmente no tocante ao banheiro onde muitas vezes sofri esperando na fila.  Certa vez, estando eu apertado, corri à casinha, mas tinha gente.  Bati.
- Quem está aí? Perguntei entrelaçando as pernas para não sujar as calças.
- Sou eu, a Rosa. Um segundo que já estou saindo  - Disse fechando a água. Abriu a porta e correu com uma toalha a cobrir-lhe o corpo. No aperto nem me dei conta da roupa que a prima vestia, ou melhor, que não vestia.  Enquanto me aliviava avistei a calcinha que a prima esquecera na correria. Não me contendo tomei a peça nas mãos, esvaziei os pulmões e aspirei, com toda a força do mundo, o perfume contido nela. Meu Deus, por que eu fiz uma coisa dessas? Talvez vocês não acreditem, mas o cheiro das partes pudendas da prima era forte, mas tão forte que nem pude acreditar que fosse cheiro de virgem. Mas era. Não o cheiro, mas ela. Na noite do "em fim sós", todos saímos para titio "fazer o trabalho de casa". Todos, menos eu. Arranjei um jeito de espioná-los ou, pelo menos, ouvir os gritos da Rosa sendo estraçalhada pelo pitbull que o irmão da minha mãe dizia que era.  Mas que nada. Meu tio me cansou, e acredito que também tenha cansado a mulher com aquele barulho, tipo cachorro bebendo água, sabe?  Como eu era criança não tinha como saber que aquele barulhinho fazia parte da "abertura dos trabalhos". E que trabalho danado que levava tanto tempo para ser executado!  E eu pensando que era só os dois ficar pelado que o meu tio fazia aquilo nela e pronto, mas não...
Talvez fosse por isso que Rosa chorava se contorcendo.  Eu não vi, mas podia imaginar que os gritinhos que dava talvez fossem de frustração por pensar que seria atropelada por um caminhão e no entanto só se ouvia cachorro bebendo água.  Eu, como disse, fiquei cansado de esperar a cama ranger, a Rosa gritar e ele bater na bunda dela como eu lia nas revistas que mamãe rasgava quando encontrava debaixo do meu colchão.  Mas que nada. Titio só pensava em lamber e lamber o que gente, se nada minha prima tinha pra ser lambido? Ah, meu Deus, será que estou falando besteira? Acho que não porque  besteira dessa natureza eu pensava e pensava muito quando criança. Quantas noites eu ficava pensando essas coisas e quantas vezes mamãe gritava para eu  parar de bater a cama na parede porque ela queria dormir, quantas? Naquele tempo eu só pensava besteira, confesso, mas  hoje, me perdoem, mas acho que penso ainda.

segunda-feira, 19 de março de 2018

FAZER O QUÊ?


   Talvez meus artigos pequenos e irrelevantes  frustrem os que torcem pela prisão de Lula e saem sem nada saber.  Eu confesso que também ficaria se a página não fosse minha.  Alguns até me perguntam porque não debato o assunto, tão em moda,  ou falo de horóscopo ou do tempo? Esse tipo de coisa me puxa para baixo, mas ao invés de ficar fulo, acabo mesmo é com vergonha.  Poxa, li todos os jornais,  ouvi o noticiário do rádio e da televisão e agora vocês me dizem para falar de horóscopo? Ah, não sacaneia. Se eu soubesse não teria perdido minhas noites lendo sobre política, direitos sociais e religião para dar vida às minhas histórias.  Seria muito mais simples copiar o que dizem sobre Aires, Escorpião e Touro e publicar no  noticiário como fazem há século, e no entanto me derreto falando de amor. De um amor respeitoso de uma criança pobre por outra que talvez também não tenha o que comer. De um amor não correspondido de um jovem por uma mulher casada ou dos fantasmas que rondam as noites das que sonham com príncipe encantado sem se darem conta de que o príncipe é um homem, e como tal, tem desejos como todos os outros, mas também paga contas no fim do mês o que vem, de certa maneira, acordá-las do sonho que sonham.  E, como diz o velho Palhaço Poeta, nem todas as vaiais são para o palhaço. A maior parte pode ser para quem lhe tenha dado o papel.  Mas, voltando ao assunto,   talvez fosse mais fácil falar de um governo corrupto, do futebol que não vai lá bem das pernas, do Bernardinho e suas medalhas e de natação que, pelo que leio,  retoma no pódio o lugar que merece.  Seria muito mais simples incutir na cabeça das pessoas a esperança de um dia melhor escrevendo sobre essas coisas do que falando de amor para quem nunca chorou com a chegada ou com a despedida de alguém que tocasse o seu coração.  Para o primeiro assunto é necessário que se leia todas as notícas à criação do texto, enquanto para outro, a de se ter vivido ou se estar vivendo uma grande paixão, e mesmo assim é preciso ler muito para que as palavras tenham sentido.

sexta-feira, 16 de março de 2018

"FÉ DE" MAIS...


