sábado, 20 de maio de 2017

MARESIA.

   Tem gente que interpreta o sentimento das pessoas de tal maneira que só de ouvi-la eu fico todo arrepiado. Recentemente eu escrevi sobre o relacionamento que existe entre o homem e a mulher, e na minha explanação eu devo ter dito muito de mim e das pessoas que de certa forma dividem suas vida comigo. Na oportunidade eu dissertei sobre o simples e o complexo. Sobre as lagartas que comem a árvore onde moram e sobre a razão que faz mover o mundo. Também falei sobre as coisas que aparentam não serem importantes, mas que na verdade são as que ditam a velocidade do tempo. Uma dessas pessoas, cujo nome prefiro não declinar, falou-me da tristeza que maquio nos textos publicados no blog que visita com certa frequência.  Essa pessoa, sem nenhuma pretensão, reabriu a ferida que há muito eu achava ter cicatrizado.  Suas palavras eram de uma ternura semelhante a do mediador de sequestro prestes a imobilizar o inimigo. Foi desta forma, doce e gentil, que abriu as comportas onde veladas tristezas se mantinham sob a face serena das águas represadas. Diante dessa realidade eu me vi vazando minhas lágrimas sobre um textos que terminava. Chorei me confundindo nas concordância, trocando de lugar os acentos, os pontos, as vírgulas, assim como transfigurei minha cara  com o pranto derramado.
Talvez eu devesse me "analisar" para buscar o motivo da minha alma fazer tamanho alarde frente aos que têm o privilégio de ler nos gestos e nas palavras a euforia extrema ou a alegria exacerbada digna de quem não tem uma trilha por onde caminhar, como eu imaginava. É provável que a terapia  acalme o ímpeto das grandes ondas que tentam levar o barco do raciocínio aos rochedos ou ao fundo do mar como se lá fosse seu derradeiro porto.  Por isso o gosto da maresia nessas palavras

segunda-feira, 15 de maio de 2017

SABES POR QUÊ?

   Tu podes até dizer que não sou teu conhecido, teu colega, teu amigo, mas no fundo, no fundo, sou eu quem sabe o que verdadeiramente sou para ti. E se queres que eu te lembre não faças cerimônia pois eu ainda sou o vento que espalha a tua chama. A lágrima do teu pranto quando rola. O gol que te fez vibrar e a picada por onde a floresta dos teus desejos escapou. Eu não sou o sim ou o não, mas o talvez de todas as tuas incertezas. Eu sou as mãos que as tuas afagaram, a prece da tua fé, o remédio que te cura, a extrema-unção da tua tristeza e a alegria que te mata.
Eu sou, enfim, o que tu quiseres e o que não quiseres que eu seja.




quarta-feira, 10 de maio de 2017

SÓ SE FOR ASSIM...

   Não tenho prazer nenhum em falar que calei aquele que me ofendia. Que esmurrei quem me bater queria e para não colocar em suspeita a minha honra eu paguei uma conta que não fiz.  Não teria prazer algum dizendo ter desonrado algumas mulheres, mesmo que fosse mentira.  Que recebi troco a mais, que ajudei a dar porrada em um moleque que roubava uma velhinha e que eu tinha ensinado ao meu instrutor o que é ser cidadão. No entanto tem coisas que me enchem de orgulho como ser honesto, pagar minhas contas e devolver o que peguei emprestado.  Essas coisas fazem de mim uma pessoa diferente, pois, de certa forma, mesmo sabendo que pagando o que eu devo e devolvendo o que não é meu não passa de obrigação.  Não quero morrer achando que a minha passagem por este jardim foi em vão, por isso pretendo ensinar aos meus netos, caso seus pais tenham se esquecido, que ser direito não é errado e que ser honesto não é desonestidade.   Assim como vou dizer a eles que meu pai morreu sem saber como era ficar sem trabalhar. Sem saber o sentido da palavra cansaço e sem deixar que suas dores, que talvez o meu velho tivesse, tirasse dos seus lábios a doçura do sorriso.  Vou dizer que bondade não é sinônimo de bobeira.  Que evitar uma briga não é prova de covardia e que o amor, só o amor, lapida na rocha o seu nome. Assim, creio eu, todos serão felizes, como, acredito, o meu pai foi, eu sou, e meus filhos talvez também sejam.

sábado, 6 de maio de 2017

VISITA AO INFERNO.

    Não tinha um dia que a sogra não fosse várias vezes à sua casa. A qualquer momento, até cansada de uma longa viagem, ela ia perturbar a paz dos que sem a velhota iam melhor. As visitas constantes perturbavam o pobre do genro que para não ouvir os queixumes da esposa acabava engolindo os sapos de sempre. Quando alguém os visitava era a sogra quem dava as caras. Segredos não eram trocados naquelas dependências porque de orelha em pé a pessoa aparecia na maior cara de pau. Se alguém quisesse se esconder daquela criatura bastava ir a sua casa, lugar onde pouco ficava. Longos anos de angústia e sofrimento o rapaz passou com a presença indesejável que até de namorar a própria esposa da maneira que pretendia era impossível. A intimidade do casal era de certa maneira interrompida por quem batia na porta querendo falar sobre coisas que nem a ela interessava. Em um dos sábados quando se preparava para sentar-se à mesa com a família para o almoço, o capeta, em forma de mulher, apareceu. Felizmente foi vista antes de concluir o primeiro lance de escada. 
- A gente está almoçando, disse o genro fechando a cara. Quando terminarmos eu te chamo, completou sem olhar para baixo. A velha fingindo não ter ouvido continuou subindo até que foi impedida de fazer o que pretendia.
- Eu já falei que estamos almoçando e tão logo terminemos eu te chamo. Grunhiu enfurecido. Aí fechou o tempo. A velha começou a gritar e chorando dizia que a filha era dela. Que a neta era dela e que a casa  onde a gente morava também era dela. O genro que não queria que a família soubesse que estava acontecendo fez tudo para abafar o caso.  Disse saber que  não era dono de nada, mas que isso não vinha ao caso, mas que ela os deixasse almoçar em paz jurando chamá-la quando terminassem. Nesse momento a mulher e a filha, tomaram partido da coisa. Largaram seus pratos e foram abraçar a velha que chorosa se viu carregada para dentro, como ela queria, onde abraçadas choraram a "injustiça" do rapaz. Mais tarde a esposa, educada e compreensiva, entendeu os motivos da briga, só lamentou que fosse com a sua mãe, enquanto a filha, por quem daria a vida, há 15 dias não olhar para a sua cara. Enquanto a sogra não escancarou as portas do inferno não se deu por feliz. Isso nos garante que o diabo existe e o genro garante que mora na casa ao lado. Durante o tempo que a filha não fala com ele o diabo continua fazendo a ronda. Pelo visto a perturbação voltará a ser como antes, só a mocinha continuará fugindo do pai como o diabo apavorado foge da cruz.

terça-feira, 2 de maio de 2017

A FÉ NÃO COSTUMA FAIÁ.

  

   Eu costumo dizer que médico não tem, necessariamente, que examinar o paciente tocando no corpo dele, sorrindo de suas histórias ou conversando como se ninguém mais o aguardassem na sala de espera. Médico, como eu vinha dizendo, não está ali para agradá-lo, mas para melhorar o seu sofrimento ou, se possível, curá-lo da enfermidade.  Não adianta tratar o doente como se fosse seu amigo e deixá-lo do mesmo jeito que chegou, mas, se o profissional tiver como amenizar o sofrimento de quem busca os seus serviços e ainda por cima for atencioso e gentil, palmas para ele.  Por outro lado o paciente precisa ter fé em quem vai examiná-lo.  Ter fé nos que o cercam em seu leito e ter fé, principalmente no criador, porque, quando o doente acredita em Deus e nos profissionais a sua volta ele encontra conforto à uma possível melhora ou à hora derradeira.  Havemos de acreditar em quem cuida da gente,  em quem torce por nós e principalmente naquele que, sendo noite ou sendo dia, faça sol ou faça chuva, nos tem sob o seu manto sagrado.  Com fé o doente melhora se o médico não acertar com a medicação. Melhora com a enfermeira tomando o seu pulso, com o zelador nos pés da cama escondendo uma lágrima e até contraria o tempo de vida anotado no prontuário aos pés da cama. E quando tudo passar. Quando o sol apontar os últimos raios dourados do outro lado do mar e a dor der um basta ao sofrimento, mesmo assim o senhor haverá de estar por perto para fechar, pela última vez, os olhos do seu filho.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

EU TE AMO VOCÊ.


    Eu sei que não falo corretamente e escrevendo eu consigo piorar o que já não vinha bem, mas não iria esconder um amor que não nasceu do meu interesse, mas da relação que mantemos. Eu jamais me calaria por falar e escrever errado. Não é por comer umas letras ou escrever outras que não fazem o menor sentido que deixarás de saber que sou um cara bastante castigado nesta minha curta existência e quando alguém melhora alguma coisa a meu favor eu me torno seu eterno escravo. Pelos caminhos por onde passei conheci um pouco de tudo. O que era bom era pouco e o que não prestava sobrava. Conheci gente roubando de quem nada tinha ou se tinha foi por anos de luta e sofrimento. Conheci pessoas doentes que tentavam, para viver um ou dois anos a mais, roubar os remédios daqueles que esperaram meses para receber do governo. Quanto à parte boa da coisa, é claro, que é esse amor que tu regas no meu coração. Contigo me sinto livre para abraçar todo mundo. Abraçar e dizer obrigado por me permitir amar como jamais pensei que eu fosse capaz. Há dias fiquei sabendo que onde tu pões os pés nasce de um tudo. Nasce e viça a fauna e a flora.  A doçura dos frutos não há quem dela conteste. As minas de ouro, os poços de petróleo, as pedras preciosas e o alimento que mata a fome dos que plantam, dos que cuidam, dos que trabalham na colheita e dos que nada tem para viver são fundamentais à vida dos teus filhos. Por isso eu também te amo, e, por me deixares falar o que sei e do jeito que sei sobre ti e tua gente. Amo-te por saberes que eu falo errado e mesmo assim tu te ris ao invés de me ignorar. De qualquer maneira te digo que pensando bem eu até falo e escrevo melhor do que muitos porque só faz 45 dias que eu soube da tua existência.(Antes era Pelé,Lava Jato e nada mais) Nesse pequeno espaço de tempo aprendi a falar e a entender o que tu dizes e só o fiz rapidinho por causa do amor que tu despertaste em mim. Amo-te, Brasil, terra querida, que és linda e gentil. Hospitaleira e carinhosa com os que aqui aportam e mesmo sabendo que uma pequena parte do teu povo tenta te devorar aos pedaços tu continuas de uma forma ou de outra, a manter na boca da maioria dos teus o sorriso da esperança. 
  Espero que acredite no amor desse cara que nasceu no outro lado do mundo onde tudo que pagamos volta em benefício da população, mas se quisermos sorrir como o povo daqui tão bem faz, haveremos de pagar um bom dinheiro para que nos façam cócegas ou viveremos emburrados como eu era.


segunda-feira, 24 de abril de 2017

NÃO MATE SEUS SONHOS...

   
    Ela era uma criança que enrubescia ao ver o garoto pobre e sorridente que ultimamente vinha ao seu portão. Do quintal onde a menina de 12 anos morava podia ver o garoto se acomodar nos degraus que acessavam a entrada de sua casa, como a garotada nos fins de tarde. Aquele era o momento mais confuso que a pequena atravessava. Será que esse moleque sabe que eu existo ou pelo menos já me teria visto em algum momento? Será que eu devo arrumar um pretexto para ser vista por quem me faz tremer quando ele aparece? - Pensava a jovem sem tirar os olhos do menino. Aquela criança, cujos hormônios esculpiam o corpo, poderia, quem sabe, vir a ser o homem de sua vida? Mais cedo do que pensava os dois se encontraram na gincana entre as escolas. Naquele momento a menina se viu instigada a falar com ele, mas estancou diante da sua figura. Ela, que carregava consigo uma gota de esperança, sentiu o calor esquentar-lhe o rosto e um fogo propenso a queimar-lhe o peito não fez outra coisa senão olhá-lo de tão perto que poderia tê-lo tocado se quisesse. Mas não o fez. Angustiava-lhe o desejo de sabê-lo sentindo por ela o mesmo que nela o menino causava. Na esperança de reforçar a equipe o instrutor achou conveniente trocar o menino por outro mais experiente. Não aquentando a pressão a equipe da menina acabou derrotada. Mesmo não tendo o que comemorar, lá estava ela para ver o menino, mais uma vez. Seria o garoto o primeiro e único amor de sua vida? - Voltou a se perguntar.
Outros encontros, casuais, foram surgindo com o passar dos anos, porém um a levou às lágrimas; a morte da avó do coleguinha. D.Arvelina cuidara do menino desde o nascimento, mas ao primeiro assédio da morte, não resistiu. Entregou-se a ela. Cruzou sobre o peito suas mãos bondosas, fechou o azul dos seus olhos riscando nos lábios o último sorriso. Queria ser lembrada pelo neto como uma pessoa feliz até na hora da morte. O menino acusou o golpe e talvez por isso não se tenha dado conta dos braços miúdos que o envolveram e do beijo na face aonde escorria uma lágrima. Não foi naquela oportunidade que a menina seria notada por ele. Quis a sorte que os dois se encontrassem num momento de grande tristeza para ele. Tempos mais tarde o time do rapaz conquistava sobre o seu principal oponente o título de campeão brasileiro e entre risos de felicidade acabou entre os braços daquela menina que nem gostava de futebol. Fingindo estar feliz com o resultado o beijou na face e com ele ficou o tempo suficiente para alinhavar os seus sonhos. Outros encontros garantiam a ela que estavam namorando. Aos poucos o par foi se conhecendo e dos dois, ele se acomodou primeiro. Não dava pinta de querer nada da vida e de campeão que fora na gincana escolar o moleque já não tinha mais nada. Ela, por sua vez, era mais atirada e se não fosse por sua ousadia, os dois nem teriam se conhecido. Pegada eu não percebi que tivesse, mas, enfim, ele era um bom companheiro, um bom namorado, um ótimo rapaz. Mas sabia que estava errada. Quantas vezes a menina sonhava encontrá-lo galopando num lindo cavalo branco para além dos contos de fadas, os príncipes e as princesas vivem as suas histórias. O desinteresse pelas coisas e por ela, de certa maneira, deixou balançando o que ela achava que sentia por ele e até se questionava se o homem que morava com ela era o mesmo moleque que sentado nos degraus do seu portão olhava as pipas no céu da sua rua. Há muito ela achava que não era, mas só agora tinha certeza. Meu Deus, por que permitiu que eu mesma matasse o melhor dos meus sonhos? Por que não o fez mudar com seus pais para um outro bairro, para uma uma cidade distante, para outro estado ou para outro país? Se assim tivesse acontecido eu não estaria tão triste com ele deitado ao meu lado, mas feliz em me lembrar quando corria pelas ruas atrás da bola que jogava com a molecada enquanto eu fazia tranças na boneca que minha madrinha me deu num dos poucos natais quando alguém se lembrou de mim. Talvez eu não tivesse resistido se você não fosse meu na hora que foi, mas também você, quem sabe, não tivesse tido a sorte de conseguir alguém melhor do que eu? Pensando assim estou dando a entender que cansei de correr atrás do meu próprio rabo. - Ela se perguntava como se não estivesse vivendo aquilo. Agora que o tempo passou e tudo na gente ficou diferente eu já não o vejo com os mesmo olhos que me levam a perguntar se ele é mesmo aquele moleque por quem fiz loucuras só para que me notasse. Eu sei, disse ela aos seus botões, que você está aqui, deitado ao meu lado, mesmo assim eu sinto muito a sua falta. Talvez se você mudasse a sua maneira, se me tratasse com mais interesse, se ouvisse do começo ao fim o que eu falo talvez mudasse alguma coisa. O tempo, no entanto, me mostra o cristal rachado e não fui eu sozinha quem fez esse estrago, você me induziu ao erro quando me obrigou a deixar de ser criança, a pensar e agir como mulher. Talvez por isso nada mais pode ser mudado a não ser para a pior. Ah menino da minha infância, que saudade você pinta em minhas lembranças. Resmungava ela no momento em que ele puxava o lençol de cima dela para se cobrir.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

COM MUITA HONRA.