    João namorava a prima de duas meninas que moravam ao lado de sua casa e que sempre fugia à casa dos tios para ver o garoto que dava saltos de alegria e até se esquecia das pipas por sua causa.
     Um dia João subiu no telhado para desroscar a linha que estava presa nas telhas.  Lá de cima deu para ver que subindo pelo outro lado avistava o quarto inteiro das meninas, mas, e se fosse pego bisbilhotando?  Bem, se ele fosse pego certamente sua mãe o proibiria de ir à rua soltar pipas e sem mostrá-las como venderia as que já tinha feito? A noitinha, como sempre, sua mãe ligou o rádio para ouvir a novela.  Não perdia um capítulo de; "Jerônimo, o herói do sertão", na Rádio Nacional. (Na época, televisão era coisa de rico e nem os vizinhos mais abastados a possuíam).  Agora sim,  existia um álibi para João desaparecer por alguns minutos.  Só precisava subir num dos galhos que dava para o telhado escolhido e depois esperar  a mãe das garotas voltar com elas do culto e pronto. João teria tempo suficiente para vê-las trocar de roupa na hora de dormir e isso seria o que de melhor pode acontecer na vida de quem tem os hormônios à flor da pele. João achava que a casa estava vazia, por isso assustou-se quando viu a luz do quarto das crianças acesa. O moleque, ajeitando-se melhor onde estava,  viu, para sua tristeza e loucura, a namorada que tanto gostava sentada no colo do tio que alisava seu corpo sem que ela nada dissesse. Refeito do susto, se é que alguém se refaz de uma covardia dessas,  João se perguntou quase chorando;  por que deixar o tio fazer isso com ela  se bate na minha mão quando a toco no peitinho por sobre sua roupa?  Aos poucos ia sendo a menina molestada sem que o garoto nada pudesse fazer.  Felizmente as primas chegaram com a mãe no minuto seguinte.  Os dois deixaram o quarto às pressas, e enquanto a namoradinha corria sorrindo  para os braços da tia o homem perguntava nervoso o por quê da demora. 
 - Ora, marido. Você sabe como é o pastor. Sempre fazendo questão de cumprimentar cada fiel por mais humilde que seja e não seria eu quem ia deixá-lo com a mão estendida - disse a mulher orgulhosa.
  Sr Hermes era um desses cristãos que dormiam abraçado a bíblia. Não permitia que as filhas saíssem sem ele ou  sua mulher.
- O mundo está cheio de gente ruim - dizia apontando o dedo para elas.
Dona Elza tinha um orgulho danado do homem que tinha por marido, pelo respeito que demonstrava e pela fé nas coisas de Deus. Enfim, Seu Hermes era um exemplo de cristão e de cidadão, como dizia D. Elza, toda orgulhosa.

terça-feira, 13 de março de 2018

FÉRIAS NA CASA DO VOVÔ.