     Na calçada em frente a um depósito de bebida os vendedores vão saindo para trabalhar. Se alguém me pega olhando, enquanto passo, respondo com um aceno de cabeça em cumprimento. Mal sabem que durante anos eu fiz parte daquela trupe e graças a estrutura da empresa e a generosidade do patrão eu estudei e me formei doutor em leis. No final dos meus estudos meu pai montou um escritório, que seria meu, num espaço vago da sua casa.  Diploma em baixo do braço, aperto no peito e na mão uma carta de rescisão que o meu patrão não aceito. Deu-me em troca, além do abraço arrojado e palavras de encorajamento, valores que jamais pensei ter direito. E como sabemos Internet não havia naquele tempo, por isso os anúncios dos meus serviços eram postados nas páginas amarelas e foi através delas que alguém me contatou.  Eufórico pedi que viesse à minha sala. Assim que o vi percebi que o sujeito era um tipo conhecido, mas o que mais me chamou a atenção foi o nome da empresa que queria acionar. Tratava-se da mesma onde  trabalhei, ganhei meu dinheiro, respeitei e fui respeitado. Como poderia processar pessoas dignas e que tanto fizeram por mim e por muitos que por lá passaram, como aquelas? Quando nos despedimos prometi encaixá-lo na minha agenda, mas ligaria para os detalhes.  Gente, se eu me comprometesse com certeza me esforçaria para ganhar a causa, e se ganhasse alguém tiraria uma foto que se transformaria num post e certamente iria para o alto da parede atrás de mim. Depois eu, com o peso na consciência, ficaria sem dormir o resto da minha vida. 
Dei uma desculpa aos meus pais e fui à casa de um amigo onde fiquei aquele resto de semana.  Na segunda feira me inscrevi no vestibular da USP onde há dois anos me formei em jornalismo.   
- Como jurista talvez não comentasse o fato, mas como escritor me arrisco falar dos outros, inclusive das minhas fraquezas.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

CURAR OU MATAR.

   Para cada remédio ou aparelho que possa curar a doença no ser humano é introduzido no mercado um milhão de artefatos que mutila ou mata. Desta vez, no entanto, aconteceu diferente. Acabo de ler nos jornais que um estudante brasileiro que fazia estágio nos Estados Unidos descobriu, através de pesquisas nos laboratórios de Harvard em Massachusetts, um novo meio para curar a tuberculose, que no mundo mata tanto quanto a AIDS, sem a necessidade do uso do antibiótico, que agride a flora do organismo combalido. (Dessa vez com o auxílio dessa mesma força armada) O estudante pernambucano desenvolveu a tecnologia que é capaz de tratar infecções através da irradiação de luz nos tecidos humanos. Em uma frequência que mata até mesmo as bactérias, chamadas de resistentes, os equipamentos são capazes de eliminar a infecção em cerca de 60 minutos.  Bem mais eficiente que os antibióticos que existem nas farmácias e hospitais, a pesquisa já foi testada, graças ao patrocínio do do exército norte-americano para eliminar uma bactéria encontrada em ferimentos de soldados que voltaram do Iraque. 
Como uma lanterna portátil, o equipamento conta com lâmpadas de led preparada para irradiar uma frequência determinada de luz, que é visível aos nossos olhos e não tem efeito colateral.
Uma microagulha guia essa luz, da fonte para dentro dos tecidos, atingindo até mesmo áreas mais profundas.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

DEU RUIM...

     Tem dia que você acorda sem forças para sair da cama. O dia passa com você torcendo para ouvir o Bonner dizer; boa-noite, e você voltar para a cama de onde jamais deveria ter se levantado.  Tem esses dias na vida da gente, mas o importante é saber se o problema é passageiro e não diz respeito a uma possível depressão, mal que afeta uma grande parcela da população.  Você já se imaginou torcendo para que o tempo acelere os passos e leve o dia consigo noite afora?  Dizem os entendidos que você, nesse caso, deve procurar um médico, e ai eu pergunto; como procurar por um especialista num país aonde se morre de gripe?  Talvez nem um terço da população mundial tenha acesso à prevenção dos males corriqueiros, principalmente da prevenção que ainda é um mistério para os mais esclarecidos.  Eu sou um desses privilegiados que dispõe de recurso para recorrer a um craque no assunto, mas, quem me garante que também não faço parte da maioria que, mesmo tendo acesso aos clínicos,  acham que isso é coisa passageira e que logo, logo, estarei melhor?

quinta-feira, 6 de abril de 2017

DIA 8 DE ABRIL MORRE PABLO PICASSO.

     
      Quando o mês de abril me bate a porta eu me recordo da importância que esse mês teve nos anos anteriores. Em um deles morre o pintor espanhol e em um outro um golpe militar derruba Jango da presidência. Nesse mês eu só não acho importante o dia 29, quando fico um pouco mais velho segundo os registros, mas me incomoda saber que um certo sujeito aparecendo do nada nasce antes de mim. Talvez essa pessoa esteja nesse momento com a nata dos seus amigos reunidos e por isso não dará importância ao que eu disser por aqui, e caso ele não se recorde da importância da data ou não se importar com o que eu disser, eu cá, no alto da montanha me manifesto, porque hoje é dia de festa.  Este mês Leonardo Da Vinci  e meu filho também aniversariam, mas quem já me viu falar do nascimento de outra pessoa senão daquele de quem eu me lembro a qualquer dia e a qualquer hora?  Eu nunca pedi um abraço a Da Vinci ou teria pedido ao meu filho que viesse me visitar, mas pedi, sem vergonha e nenhum constrangimento que o meu irmão, como ele se refere a mim, esquecesse os mosquitos na orla onde mora e viesse me dar esse abraço, um beijo, e como prova de sua amizade gargalhasse gostoso, como costuma fazer.  Digam o que vocês quiserem dos dois.  Falem o que acharem que devem de um ou do outro, mas não neguem a felicidade que os caras estampam na minha cara com a sua presença.  Al, você é meu irmão, meu amigo e fiel camarada.  Jamais eu teria dito que morreria por você, mas se depender de mim a gente sequer adoece.  Parabéns, camarada e feliz aniversário.  Caso o seu abraço me venha envolver esse corpo que teima em manter-se de pé, saiba, que você é a pessoa mais importante que eu tenho na vida, mesmo que eu tenha de discutir com  os outros o teor da questão.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

TUDO TEM LIMITE...

       Ela tem ficado muito sozinha ultimamente e a prova do mal que a solidão faz a ela é o carrapato que vem se tornando para com os que, talvez nem por vontade própria, vai visitá-la. Assem tem sido a coisa e pelo que vejo não há o que a faça melhorar. Ou será que não é um saco a gente visitar uma pessoa que a todo momento nos oferece uma água, um café, ou é preciso dizer para não se preocupar com a comida porque vamos almoçar na casa de um parente na cidade vizinha?  E quando nos levam, coercitivamente, a olhar do alpendre a paisagem que a todo momento é postada nas redes sociais? Como se vê, é um saco, na excepção da palavra, aguentar dois minutos ao lado de quem não te deixa completar uma frase sem acrescentar alguma coisa achando que vai te favorecer.  Dizem as más línguas, que durante as chuva que castigaram o povo serrano acabando com a esperança da metade dos  seus habitantes, um tal de Sérgio, que tinha perdido tudo, teve o desprazer de ser recolhido por aquele que já vinha se achando sozinho a partir de então.  No terceiro dia de convívio o Sérgio foi embora.  Havia resistido a tempestade, mas não sabendo como fugir do grude do dono da casa, pegou seu boné e foi-se embora. Agora que as visitas se fazem mais a miúde, talvez, o sujeito se manque e melhore o seu comportamento, ou morrerá do jeito que viveu a metade da sua existência; chato como carrapato por querer agradar.

domingo, 2 de abril de 2017

ALICE NO PAÍS.