 
   Hoje me levantei lembrando as férias de verão que eu passava na casa do meu avô nos idos tempos de menino.  Havia na propriedade uma boa cachoeira onde meus primos se divertiam nos domingos e feriados. Enquanto os meninos ajudavam os pais na lavoura as filhas se esbaldavam naquelas corredeiras. E o faziam às escondidas.  Minha avó sabia, mas como todos  trabalhavam desde pequenos, ninguém tinha tempo para bisbilhotar a filha dos outros. Certa noite eu a ouvi falar sobre o procedimentos das meninas. Disse que faziam coisas feias entre elas na represa, mas eu acho que vovô não ouviu ou não teria virado para o outro lado da cama. Ouvindo aquilo eu, de orelha em pé, quer dizer, também com as orelhas de pé, não dormi mais.  Pela manhã, bem cedo, arranjei um jeito de me esconder perto da cachoeiro onde as mocinhas, peladas, como vovó dizia, iam se banhar.  Minha avó não mencionou esses detalhes ou meu avô interditaria o local das brincadeiras. As meninas tinham idade pouca coisa a mais além da minha, mas o suficiente para me deixarem louco, como já estava.  Escolhi um lugar de onde pudesse vê-las sem despertar atenção e foi certa disso que a filha de um colono se deixou beijar na boca e em cada um dos seios. Umas riam de nervoso enquanto outras se acariciavam cheias de desejo e de tesão. Sobre uma pedra a moreninha, também nua, se tocava ao passo que eu me acabava com a febre do rato. (Moleque da minha idade levava muito tempo vendo revista proibidas no banheiro de onde as figuras pareciam saltar do papel pra cima da gente).  Mas ali, pelo menos, era ao vivo e muito próximo do meu nariz.  Não tinha como duvidar do que viam meus olhos por isso a febre do rato... 
As férias de julho, para que se tenha uma ideia, já não tinham a mesma graça. O lugar ficava muito frio nessa época e por lá, com certeza, as meninas não davam as caras.  Entremente, bastava o verão pintar no calendário que as pernas eram raspadas e os fios mais insinuantes aparados para que o sol as lambesse. 
Meu Deus, que saudade eu tinha dos meus avós!  Será que eu os amava tanto assim ou seriam os meus hormônios?   
Todos os anos eu crescia e envelhecia um pouco mais enquanto as garotas, certamente, ficavam mais ousadas e mais bonitas. Talvez hoje já tenham se casado e até tenham filhos. Pode ser também que as filhas frequentem as águas onde suas mães se divertiam e nas férias a febre do rato tentava me matar.  Minha mãe, entretanto, ingrata e sem noção,  tanto fez que os velhos vieram morar conosco no Rio.  Da fazenda não tive mais notícias desde quando vovô me pegou olhando as garotas no momento em que minhas mãos batiam como se morressem de frio e talvez nem ele do fato se lembre mais.

sábado, 10 de março de 2018

PAU PRA TODA OBRA.

   
    Por que cochichavam olhando para ele e por que escondiam o sorriso se o escárnio vinha de todos? Por que os garotos o odiavam se nada fizera para merecer seu repúdio?  E as garotas, o que havia de estranho nele para tamanha gozação? E assim foi o primeiro período na faculdade.  No trabalho em grupo ninguém o escolhia senão os professores  que mesmo não querendo se envolver no caso o mandavam completar um grupo aqui e outro ali sem demais explicações. Opiniões todos tinham para discutir, enquanto às dele ninguém ligava.  Todos os grupos sem a sua participação tiravam notas superiores aos que ele fizesse parte.   Na primeira semana do segundo período um dos alunos pisou no pé dele e olhando em sua cara perguntou se não ia pedir desculpas. O jovem se levantou, olhou dentro dos olhos do encrenqueiro e já se desculpava quando uma das alunas cutucou o ombro do valentão e falou-lhe alto para não ter que repetir; - você teve sorte do cara não aceitar suas provocações porque ontem - disse  olhando nos seus olhos - esse sujeito que você acaba de provocar, bateu em cinco marmanjos e olha que para bater da maneira que ele surrou os caras ele deve ser graduado em algum tipo de arte marcial ou não teria tomado partido em uma briga que nem era dele.  Portanto, meu caro. Trate de ficar distante desse sujeito ou vai acabar num hospital.  Isso se ele não te matar - concluiu.  O jovem seguia para o fundo da sala quando viu que o olhavam, mas desta vez sem o sorriso debochado de antes.  As garotas voltaram a conversar e os garotos, é claro, as acompanhavam no disse me disse, mas nenhum deles parecia falar ninguém.
 Na saída a garota, que nenhum dos meninos dava bola, perguntou se tinha sido ele que bateu nos agressores do seu primo. - Eu nem sabia que ele tinha prima e se o fiz não foi para defendê-lo,  mas para dar uma lição nos covardes que para se mostrar pras garotas faziam tal covardia. Quando vi o que estavam fazendo meti a porrada em todos mundo.  Tive sorte de nocauteando o mais fortão. O resto saiu correndo, cada um com um com o seu roxo no olho.  Em agradecimento a garota, na ponta do pé, o beijou na face.
  No outro dia o grupo que tirou e melhor nota foi elogiado, assim como o vencedor no individual que, antes de ter seu nome citado, a líder do grupo "chegou na professora" e falou-lhe qualquer coisa que a fez pedir à turma que e pusesse de pé e aplaudisse aquele que, segundo ela, era o exemplo da sala, quiçá do colégio e dos brasileiros.  Enquanto falava caminhava a docente em direção ao jovem que, percebendo que era dele que ela falava, não sabia onde esconder a cara. A professora elogiou sua nota e por ter defendido um garoto contra arruaceiros e também por não brigar dentro da sala.
O jovem ficou sem ação no momento. No dia seguinte todos o cumprimentaram, até o gordinho veio falar com ele, mas fazendo questão de dizer que não era pela história que a colega contara e sim para melhor união da turma.  
O rapaz deu um leve sorriso, como os mocinhos do cinema fazem diante do bandido e apertou a mão do garoto antes de adentrar à sala.
Aqui entre nós; se a líder do grupo não falasse à professora sobre o rapaz a vida dele, ali, continuaria um inferno.  Por isso foi procurá-la. No fim da conversa a mocinha pedindo desculpas fez a pergunta que a sala inteira queria fazer - é verdade o que dizem a seu respeito? - Depende, respondeu o rapaz.  O que é que dizem a meu respeito que só eu não estou sabendo?  - Olha, disse-lhe ela. Falam por aí que você tem qualquer coisa fora do normal no tocante a masculinidade.  - Que tipo de coisa seria isso, meu Deus? Será que tem a ver com o número 45 do sapato que calço? - É isso mesmo - respondeu ela sem esconder o sorriso.  É claro que o colega não disse que ela tinha acertado na mosca, mas também não disse que tinha errado. No outro dia foi preciso escolher com qual das colegas gostaria de sair naquela noite e, certamente na outra e na outra e nas outras dando a cada uma o direito de ver e de tocar no que escondia  naquele sapato.