    Para alguns um sorriso é motivo de felicidade, enquanto para outros, milhões de dólares não acabam com o seu sofrimento.  Tem gente que chora por ter furado um dedo enquanto a mulher não se importa que lhe tirem de junto ao coração, o filho que ora lhe suga o peito.  Todos aplaudem a criança que vem à luz, mas nem todos se lembram do caminho que a mãe percorreu. Hoje, Alice, que há muito vem sendo a maravilha do mundo, risca na cara dos crédulos o sorriso da felicidade sem que pouco ou muitos dólares fossem necessários para isso. Parabéns à mãe que esconde no sorriso a dor do parto. Parabéns aos escudeiros que durante o tempo de maturação da semente não estavam por perto, mesmo assim nunca a perderam de vista. Parabéns a pequena que não viverá mais tão só e a gente que sente na entrada do túnel a claridade da luz.

quarta-feira, 29 de março de 2017

HOJE É SEXTA-FEIRA.


     Essa madrugada foi de arrepiar com um louco esmurrando à minha porta - eu tinha acabado de chegar do bar onde nas sextas-feiras tomo um chope com os amigos. Normalmente eu volto de carona, mas desta vez fui obrigado a sair às escondidas tal era o meu cansaço. O dia tinha sido puxado, por isso a indelicadeza do meu gesto. Assim que cheguei à casa fui direto paro o banheiro.  Tomei um banho quente e me atirei na cama na intenção de levantar para almoçar caso alguém me convidasse. O primeiro pontapé na minha porta eu o senti como se fosse na minha bunda. Dei um salto, gritei quatro palavrões e entes que eu perguntasse o nome do meliante uma voz de mulher ou de criança voltou a chamar meu nome. Assim que a senhora adentrou o pedaço arrisquei uma olhada para o lado de fora na garantia dela estar sozinha. Certo disso perguntei o que queria e foi aí que eu me dei conta que estava nu como é do meu costume quando vou dormir. Pedindo esculpas eu puxei a toalha da mesa e cobri o que pude das minhas vergonhas. 
- Você pode me dar um copo d'água? - Pediu-me fingindo não ter visto o que esteve diante dos seus olhos. - Claro que sim. Vá à cozinha e sirva-se enquanto eu me visto.
Assim que saiu da minha frente foi que eu pude perceber a bela mulher que ela era. 40 anos, bem calçada e bem vestida, mas não tinha nada nas mãos, nem mesmo uma carteira onde guardasse os documentos. Será que tinha deixado com alguém que esperava por ela lá fora? E se não for isso o que essa mulher poderia querer de um cara como eu? - Resmunguei comigo mesmo. Esperei uns cinco minutos e nada da mulher voltar da cozinha, por isso decidi por procurá-la. A porta do banheiro, por estar encostada, me deixou perceber que usava o meu sabonete e a duchinha higiênica. Meu Deus, o que essa garota estaria pretendendo na minha casa àquela hora? 
Mais cinco minutos e ela voltou mais bonita. Cabelos penteados, lábios pintados e a maquiagem retocada. Fora o que ela tinha lavado e eu não sabia o que era. O vestido havia encurtado como se ela o tivesse enrolado na altura da cintura.  O decote agora deixava transparecer a curvatura dos seios, o que antes não se podia perceber. Tentei apagar os maus pensamentos que me vinham através dos meus olhos quando ela me pediu para dormir na minha casa aquele resto de noite. 
- Eu só quero um lugar seguro onde eu possa descansar um pouco. Amanhã quando você acordar eu já terei ido embora. - Disse-me com voz de menina.
- Aqui? Sozinha comigo? Você nem me conhece, garota. E eu muito menos conheço você. - Falei surpreso com o que ela teria dito.
Acordei com o celular vibrando e nele a mensagem de um amigo do Espirito Santo me dizendo que estava a caminho para almoçar comigo. Olhei para o lado e vi, com os olhos que a terra há de comer, a mesma mulher que antes esmurrou a minha porta completamente nua na minha cama com uma das coxas sobre a minha barriga me prendendo embaixo dela. Deixei o celular onde estava e voltei a dormir.
Não almocei com ninguém naquele dia, mas jantamos nós quatro. Eu, a mulher que esmurra porta e o casal de amigos para quem nada contei.

sexta-feira, 24 de março de 2017

ME MATA OU EU TE MATO, DE CIÚME.

     Quantas vezes eu bebi por tua causa. Quantas outras por ti me embriaguei. Quantas vezes acordei por ti chorando e quantas noites nem dormir eu consegui. Muitas foram as ocasiões que eu jurei acabar contigo. Já quis apertar o teu pescoço e com a boca junto a tua boca dizer o que eu sempre quis, mas se coragem e força eu tivesse, beijar-te era o que me aconteceria. Já quis sangrar-te até a morte por teres me cercado, preso, julgado e condenado a viver o resto dos meus dias sentindo o que por ti me mata a cada dia. Já bebi e não comi. Já acordei sem ter dormido. Já rezei para esquecer-te, mas antes me preocupei com tua gripe. Enfim, força e coragem para acabar com a vida de uma pessoa eu sei que não possuo ou eu teria acabado com a minha como tu estás fazendo.

segunda-feira, 20 de março de 2017

E O SEU SEXO, COMO VAI?


    Eu não sei se você se lembra de como era a sua vida na juventude, mas com certeza há de se lembrar de como usava os cabelos, dos presentes preferidos e do belo corpo sarado e bonito que causava inveja às amigas. Hoje, passado dez anos, tudo ou quase tudo mudou na sua vida, inclusive a cama. Seus desejos, sua ousadia, o desempenho da mulher fogosa e o gozo que arrebatava os mais exigentes já não são os mesmos. É claro que algumas coisas não mudaram, como o seu caráter e a fidelidade para com os outros e para com você mesma. As demais mudam a cada década, e o sexo então, nem se fala. A propósito; como será você daqui a 30 ou 40 anos? Como estará sua libido com relação ao marido ou aos seus namorados?
Quando se tem 20 anos a animação é grande com o tesão fervendo nas veias. As mulheres querendo preliminares enormes sem se importarem com a hora ou o lugar onde possam fazê-las, se durante a noite ou em plena luz do dia, se no capô de um carro, no escritório do namorado, no escurinho do cinema, numa rua ou na praia deserta. Transam na escadaria do prédio onde moram e sem pudor contam às amigas do escritório ou do colégio cada detalhe do que fizeram. Com o tempo essas coisas vão mudando e o que se fazia durante um dia inteiro, hoje se faz em duas horas ou menos, porém de maneira muito melhor. O prazer de uma relação a dois é imensa e nem o arrastar das horas lhes parece que o tempo voa. Foi assim com uma amiga que tinha um namorado e jurava ser ele o cara de sua vida. Ficou três meses com o sujeito. Mais tarde ficou com o amigo dele que frequentava a mesma igreja.
- Ele não foi o primeiro com quem transei, mas tem tudo a ver comigo.
- Introspectiva me dizia. Na última vez em que nos vimos essa moça jurou que tinha encontrado sua verdadeira cara metade.
- Eu e o meu namorado fazemos coisas que eu repudiava nas prostitutas, mas com ele é diferente, maravilhoso, e eu me entrego toda fazendo isso, mesmo achando que não é direito e muito menos coisa de mulher direita - disse baixando os olhos.
O tempo muda o comportamento das pessoas no decorrer da vida. Muitas mudam para melhor. Outras se acovardam na mesmice, mas de certa forma também mudam, porque basta perder o medo do que possam falar ou possam dizer quanto aos múltiplos orgasmos que seu companheiro ou companheira possa lhe dar. Carinhos atrevidos, sussurros ao pé do ouvido, além da janela mal trancada que o vento abre ao faro dos lobos que passam na calçada em busca da fêmea no cio, estado em que você sempre se encontra.

quarta-feira, 15 de março de 2017

BILLY ERA O SEU NOME.

   Enquanto os amigos vestiam jaqueta de couro, calça jeans apertada, botinha sem meia e sempre que possível, levava um violão com eles, o cara a quem presto as minhas homenagens não estava nem aí para os que imitavam os artistas ou quisessem se parecer com James Dean, Elvis Presley e outros astros de sua época.

Billy Eckstine, mulato magro, voz grave e doce, no entanto, apresentava-se com fiel desenvoltura nos palcos do jazz das cidades americanas. Este cantor acabou por virar a cabeça do meu homenageado, não como um mocinho das telas de cinema ou galã na vida real, mas por saber que qualquer astro ou músico adorava dividir o palco com ele, e isto chamou a atenção do jovem a quem me refiro que por sua vez, não negava dublar os artistas do rock nas pequenas rádios do Rio. Billy Eckstine, no entanto, despertou de tal forma a atenção do rapaz que o jovem rapaz acabou trocando o seu nome pelo do jazzista.
Hoje, muitos e muitos anos depois, eu tenho a doce lembrança daquele tempo. Não que eu o tivesse vivido, mas por ter tomado conhecimento da façanha como os adolescentes a atravessaram. Época em que Billy Eckstine cantava para o povo de todo o mundo, inclusive para um jovem loirinho que, inspirado por sua melodia, até seu nome o rapaz foi capaz de trocar.

terça-feira, 7 de março de 2017

CARA DE PALHAÇO.

     Minhas lembranças estão cheias de confete. Na minha cabeça ecoa o bumbo da minha escola enquanto o meu coração cadencia o som da bateria no recuo. Essas coisas me levam a pensar que seria melhor, ao invés de nos darem a quarta-feira de cinzas para descansar, que nos oferecessem o resto da semana porque ninguém se refaz de uma festa daquela magnitude em vinte e poucas horas.  A Bahia saiu na frente acrescentando mais tempo ao carnaval enquanto a gente tenta afogar as mágoas, beijar as bocas que se pretende e paquerar as desinibidas num curto espaço de três dias. Lá, na Bahia, os conterrâneos conseguiram esse milagre, mas querem mais, enquanto em outros estados o povo se ajeita da maneira que pode, num Domingo e numa segunda-feira, e ainda aceita que chamem a terça-feira de gorda, no desmilinguir da festa.
É claro que o país precisa de mão de obra diversificada e de quem a execute com certa maestria ou jamais sairemos desse lamaçal em que nos meteram.  Quanto ao carnaval durar uma semana ou quinze dias não deve ser tão doloroso assim e quem sabe não custe tanto aqueles que vem brincando com o país desde a sua descoberta.  Certos europeus nos escravizaram, roubaram nossas pedras preciosas e as nossas mulatas, mas não nos furtaram o samba sincopado.  Os políticos nos roubaram a esperança, mas não nos levaram o samba de roda e o de enredo. Os estrangeiros nos saqueiam as florestas e delas furtam a biodiversidade, pintam e bordam com a gente, mas ninguém nos faz tanto mal como os que pintam na nossa cara a cara que o palhaço tem e diante de tamanho escalabros concluímos que  de palhaço a gente só tem a risada pelas coisas que fazem com quem não pode se defender.  Portanto, um mês ou dois de carnaval porque ninguém aqui é palhaço. De verdade.

sábado, 4 de março de 2017

SABORES DO CARNAVAL.

 Os foliões iam deixando a Sapucaí onde a portela retumbava os últimos acordes do samba de enredo enquanto a avenida bocejava de sono. Sozinha, segurando  suas próprias sandálias, uma moça, fugitiva de um amor mal resolvido no sertão do agreste, também entendia que naquele exato momento não só o carnaval chegava ao fim, mas a sua esperança de encontrar alguém com quem desabafasse, falasse de sua vida e, quem sabe, até se apaixonasse.   Os tamborins ainda repicavam em seus ouvidos quando alguém, não se sabe de que planeta teria vindo, surgiu em seu caminho. Sambava na ponta dos pés em torno dela como se fora Carlinhos de Jesus, o senhor de todos os carnavais.  Depois de vários giros e muita graça,  "Carlinhos", o rei dos salões, se dobrou sobre um joelho, olhou nos olhos da moça com um enorme sorriso e na mão que ora tinha beijado deixou a flor que trazia presa no chapéu. E ela, sem saber como se comportar diante do distinto cavalheiro, vergou-se de maneira que "Carlinhos" pudesse prender nos seus cabelos a flor que lhe dera. Mal tinha ele arrumado a flor entre o grampo e os curtos fios de cabelo  e o jovem, que não tinha a malandragem que demonstrava, mas tinha o jeito dos grandes dançarinos, tocou-a nos lábios de maneira que a garota esmoreceu.  Viajou na espiral da mais linda fantasia.  Poderia ter achado que havia sido dopada, caso não fosse com o rei dos salões que tudo aconteceu. O surdo batia cadenciando os últimos compassos da escola enquanto o coração brejeiro da graciosa morena que se permitiu enfeitiçar com o trato recebido,  agora sambava no pulsar dos seus orgasmos que, no vazio da apoteose, ali, ao lado do seu conquistador, a cada espasmo se entregou. 
Enfim, como diz o velho Palhaço Poeta, eram os últimos suspiros de um carnaval que agonizava para não morrer.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

FRUTA EXÓTICA

      Joguei a pasta no sofá e me esparramei na cama na intenção de descansar e me deliciar com a dedicatória que a mulher do meu  vizinho postou na contracapa do "CASA GRANDE E SEUS DEMÔNIOS" quando me deu de presente, ma eu, esquecido como só eu sei que sou, o deixei  no banco de trás do meu carro.  Eu estava bastante cansando, mesmo assim fui buscá-lo.  A luz da garagem não era lá essas coisas por isso ficou difícil saber de qual carro vinha a respiração ofegante de alguém que parecia estar transando.
Assim que chequei eu achei que duas pessoas se amassavam no carro, mas só com o tempo os sussurros denunciaram o veículo de onde vinham. Eu, é claro, me escondi atrás da pilastra até descobrir de quem eram na intenção de me surpreender.  A voz parecia com a da Andreza, que me deu o livro, e cujo fogo obrigava o marido a traçá-la em qualquer que fosse o lugar. Com certeza ela teria agarrado o marido para adiantar, ali mesmo, o que fariam no aconchego do 502.  Mas a voz de quem tinha 16 ou 17 anos, senão menos, me deixou perceber  que não era com o marido que transava, já que demonstrava medo em ser descoberta, fato que jamais a incomodou desde que se mudou para lá. O que de fato a mulher pretendia era experimentar uma fruta tirada do pé. Disse ela que moradores aproveitavam  a pouca claridade para transar dentro e fora de seus automóveis o que tranquilizou quem estava com ela.
 O reflexo do farol de um carro, do outro lado da rua, me deixou perceber que se tratava da filha mais nova do vizinho do quinto andar, onde moro, e que se deixou conquistar por quem não via obstáculo algum em levar para a cama quem despertasse a sua libido e pelo que deixou perceber, a garota despertou.
Gente, aquela imagem enrubesceu minhas faces de tal maneira que eu me senti ardendo em febre. Cada músculo do meu corpo endureceu, e como eu sou uma pessoa normal, agarrei um deles e me acabei ali mesmo enquanto observava as duas se comendo. Dei a mim o carinho que eu precisava.  Entrei em transe com o que via e com o que eu mesmo fazia, enquanto elas gemiam, choravam a dois metros dos meus olhos caramelados, até que a garota urrou como uma loba sinalizando que tinha gozado. O barulho de um cachorro bebendo água voltou a quebrar o silêncio e só parou quando a mulher berrou acordando a vizinhança, inclusive me tirando da letargia que o gozo me colocou.
- Este foi o livro que mais emoção me proporcionou, mesmo que eu não o tivesse lido".

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

A ENXERIDA.