terça-feira, 6 de março de 2018

ME CHAME DE ZACARIAS...

   
    Choro de cachorro ou de criança dói fundo no meu coração.  Entretanto, é a sua alegria que enche-me a alma de risos e de novas esperanças.  E foram gritinhos como esses que me levaram à janela de onde avistei duas belas meninas brincando com seu cachorrinho espreitadas pela mãe cuidadora.  A imagem encantava-me de certa maneira que mal reparei no shortinho apertado que a jovem mãezinha vestia. Com receio de ser mal interpretado cerrei as cortinas voltando aos afazeres.  Minutos depois uma das crianças chorou e eu corri para vê-la. A mãe, talvez pensando que eu não a pudesse ver, abaixou-se de costas para mim e sem dobrar os joelhos tentava consolar o rebento.  Meu Deus, que imagem! Talvez aqui não fosse o lugar mais indicado para externar o que a vista me proporcionava e mesmo se fosse, talvez adjetivo nenhum justificasse o que o caramelo dos meus olhos me levaram a sentir e eu juro que se cheguei aquele estado não foi por vontade própria, mas fisiológica. Nem mesmo o calor que fazia lá fora causava tanta maldade quanto aquele que me queimava aqui dentro, e foi com tais pensamentos que deixei de reparar na mãe das crianças sorrindo em minha direção.  Todos os músculos latejavam, mas nem por isso encontraram forças para mover o meu corpo a outro lugar senão prostrá-lo na  cadeira mais perto. A partir daquele momento todos e quaisquer ruídos provocados por uma criança erguiam a tenda do circo e eriçavam os pelos do palhaço. Tudo me levava à excitação.  Meus sentidos estavam ativos, como ligados estavam os meus desejos, mas desta vez, foi Zacarias que os ativava. Ninguém teria tido melhor ideia para colocar num cachorro o sugestivo nome de Zacarias, como as criaturas do lado vizinho o fizeram. E foi na intensão de vê-lo que olhei, mas a vi novamente.  A vi, sim, mas já não deixava as pernas à mostra. Não se curvava para dizer nada a criança e muito menos sorria de volta à janela.  O que ela pretendia na verdade era mostrar-me uma de suas belas riquezas; Zacarias.  Aquele gesto não me dava o direito de ouvir a voz da dona nem que eu tivesse me apaixonado por seu cãozinho desde o primeiro latido. De repente o vazio...
Três dias sem ouvir o miado da gata, o latido do cão e a algazarra das crias e até o sol já não tinha o que dourar do corpo da mãe ausente. Talvez por isso os dias estivessem de cara amarrada.  As noites sem estrelas e a lua não nos mostrava seu quarto, como sempre fazia.
E foi com tamanha tristeza, pensando fechar as cortinas do palco que ela apareceu.  Roupas eu não sei se vestia.  Criança e cachorro fazendo bagunça também não notei que tivesse, mas se ela estava aonde os olhos a alcançavam já era o suficiente para alavancar cada sonho e cada músculo e mesmo que todos estivessem de pé eu continuava sendo o fraco que me tornara. 
No desenvolvimento que essa história possa ter eu nem quero pensar, pois foi assim, buscando ver a criançada que eu a conheci e a Zacarias.  O resto virá como aos poucos tudo foi acontecendo, mas desta vez não virá para ir-se de mim sem que eu saiba o seu nome e o que de mais forte possa existir no seu peito, além do que os botões da blusinha me permitem ver.