    

   Martha caminhava de cabeça baixa quando um grito de mulher a roubou dos pensamentos. Uma garota de presumidos 19 anos empurrava um velho para dentro de um casebre a beira de um caminho onde nem uma viva alma se via por ali. Martha, curiosa como  a maioria das mulheres, escondeu-se atrás de um arvoredo na esperança de saber o por quê da garota gritar com quem, aparentemente, nem forças parecia ter para fugir. Mas a garota não parava de gritar:  - porra, cara! Tu é homem ou não é? – Essas foram as últimas palavras que Martha ouviu até que um silêncio sepulcral tomasse conta do lugar. Nem o zumbido das asas de um mosquito se ouvia mais. 
O dia afinava os últimos acordes quando Martha decidiu olhar pela janela.  Do lugar em que se encontrava, Martha ouvia alguns gemidos.  Na ponta dos pés a enxerida viu o velho transando com a garota, a mesma que antes o humilhara.  A jovem parecia ter um adestrador de xucro sobre ela. Agora era o velho quem dava as ordens.  – Então, não era isso o que tu querias? Então tome! – Dizia sem demonstrar qualquer cansaço enquanto a pequena se mexia, gemia, xingava e ria ao mesmo tempo. Já Martha, que tinha esquecido do tempo e da vida, estava bastante excitada com o que acabara de presenciar.  Agora era ela quem tinha o corpo ardendo de desejos, não pelo velho, mas pelo que vira ao vivo e a cores. 
– Meu Deus - pensava ela, como pude invadir a privacidade dessa gente, mesmo que as minhas  intenções fossem as melhores? – Antes que Martha se desse conta um mulato alto e forte apareceu não se sabe de onde e falou junto ao ouvido dela.  – O que você está vendo é o que vem acontecendo  ultimamente.  Na mesma hora a garota que transava com o coroa pediu ao mulato, a quem chamou pelo nome, que levasse a namorada, como se Martha fosse alguma coisa dele,  para que pudessem conhecê-la. Martha sem saber como explicar sua presença ali, decidiu entrar na casa e dependendo do que rolasse talvez tirasse algum proveito. Sua calcinha era a última peça que ela tinha para ser tirada quando viu a exuberância do mulato. Era uma coisa que a garota só vira em sonhos e principalmente nos pesadelos. Martha mal comia, mal dormia, pensando num sujeito igual a esse. E foi sem pensar no que pudesse acontecer que se atirou de joelhos aos seus pés suplicando que exorcizasse  os pecados do seu corpo. Sem se preocupar com o que o idoso e a companheira pensassem a seu respeito, ordenou, com olhos de santa e de louca, que o cara jazesse de costas e sobre sua virilha  assentou a pureza que trazia.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

CHEFE SECRETO.

    
    O fantástico provou, no domingo passado, o quanto podemos melhorar a espécie cooperando com os mais necessitados, principalmente com aqueles que não transferem para o governo ou à sua própria sorte às dificuldades com que levam a vida. Pelo contrário. Levantam cedo e vão à luta. Essa gente especial trabalha, sem reclamar, como se fosse sócio da empresa. No programa passado um dos diretores de uma grande empresa se fez passar por um funcionário recém-contratado. A um empregado mais antigo foi designada a tarefa de ensinar ao novato o serviço a ser cumprido. Em momento algum esse funcionário caçoou da falta de habilidade do recém chegado ou amaldiçoou a própria sorte com a incumbência que atrasaria o seu serviço. Só que o funcionário não pensava dessa maneira. Deu a ele, além da atenção que achava que merecia e os conselhos necessários quanto ao cuidado com os olhos e com a pele no manejo dos produtos químicos, como o aconselhou a se dedicar ao que se propôs fazer. Parecia até que o “professor” lidava com algum ente querido tal o carinho e cuidado com que o tratava. Nos intervalos os dois trocavam ideias e foi em uma dessas conversas que o novato ficou sabendo que seu mestre tinha um filho especial e que três dias, em cada semana, sacrificava as horas de almoço para levá-lo à terapia no Hospital onde nenhum centavo seu era cobrado – na última semana o menino ficou em casa por não ter como seu pai pagar as passagens. Era, como ele mesmo dizia, uma ginástica enorme dividir o tempo entre o trabalho e o tratamento. – Ele merece meu sacrifício, até porque, não pediu para ser assim. Eu já tive a minha oportunidade quando fui aceito nesta casa, por isso eu trabalho com amor e dedicação. Espero continuar por aqui por muitos e muitos anos e se surgir uma oportunidade para melhor de cargo, é claro que farei tudo para merecer esse lugar. Com isso eu ficaria mais tranquilo com relação ao tratamento do meu filho – concluiu enxugando os olhos. 
O novato saiu trabalhando em outras das suas filiais e de conversa em conversa foi aprendendo com os empregados o que é perseverar, sofrer e amar o que faz. Dias mais tarde cada um dos escolhidos com quem trabalhou foi chamado à sala da diretoria. À medida que seus nomes eram citados, cada um, apreensivo, sentava diante do diretor. 
– Você se lembra de mim, perguntava o chefe emocionado a cada um que se sentava à sua frente.
– Não senhor. Pelo menos eu não me lembro. 
– Eu sou o novato que você, pacientemente, ensinou o serviço que eu demorei a aprender e até me contou um pouco da sua vida. 
Em suma; o pai, cujo filho doente carecia de fisioterapia, teve o tratamento pago pela firma no melhor centro de reabilitação do estado, assim como as passagens, a alimentação e a hospedagem. Também teria abonado os dias em que o levasse ao hospital. Isso sem falar na promoção recebida e os 40% de aumento nos seus vencimentos. Com os outros escolhidos o diretor fez o mesmo. Apontou a fidelidade do funcionário e o seu interesse pelo que fazia e por isso recebiam algo que, em conversa, teriam dito que precisavam, como cursar uma faculdade ou terminar as obras da sua casa. 
Nesse dia eu me senti um lixo. Graças a Deus nem todo mundo é igual a mim.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

ERA O QUE ENCHIA OS OLHOS DELA...

      O primeiro encontro fui uma negação. O cara tinha a cara que agradava a ela, mas o resto não passava de um blefe. Nada aconteceu como ele havia prometido. Muitos amassos, vários beijos, olho no olho e palavras sem sentido. Tudo o que ela precisava no momento, mas o essencial tardou e não chegou. Transaram como as virgens transam enquanto ele, com a voracidade própria dos animais, atirou-se sedento à fonte enquanto ela morria com a boca seca. Não queria um cara grosso na maneira de tratar, mas na cama não queria alguém que lhe desse colo, já que em casa colo era o que não faltava. Ela queria mais, queria o que as outras não tinham por medo ou covardia, talvez por receio de pedir.  Nada de papai e mamãe ou coisa parecida. Ela queria mais, como eu havia dito. Queria um macho que lhe rasgasse as roupas, chupasse os seus mamilos e que a possuísse de todas as maneiras, principalmente da maneira mais vulgar como quando lhe vão às costas, agarram os seus cabelos e a levam, pervertidamente, às raias da loucura. Namorar a moça pouco ou nada namorou, uma vez que pretendia se entregar, não a qualquer um que a cobiçasse, mas à alguém forte o suficiente para torná-la a maior das vagabundas, desde que o segredo fosse combinado. Desde mocinha esse era o seu desejo, mas o medo de ser chamada de piranha, de devassa ou prostituta, tirava-lhe a coragem de propor ao possível parceiro esse desejo. Finalmente deu um pé no rabo do preconceito e se jogou nos braços da felicidade. 
- Abaixo a ditadura machista! Abaixo a igreja e a criação que tinha, pois a partir daquele instante a jaula da loba estará aberta a todo e qualquer tipo de sorte!, gritou com seus botões. Mandou o tabu, a igreja e a inveja das amigas às favas e deu para o primeiro cafajeste que demonstrou gostar do que ela e as amigas tanto desejam, mesmo que neguem.
A lua ia alta num céu escuro arroxeado  num descampado onde tudo aconteceu. Em suas costas o calor de um peito largo e poderoso. Nos seus cabelos a mão que a dominava. Na cintura um braço musculoso a serpenteava e no centro, bem no centro do que ela guardava como seu bem mais precioso para oferecer, um cajado pulsante que desbrava, entorpece, domina. 
O sol fazia tempo varria as folhas caídas ao redor, mas não se atrevia bulir com quem tinha nos lábios a doçura do sonho realizado.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

QUANDO NÃO TENHO ASSUNTO.

    As minhas histórias, assim como as suas e as de quem tem autoestima elevada ou simplesmente se respeita do jeito que é, têm conotação especial, tal qual a que damos às fotos antes de publicá-las. A gente fala dos filhos sem regatear nos adjetivos.  Fala dos livros que lemos como se fossem best sellers, quando na verdade não passam de regulares ou  nem da capa na estante da livraria nos lembramos. Assim como o nosso carro também não é velho, é seminovo.  A gente não pertence a terceira idade, mas sim, a idade da sabedoria.  Tudo o que é nosso é bonito, bom e nos custou os olhos da cara, mesmo que o tivéssemos ganhado por caridade. Assim tem acontecido comigo.  Quando não tenho assunto, mas resolvo tirar alguns minutos para desenferrujar o teclado, desando a falar de qualquer coisa, inclusive da minha família, da nossa cadelinha Babi e do lugar onde resido, mas em momento nenhum eu reclamo da minha saúde, até porque não vou dar esse mole para os meus inimigos. Também não digo que Babi late sem que tenha motivo, assim como não aponto ninguém lá de casa por não dar a atenção que os meus amigos merecem. Definitivamente não falo sobre coisa ruim. Talvez porque nem tudo que eu diga mereça crédito ou seja relevante, até porque eu não teria peito de arranhar a imagem da cadelinha que amo, das pessoas que convivem comigo, dos políticos que eu elegi e dos amigões que me visitam de vez em quando. Se eu tenho alguma coisa para contar não será sobre o que não presta ou sobre o partido que nos aperta o cinto e muito menos sobre o político que, como diz à boca pequena, insiste em comer o dinheiro do povo.  Se eu tiver que falar ou escrever sobre alguma coisa será sobre as minhas verdades e caso eu não as tenha eu as invento, crio, só para dizer ao mundo que eu sou o melhor dos caras que conheço, o mais inteligente do meu grupo, o mais bonito dos homens de meia-idade e também, um mentiroso contumaz.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

SABOR DE VERDADE.

    Na umidade dentre as pernas a mão, a boca, o órgão despretensioso do menino de primeira vez. No decote um par de olhos, gulosos, escalando os montes protegidos nas brancas rendas, e na boca descuidada, fortuitos lábios roubam dos dela beijos de gente grande para depois sumirem no anonimato de suas lembranças. Foi um momento diferente, estranho, divino. Talvez não passasse de um sonho ou alucinógeno nela injetado para estirá-la na letargia. Um pesadelo talvez, mas quem nos garante que a causa tivesse mais importância do que o efeito nela produzido? Não continuassem, os espasmos, contorcendo seu corpo tal qual a serpente ferida de morte, e eu garantiria que os múltiplos espasmos – ou seriam orgasmos?, ainda vibrasse como os sinos em dia de missa. Sonho ou pesadelo, verdade ou fantasia? Não importa se promessas não foram negadas ou quebradas. Se desejos proibidos, pecado capital, incesto de mãe amorosa com filho querido, não aconteceram na realidade. Enfim, nada de concreto teria acontecido de maneira que a lembrança não pudesse esquecer, desde que se quisesse esquecer um momento inusitado como tal. Eis que, ao som do alarme de um celular a mocinha salta do leito deixando ao vento um par de pernas nuas e os seios pontiagudos mirando a cara espantada de quem, sem notar, ainda sente o sabor do beijo que deu. Ou recebeu?

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

CAÍDA DO CÉU.

       Depois do que aconteceu comigo e com meu filho, não posso mais ver uma pequena na rua que logo me vem à mente o que aconteceu com a gente. No domingo à tarde, por exemplo, recebi uma ligação do pároco da nossa igreja que, antes de dizer o que queria, já cuspia fogo pelas ventas. Morri de medo do esporro que me daria quando me lembrei que no domingo, depois da missa, ele me abriria espaço para a minha fala. Está na cara que me cobraria, depois de encher-lhe o saco em busca da oportunidade de falar aos jovens sobre o mal que o vício agrega. Antes de ouvi-lo eu já estava sem chão. Esquecer o compromisso com qualquer um já não é bom, mas com uma pessoa a quem você deve respeito, é muito pior.
Arranjei coragem, não me lembro de onde, e tentei explicar, da melhor forma possível, os motivos que me levaram a faltar com ele, haja vista que, segundo esse mesmo apóstolo, eu teria nascido mágico, pelas escapadas que eu arranjava. Infelizmente esqueci de combinar com meu filho que contou as verdades que eu não tive coragem.
Mas como eu vinha dizendo, qualquer garota, sozinha ou não, era sinal de perigo, principalmente se fosse morena e bonita. Hoje a minha diarista chegou atrasada. Disse que a filha, único amor de sua vida, não tinha passado bem a noite e hoje, assim que acordaram, correram pro médico. Aquilo me quebrou, principalmente quando me lembrei que foi o seu bebê o motivo de eu tê-la empregado no instante em que sua gravidez motivava seus pais a mandá-la para fora de casa.
– E a criança, melhorou? – Perguntei sem olhá-la. Você podia ter me ligado que eu ia entender numa boa. Te dispensava pra você cuidar da pequena, e como dizem os mais velhos; com saúde não se brinca, principalmente do filho da gente.
– Eu não liguei porque nem me ocorreu que devesse, mas como o médico disse que não era nada grave e sim mudanças pelas quais a menina da sua idade passa. Aí foi que eu me acalmei, até tomei a liberdade de trazê-la comigo para o senhor ver se ainda se lembra dela. Era um pedacinho de gente quando o senhor acolheu na sua casa. Agora ficou diferente, muito diferente. Menos para mim, que sou mãe.
Depois de ouvir o que a diarista acabara de dizer um suor frio começou a brotar da minha testa.
– Meu Jesus do bom parto, me socorre! Será que se eu olhar por cima do meu ombro eu darei de cara com um mulherão desse tamanho, de pernas grossas, seios pequenos e boca carnuda pronta para me engolir? Acho que o cego se dá melhor nessas horas, mas o pior é que eu estou doido para ver a escultura que a natureza esculpiu naquele bolinho de gente. E então, cadê a mocinha?
– Pera aí que vou chamá-la, disse a mãe entrando no meu quarto. Não, isso não pode estar acontecendo. De novo, não. Nem um minuto se passou e a diarista adentrou à sala abraçada de sua filha que aparentemente estava muito bem, a não serem os traços especiais que uma criança com down, traz. Joguei-me aos pés daquele anjo, tomei-a nos braços e sobre o ombro daquela mocinha eu chorei tudo o que a minha alma represou a vida inteira

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

TAL FILHO, MAS NEM TAL PAI.

    Tem vez que gentileza não gera gentileza, até pelo contrário. Assim foi com meu filho (18 anos) que ao sair de uma festa num bairro vizinho sentiu que alguém esmurrava a porta traseira do carro buscando, sabe-se lá o quê. Talvez fosse alguém conhecido pedindo uma carona ou estivesse a fim de zoar, como fazem alguns. Meu filho ficou uma fera, até porque, se o pai dele soubesse que o carro tinha corrido algum risco de ser arranhado, com certeza não haveria uma próxima vez. O veículo não tinha rodado para que as portas se trancassem automaticamente, por isso alguém, porta adentro invadiu o veículo com ordem de, “siga que depois eu explico”. Era voz de menina fugindo da cinta do pai - pensava ele. Voz de medo, de pavor, não se sabe de quê.
– Meu Jesus do céu! Será que estou sendo assaltado por uma criança? – Pensou o condutor. Mesmo com a forte segurança da casa, qualquer coisa poderia acontecer por aquelas redondezas. Avançado os primeiros cem metros a pessoa voltou a falar, desta vez com menos agressividade, certamente pela calma aparente do meu filho, mas de qualquer forma era bem melhor que os agudos no pé do ouvido – confessou o motorista. 
– Você me desculpe, mas passei a noite com um cliente que ao invés de me pagar pelo serviço combinado, ele tomou o meu dinheiro e ainda me forçou cheirar cocaína. Foi muita sorte achar a chave que ele tinha escondido. Por isso eu corri e entrei no primeiro carro que apareceu, nesse caso, o seu. Eu estava fora de mim, só queria salvar a minha vida. Agora que estamos longe do perigo você pode me deixar em qualquer esquina ou se não for pedir de mais, me leva pra sua casa. Assim que eu melhorar eu juro que vou-me embora – completou chorando. A garota era linda e com aqueles olhos cheios d’água, então, ficava muito mais bonita ainda. Parecia uma santa, não fosse a saia extremamente curta e os pequenos seios que a blusa mal cobria. 
– Tá legal. Depois do que você me contou eu não tenho coragem de deixá-la por aí a mercê da sorte. Vou te levar comigo, mas nada de barulho para não acordar meu pai. O coroa é careta e jamais me permitiria levar uma menor pra nossa casa. 
– Pode deixar que eu tomo cuidado. Amanhã durante o dia eu vou embora – disse ela.
– Amanhã durante o dia? Tu ta maluca, cara! Tu não podes passar o resto da noite na minha casa ou meu pai corta a minha mesada. Você fica lá um pouco e quando se sentir em condições me fala que eu te levo. Depois eu enfrento o velho. 
– Tá legal. Eu só quero um banho e comer alguma coisa. Depois eu me viro – disse com um risco de riso nos lábios. 
Às 7h o alarme do celular me acordou. Levantei, tomei uma ducha bem fria e um gole de café bem quente, e como faço todos os domingos, me aprontei para ir à missa, só faltava pegar a chave do carro no lugar de costume, mas como lá não estava, fui até o quarto do meu filho para saber onde a tinha deixado. Pasmo o encontrei abraçado a uma mocinha que mais parecia minha neta, filha dele, se filha tivesse. 
– Jesus de Nazaré! É a mesma menina que estava na minha cama enquanto o idiota aqui pensava que fosse um ladrão. Será que eu sou um imbecil de carteirinha por não saber viver a vida ou o meu filho é que não vale nada por estar dormindo com uma criança? Na dúvida resolvi esquecer o assunto, como se um caso dessa magnitude fosse assim tão simples de se tirar da cabeça, principalmente quando uma garota, um pai e um filho, em diferentes noites da mesma semana, participaram de alguma coisa sem que cada um desconfiasse dos outros.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

PODIA SER A FILHA DA GENTE.

     A chuva era fina e constante. O  suficiente para deixar a garota encolhida de medo e de frio no ponto de ônibus aquela hora da noite.  Durante o dia o Alto da Boa Vista tem sido um lugar perigoso, mas imagina com chuva numa segunda-feira... Nem os carros têm coragem de parar, se alguém pedisse. É quinta marcha ladeira abaixo e quem quiser que se arranje como puder. Eu, no entanto,  com esse meu jeito de bom samaritano atochei o pé no freio assim que o farol pareceu ter cegado alguém naquele abrigo. No momento eu nem me preocupei com o que pudesse me acontecer tentando ajudar aquela pessoa, uma vez que no alto de onde deveria vir o busão uma árvore caída interrompia a passagem e só os veículos menores tinham permissão de descer.  Parei o carro, abri dois dedos do vidro da janela e falei para quem estava ali; olha, houve um acidente no alto e nem tão cedo ônibus ou van passará por aqui.  Se você quiser entra aí que eu te dou uma carona - disse olhando para quem, talvez sem saber.  A garota vencendo o frio e o medo largou o plástico com o qual se protegia e adentrou como um foguete pela porta de trás.  Quer dizer que te dou carona e você nem do meu lado quer me dar o prazer de ficar, perguntei sorrindo para quem, cheia de vergonha, fez que ia descer para ficar do meu lado.
– Não precisa, minha pequena.  Claro que não precisa. Eu só queria tirar deste seu rosto bonito essa expressão de medo que você carrega.  Minutos depois ela, demonstrando cansaço,  balbuciou se eu podia deixá-la na portaria do prédio da Rua Uruguai, na Tijuca, onde morava sua tia.
 – Posso até deixar, minha jovem, mas vai que ela não esteja lá.  Que tenha saído. O que é que você vai fazer novamente sozinha?  Diga-me onde você mora que eu te ajudo a chegar ao destino...  Mas ela não respondeu.
Com o carro aquecido e cansada como demonstrou que estava a passageira fechou os seus lindos olhinhos e, dormiu. Parei no endereço em que disse morar sua tia, mas ninguém apareceu para atender o interfone.  Então decidi tocar para minha casa em Vila Isabel, perto dali.  Guardei o carro na garagem de onde se via a sala, o quarto e uma parte da minha cozinha.  Para não entrar em desespero quando acordasse, fiz questão deixar os vidros e as portas do carro abertas, assim como as da casa, menos, é claro, a do quarto onde eu pretendia dormir.  Às cinco da manhã senti que alguém se mexia na cama ao meu lado.  No escuro do quarto e com a cidade violenta do jeito que tem andado,  nem da garota me lembrei no momento.  Fiquei quietinho para despistar o malfeitor que me deu um beijo, de leve, na face e um muito obrigado na hora que foi embora. 

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

GAROTA COBIÇADA.

     Expus na página desse blog, um dia desses, o desespero de uma querida amiga depois de se deixar beijar por uma mulher. Está na cara que eu adoraria perguntar se o beijo tinha sido tão ruim a ponto de deixá-la daquele jeito, mas não o fiz por respeitar a sua angústia. No outro dia me apareceu uma garota questionando o fato: - E se fosse a sua filha que beijasse outra menina? É obvio que em respeito a minha pequena leitora precisei voltar ao tema, mesmo sem perguntar se no seu modo de pensar a minha filha teria ou não gostado do citado beijo.
 – Minha jovem, eu não devo e não vou me desesperar com um fato desses, já que eu precisaria, primeiro, ouvir a minha filha para entendê-la. O fato de ter beijado outra garota não quer dizer que ela seja gay, homossexual ou lésbica – não me importa o nome que você queira empregar. Esse tipo de relação entre meninos ou meninas do mesmo sexo é muito natural enquanto jovens. Essa garotada é motivada não só pela curiosidade como pela sexualidade que grita no seu interior e que é próprio da idade, como eu havia dito. Quem me garante que não querem se mostrar para as pessoas de suas relações? Isso não quer dizer que a sua preferência não seja de se relacionar com gente do mesmo sexo, mas também ninguém garante que não decidirá pelo sexo oposto o que é mais provável. Espero que tenha respondido a sua pergunta assim como também espero que minha amiga tenha se decidido.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

A CASA DO MEU AVÓ.



    

    Eu não me lembro se na casa dos meus avós havia algo que marcasse o tempo,  se o mediam pela posição do sol ou coisa parecida.  Sei, no entanto, que ninguém fazia nada às pressas, por isso tudo saía a contento. Nada do que se fazia era sem propósito, sem tempero ou sem amor.  Vovô levantava cedo para antes do  raiar do sol estar na lavoura.  Minha avó alimentava as galinhas cantando uma canção que até bem pouco tempo mamãe cantava quando nos punha para dormir. Depois  era a vez dos porcos que grunhiam pelo inhame cozinhando no fogão à lenha enquanto os passarinhos chilreavam na gaiola e fora dela. Eu só não entendia por que os meus tios os aprisionava se a maioria cantava tão perto dos seus ouvidos - essa pergunta jamais tive quem me respondesse.  Às dez da manhã o almoço chegava ao alto do morro onde vovô e a maioria dos onze filhos carpia o mato dos pés de café.  Dizem que meu avô era rigoroso na criação dos rapazes, mas eu, moleque de cidade grande que escolhia passar as férias do colégio com eles no sítio, jamais acreditei que aquele gigante de bom coração atentasse contra os próprios filhos.  Com o passar do tempo  meus tios saíram de casa.  O mais velho era uma menina que anos mais tarde os levou para morar na cidade da qual só tinham ouvido falar.   Minha avó, a mulher mais linda e bondosa do mundo, esteve ao meu lado até pouco tempo e felizmente eu pude dar a ela um pouco da minha alegria e em muitos momentos até gargalhar de perder a compostura eu a fiz.  Guardo isso com muito orgulho nas minhas lembranças. Principalmente quando vovó se vestia de fada para contar suas histórias me deixando de boca aberta com seu desempenho. Eu sei que tenho muito dos meus avós nos meus traços, mas de verdade me pareço mais com a minha mãe, não pela doçura e generosidade, mas pelo meu jeito durão, carapaça com a qual me defendo  para dar continuidade a saga dos Klein, dos quais faço parte.
-Agora eu preciso encerrar até porque o sol já se pôs e quando isso acontece é sinal de que as galinhas estão voltando para o galinheiro, mesmo  que vovó lá não esteja cantando a mesma canção.